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Tigray em chamas: a crise que ameaçaincendiar o Corno de África e o Mar Vermelho

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Aregião do Tigray voltou, na última semana, a ser palco de intensos confrontos entre forças ligadas à Frente de Libertação do Povo do Tigray (TPLF) e forças do Governo Federal da Etiópia. A escalada, que ocorreu depois de semanas de crescente tensão, ultrapassou rapidamente as fronteiras de Tigray e atingiu também as regiões vizinhas de Afar e Amhara. A nova ofensiva ocorre poucos dias depois de sete movimentos armados etnicamente diversos anunciarem a criação da Aliança das Forças do Povo Etíope pela Sobrevivência.

O grupo declarou como objectivo remover o Governo de Abiy Ahmed e estabelecer uma administração de transição. A formação desta aliança altera a natureza da crise.

O conflito já não pode ser analisado apenas como um novo confronto entre Tigray e o Governo Federal. Passa a envolver, sob uma mesma estrutura política, movimentos com bases territoriais, reivindicações e históricos de conflito distintos. A escalada ameaça directamente o Acordo de Pretória, assinado em Novembro de 2022 e que pôs fim à guerra de 2020–2022 entre o Governo Federal e a TPLF.

O Governo de Addis Abeba enfrenta um problema duplo. Por um lado, precisa de impedir que uma coligação de movimentos armados enfraqueça o poder central, por outro, procura preservar as suas opções estratégicas relativamente ao Mar Vermelho e ao acesso marítimo.

A Eritreia é, por isso, uma das principais variáveis da crise. Asmara combateu ao lado das forças federais durante a guerra de 2020–2022, mas as relações com Addis Abeba deterioraram-se depois da assinatura do Acordo de Pretória. No centro das tensões está a questão do acesso etíope ao Mar Vermelho. A Etiópia, sem litoral desde a independência da Eritreia, considera o acesso marítimo uma questão estratégica de longo prazo.

A Eritreia, por sua vez, encara com preocupação qualquer iniciativa etíope que possa aumentar a pressão sobre a sua soberania ou alterar o equilíbrio militar e económico na costa do Mar Vermelho. É neste contexto que qualquer envolvimento directo ou indirecto da Eritreia na nova crise poderia alterar significativamente a dimensão do conflito. A escalada no Tigray ocorre num momento particularmente delicado para o Corno de África. O Sudão continua mergulhado numa guerra entre as Forças Armadas Sudanesas (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF).

A Somália permanece confrontada com instabilidade política e de segurança, enquanto o Mar Vermelho continua marcado pelas consequências dos ataques dos Houthis e pela competição estratégica entre potências regionais e internacionais. A guerra sudanesa acrescenta uma dimensão particularmente sensível à crise etíope. A região fronteiriça entre Sudão, Tigray e Eritreia constitui uma zona de ligação entre diferentes teatros de conflito e pode tornar-se relevante para movimentos de tropas, abastecimento e circulação de grupos armados.

A Etiópia também tem sido acusada de apoiar as RSF no Sudão, acusação que Addis Abeba rejeita. Independentemente da validade dessas acusações, a sua existência demonstra o grau de desconfiança que actualmente caracteriza as relações entre os países da região. Uma expansão da guerra no norte da Etiópia poderia, portanto, aumentar a pressão sobre uma fronteira já afectada pela guerra sudanesa. Existe ainda uma segunda dimensão estratégica: o Nilo.

O Egipto mantém há anos uma disputa com a Etiópia em torno da Grande Barragem da Renascença Etíope (GERD) e da gestão das águas do Nilo. Para Cairo, a capacidade da Etiópia de aumentar a sua influência regional — tanto no interior do Corno de África como no Mar Vermelho — constitui uma questão estratégica relevante.

Ao mesmo tempo, o Egipto aprofundou as relações com a Eritreia. Em Junho, os dois países acordaram reforçar a cooperação, incluindo no domínio económico e marítimo, enquanto Cairo demonstrou interesse no desenvolvimento dos portos de Assab e Massawa.

Essa aproximação não significa necessariamente que o Egipto esteja a preparar-se para intervir militarmente numa eventual guerra entre Etiópia e Eritreia. Mas cria uma nova camada de competição estratégica num momento em que as relações entre Addis Abeba e Cairo continuam marcadas pela disputa em torno da GERD. Leia mais…

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