TECNOLOGIA

Mercado de senhas roubadas abre as portas de sistemas públicos

O Fantástico revelou um mercado clandestino que vende logins e senhas roubados para entrar em sistemas públicos e privados. Entre os serviços anunciados estão alterações em processos judiciais, exclusão de multas e até mudanças em mandados de prisão.Continua após a publicidadeDurante um mês, a reportagem acompanhou grupos e fóruns usados por criminosos para negociar credenciais de servidores e autoridades. Parte desses acessos foi testada pelo Ministério Público e funcionou.
Credenciais comprometidas foram usadas para alterar informações em sistemas ligados à Justiça. – Imagem: tete_escape/ShutterstockQuanto custa uma credencial roubada?As ofertas incluem credenciais e os chamados “painéis”, que concentram informações obtidas ilegalmente. Há consultas envolvendo Imposto de Renda, saúde, compras online, funcionários e vacinas.

O preço depende do sistema e do que o comprador pretende fazer. A reportagem encontrou anúncios como:
Acesso à Secretaria de Segurança do Paraná por pouco mais de R$ 100;

Informações de veículos e condutores por R$ 110;

Login da Justiça de Santa Catarina por R$ 500;

Alteração de processos e retirada de mandado de prisão por R$ 1 mil.
O material chegou ao Ministério Público do Rio Grande do Sul, que já investigava a atuação desses grupos. Com autorização e segurança, investigadores verificaram algumas das credenciais.“Percebemos que é funcional. O que eles prometem, eles conseguem fazer”, afirmou Fábio Costa Pereira, procurador de Justiça do Rio Grande do Sul.Mandados de prisão foram alteradosEm Goiás, a investigação encontrou cerca de 140 adulterações no Banco Nacional de Mandados de Prisão. Informações incorretas em ordens judiciais poderiam fazer uma pessoa inocente acabar presa.O Tribunal de Justiça de Goiás identificou, ao todo, 350 acessos fraudulentos. Em outro episódio, uma ordem de bloqueio falsa chegou a ser emitida no estado.
Credenciais de acesso subtraídas de servidores ou dos próprios magistrados têm sido utilizadas para poder fraudar, inserir, alterar ou excluir, inclusive ordens de prisão dos bancos nacionais.
Sabrina Leles, delegada da Polícia Civil de Goiás, ao Fantástico.Continua após a publicidadeUm casal suspeito de participar das invasões chegou a ser preso. Os dois respondem ao processo em liberdade.Os dados alimentam outros crimesA chamada The Com reúne comunidades criminosas conectadas entre si e espalhadas por diferentes países. Segundo o FBI, muitos de seus integrantes são jovens. Nesses ambientes, credenciais e informações pessoais roubadas não servem apenas para invadir sistemas: também podem ser usadas em golpes, chantagens e outros crimes, como a sextorsão.Foi justamente esse tipo de atividade que chamou a atenção da Polícia Civil do Pará. Em Belém, investigadores encontraram grupos envolvidos na venda de logins e senhas e em outras práticas criminosas. Para acompanhar a circulação dessas informações, a polícia conta com pesquisadores da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), que monitoram bancos de dados expostos na internet.Continua após a publicidadeO volume encontrado dá uma dimensão do problema. Somente em 2026, o projeto identificou 18 bilhões de dados expostos, incluindo informações que podem acabar nas mãos de criminosos e alimentar novas invasões.
Senhas fortes, autenticação multifator e controle de acessos ajudam a reduzir o risco de uso indevido de credenciais. – Imagem: Digineer Station/ShutterstockO alerta que chamou atenção no BrasilNa madrugada de 20 de junho, um alerta da Defesa Civil chegou a praticamente todo o Brasil com a palavra “misantropia”, termo que significa ódio à humanidade.Leia mais:A mensagem foi enviada por um invasor usando logins e senhas de dois bombeiros do Pará. A mesma palavra apareceu nas conversas monitoradas pelo Fantástico.Continua após a publicidadePara os investigadores, a escolha poderia despertar a curiosidade de adolescentes e levá-los a procurar comunidades ligadas a esses grupos.O episódio expõe o risco de credenciais legítimas caírem nas mãos erradas. Senhas, logins e links exigem atenção, enquanto recursos como autenticação multifator e controle de acessos ajudam a dificultar esse tipo de invasão.

Valdir Antonelli

Valdir Antonelli é jornalista com especialização em marketing digital e consumo.

Ver todos os artigos →


Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Botão Voltar ao Topo

Adblock Detectado

Para continuar no site, por favor, desative o Adblock.