Alienação parental antes do divórcio (I)
É muito importante dar voz a histórias reais de pais e mães que viveram situações de alienação parental. Para quem atravessa processos semelhantes, ouvir outros testemunhos pode ajudar a compreender que não está sozinho e que muitas das dúvidas, sentimentos, angústias e dificuldades que enfrenta são partilhados por outras famílias. Mais importante ainda, estes testemunhos permitem perceber que existem caminhos de intervenção, apoio e reconstrução. Quando devidamente identificadas, estas situações podem beneficiar do acompanhamento de profissionais especializados, capazes de ajudar as famílias a compreender os processos em curso, proteger as crianças dos conflitos de lealdade e promover relações parentais mais saudáveis. As histórias reais têm também um papel fundamental na sensibilização da sociedade. Muitas vezes, quem vive estas situações não reconhece os sinais iniciais, interpreta-os como acontecimentos normais da vida familiar ou acredita que está apenas perante diferenças educativas ou dificuldades de comunicação. Escutar a experiência de outras pessoas permite identificar padrões, compreender dinâmicas relacionais complexas e encontrar palavras para descrever realidades que, frequentemente, são vividas em silêncio.
É precisamente por isso que o testemunho do José assume uma particular relevância. A sua história recorda-nos que os processos de afastamento parental nem sempre começam após a separação ou o divórcio. Em muitos casos, os primeiros sinais surgem ainda durante a vida em comum, quando a família continua aparentemente unida e funcional. A dificuldade está, muitas vezes, em reconhecer esses sinais quando eles surgem. Ao partilhar do José pretendemos contribuir para melhorar a compreensão sobre estas dinâmicas, ajudando outros pais, mães, familiares e profissionais a refletir sobre a importância da presença de ambos os pais na vida das crianças e sobre a necessidade de uma intervenção precoce, sempre que surgem comportamentos que possam comprometer essa presença. A história do José é particularmente relevante porque nos recorda uma realidade frequentemente esquecida que é o facto da alienação parental nem sempre começar após a separação ou o divórcio. Em muitos casos, os primeiros sinais surgem ainda durante a convivência conjugal, quando a família ainda está, aparentemente, junta. A dificuldade está precisamente em reconhecê-los.Uma infância marcada por um divórcio saudávelAntes de nos falar da sua própria experiência enquanto pai, o José considerou importante contextualizar a forma como viveu a separação dos seus próprios pais: “Antes de mais, gostava também de partilhar que tenho uma experiência de divórcio que considero benigna. Os meus pais são divorciados e, por isso, cresci desde os meus cinco anos e alguns meses com pais separados. No entanto, pelo menos aos meus olhos, sempre mantiveram uma relação cordial e harmoniosa. Tenho uma madrasta que é como uma segunda mãe para mim e, ainda hoje, os três se relacionam bem e conseguem conviver de forma tranquila. Partilhamos momentos importantes, como o Natal, a Páscoa, alguns encontros familiares e até o meu aniversário, vivendo essas ocasiões em conjunto. Conseguimos conviver todos de uma forma saudável, amiga, tranquila e divertida. Essa é a minha experiência enquanto filho de pais divorciados, uma experiência marcada pela cooperação, pelo respeito e pela capacidade dos adultos manterem relações positivas em benefício da família”. A experiência do José mostra-nos que a separação dos pais não implica necessariamente conflito, afastamento ou hostilidade. Pelo contrário, quando os adultos conseguem preservar o respeito mútuo e colocar as necessidades dos filhos em primeiro lugar, é possível construir relações familiares saudáveis, mesmo após o divórcio. Ao refletir sobre a sua infância, o José acrescentou: “Esta minha experiência é, para mim, realmente um outlier, uma verdadeira exceção àquilo que considero que deveria ser, pelo menos, a regra”.
Quando os sinais de alienação surgem dentro de casaO José explicou-nos que só muito mais tarde conseguiu identificar comportamentos que hoje interpreta como sinais precoces de alienação parental: “A verdade é que, enquanto estamos numa situação de coabitação, em que o casal continua junto, enquanto casal conjugal, tendemos muitas vezes a relativizar, minimizar ou desvalorizar determinados sinais. No meu caso, falo por mera ignorância, por pura ignorância. Na altura não tinha consciência daquilo que estava a acontecer, nem das implicações que determinados comportamentos poderiam ter. No entanto, olhando para trás, consigo hoje identificar aspetos que, naquele momento, me passaram despercebidos. E, ao mesmo tempo, olhando à minha volta para as pessoas com quem me relaciono, amigos, conhecidos, outros pais que têm filhos e vivem em contexto familiar, percebo que tenho dificuldade em encontrar pontos de ligação entre aquilo que foi a minha experiência enquanto casal parental e conjugal e aquilo que observo na realidade que me rodeia. Existe, de facto, uma diferença significativa entre a dinâmica que vivi e aquela que vejo na maioria das famílias com quem contacto. Na altura, muitas dessas situações pareciam normais ou eram facilmente justificadas. Só mais tarde, com o distanciamento e a reflexão que o tempo permite, comecei a perceber que alguns sinais já estavam presentes muito antes da separação e que, por desconhecimento, não lhes atribuí a importância que mereciam”. O testemunho de José mostra como muitos pais não reconhecem os primeiros sinais porque os interpretam como preocupações legítimas com a criança ou como diferenças normais na organização familiar.A exclusão progressiva dos cuidados parentaisUma das áreas onde o José identifica, hoje, que ocorreram sinais de mudanças graduais foi na participação nos cuidados diários das filhas: “Havia também situações muito claras relacionadas com a ausência de partilha na prestação dos cuidados às crianças. Não apenas uma menor participação nas tarefas do dia a dia, mas uma dinâmica familiar que, na altura, eu procurava justificar. Acreditava que a exigência profissional tinha prejudicado muito o descanso diário e, sobretudo, o descanso durante a noite. Por isso, fazia sentido para mim que as tarefas estivessem divididas de determinada forma”. O José explicou que interpretava estas dinâmicas como uma demonstração de cuidado para com as suas necessidades profissionais: “Por essa razão, esta partilha de tarefas parecia-me perfeitamente normal. Na minha perceção, aquilo que era feito, ou a forma como a mãe das crianças atuava, estava relacionado com a preocupação que tinha relativamente ao meu descanso e às exigências do meu trabalho.” Só mais tarde começou a perceber que o que parecia uma divisão funcional de tarefas estava também a limitar progressivamente o seu espaço enquanto pai.
