CIÊNCIA

O diploma já não basta

Portugal resolveu um dos maiores problemas do século XX: o acesso à educação.Em poucas décadas, o ensino superior deixou de ser um privilégio reservado a uma minoria e passou a estar ao alcance de uma parte significativa da população. Foi uma das maiores conquistas da democracia portuguesa.
Mas o desafio mudou.Portugal aprendeu a aumentar qualificações. Continua a ter dificuldade em transformá-las em produtividade, inovação e prosperidade.A revisão em baixa das previsões de crescimento económico e a persistência de níveis elevados de desemprego jovem expõem essa realidade. O país qualificou-se mais depressa do que conseguiu converter esse investimento em valor económico e social.
O desafio deixou de ser o acesso. Passou a ser o impacto.Num contexto marcado pela digitalização, pela inteligência artificial, pela automação e pela competição global, o conhecimento técnico continua a ser indispensável. Mas já não é suficiente.As organizações procuram profissionais capazes de interpretar informação complexa, trabalhar em ambientes multidisciplinares, adaptar-se à mudança e aprender continuamente. Procuram pessoas preparadas para um mundo onde a transformação deixou de ser exceção e passou a ser regra.É aqui que emerge uma fragilidade estrutural.Continuamos a medir o sucesso educativo pelo número de diplomados. Devíamos medi-lo pela sua capacidade de gerar produtividade, inovação, mobilidade social e crescimento sustentável.
Mas esta reflexão não diz respeito apenas à economia. Diz respeito também às instituições de ensino superior.Durante décadas, a missão das universidades consistiu em democratizar o acesso ao conhecimento e formar profissionais para mercados de trabalho estáveis. Essa missão continua a ser essencial. Mas já não basta.A universidade do século XXI tem de fazer mais do que transmitir conhecimento. Tem de desenvolver capacidade analítica, pensamento crítico, avaliação de evidência, resolução de problemas complexos e adaptação à incerteza. Tem de preparar os estudantes para carreiras que mudarão várias vezes ao longo da vida.Isto exige uma reflexão estratégica sobre currículos, métodos pedagógicos, modelos de avaliação e sobre a própria relação entre ensino, investigação e sociedade. O desafio não é abandonar o rigor disciplinar. É complementá-lo com competências adequadas a uma realidade cada vez mais tecnológica, interdependente e imprevisível.
Não porque a universidade deva servir exclusivamente o mercado de trabalho. Mas porque uma economia incapaz de transformar conhecimento em prosperidade limita inevitavelmente as oportunidades daqueles que investiram na sua formação.A questão já não é formar mais. É preparar melhor.Portugal demonstrou que consegue democratizar o acesso à educação. O desafio da próxima década é transformar esse investimento numa vantagem competitiva duradoura.O país continua a medir o esforço educativo. Tem de começar a medir o retorno desse investimento.Porque o sucesso de um sistema educativo não se mede pelos diplomas que atribui.Mede-se pela capacidade de transformar conhecimento em produtividade, inovação, mobilidade social e prosperidade.

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