O estreitamento gradual do papel paternoSegundo o José, a exclusão não aconteceu de forma repentina. Foi acontecendo através de pequenas restrições sucessivas: “A verdade é que comecei a achar estranho que, de repente, eu já não conseguia dar banho à criança. De repente, tivemos de fazer uma escala, uma escala física, um papel com os dias em que eu podia dar banho e os dias em que ela podia dar banho, alternadamente”. Mais tarde surgiram limitações relacionadas com as refeições: “Quando ela começou a comer, eu não podia dar de comer porque ela era muito difícil para comer. Diziam que ela não conseguia comer se eu estivesse presente”. Depois vieram outras restrições: “Também não podia adormecer a criança porque eu não sabia, porque era mais rápido, porque era mais fácil, porque ela estava habituada”. O José descreveu este processo através de uma imagem particularmente expressiva: “Isto vai sendo gradual. Vai estreitando, vai estenuando. É uma estenose. Vai estreitando aquilo que é o raio de ação em que nos é permitido fazer alguma coisa”. A metáfora da “estenose” ajuda bem a compreender como o espaço de intervenção do pai se pode ir reduzindo lentamente, até quase desaparecer.Quando dialogar se torna impossívelJosé relatou ainda que sempre tentou abordar estas questões de forma dialogante e colaborativa: “E quando tentamos intervir a bem, quando tentamos falar e chamar à razão, aquilo vira um inferno, porque somos confrontados com uma outra pessoa, com uma agressividade, com uma falta de abertura”. As suas tentativas de reflexão conjunta eram simples: “Dizíamos apenas: ‘Olha, não achas que isto deveria ser um bocadinho mais assim? Um bocadinho mais assado? Podemos partilhar? Podemos fazer de outra forma?’”. Contudo, segundo descreveu: “(…) a resposta vinha agressiva. O ambiente ficava tenso. Instalava-se um grande mal-estar”. Perante esse clima, acabou por recuar: “E nós damos um passo atrás. Não queremos que as crianças assistam a isto”. Esta é uma das partes mais importantes do seu testemunho, muitos pais e mães não recuam por desinteresse, mas porque procuram proteger os filhos do conflito.
O afastamento da família paternaO José considera que o afastamento não o atingiu apenas a ele, mas também toda a família paterna: “De uma forma encapotada, as pessoas não eram impedidas de estar. Mas era-lhes demonstrado que não eram bem-vindas”. Segundo relatou o José, os seus pais sentiam-se tolerados, mas nunca verdadeiramente integrados: “Havia sempre simpatia, sempre palavras agradáveis, sempre a ideia de que tínhamos de combinar alguma coisa. Mas depois não havia contactos, não havia convites, não havia iniciativas. Os meus pais eram tratados como visitas, não como parte da família”. José considera que esta diferença entre discurso e comportamento produz um efeito devastador: “Uma coisa é aquilo que dizemos. Outra coisa são as nossas ações. As pessoas vão sentindo que estão a mais”. Com o passar do tempo, muitos familiares acabam por se afastar espontaneamente: “As pessoas sentem que são convidadas, mas no fundo não são. E acabam por se retirar. Vão deixando de existir. Vão achando que estão a mais”.O reconhecimento tardio da alienaçãoAo longo de todo o seu testemunho, o José regressou repetidamente à ideia de que, durante muito tempo, não compreendeu o que estava a acontecer: “Pensamos sempre que estamos a agir pelo bem-estar das crianças. Nunca pensamos que podemos estar perante um processo de afastamento ou de exclusão parental”. E conclui: “A pessoa não sabe que isto pode ser um comportamento alienatório. Não sabe que isto pode ser um comportamento que vai, aos poucos, reduzindo o espaço do outro progenitor na vida da criança”.
A história do José recorda-nos que a alienação parental nem sempre começa com proibições explícitas ou conflitos judiciais. Muitas vezes, inicia-se de forma subtil, através de pequenas limitações quotidianas que até parecem justificáveis quando observadas isoladamente. Só mais tarde, quando o espaço de participação do pai ou da mãe alienado já se encontra profundamente reduzido, é que o padrão se torna visível. O testemunho do José, um pai alienado, constitui um alerta importante para profissionais, pais e famílias: compreender os primeiros sinais da alienação parental pode ser fundamental para prevenir processos de afastamento que, quando se consolidam, se tornam muito mais difíceis de reparar.
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