Cientistas aprovam fim do “segundo bissexto” e mudam como o mundo marca o tempo
Cientistas e representantes de países aprovaram o fim do chamado “segundo bissexto”, ajuste utilizado para manter o tempo oficial sincronizado com a rotação da Terra. A decisão foi tomada nesta quinta-feira (15), durante a 28ª Conferência Geral de Pesos e Medidas, realizada na região de Versalhes (França). A mudança entrará em vigor em 20 de maio de 2027 e permitirá que a diferença entre o tempo oficial e o tempo determinado pela rotação terrestre aumente até uma hora, em vez de exigir correções de um segundo.Continua após a publicidadeA medida busca reduzir os riscos provocados por esses ajustes em computadores, redes de comunicação, sistemas de navegação por satélite e serviços financeiros. O mecanismo será descontinuado após décadas de utilização, em mudança que afeta a maneira como a humanidade coordena a medição do tempo.Segundo o Nature, a decisão também está relacionada à possibilidade de ser necessário aplicar um segundo bissexto negativo, algo que nunca foi feito. Nesse cenário, em vez de acrescentar um segundo ao relógio, seria necessário retirar um, o que poderia provocar dificuldades adicionais em sistemas digitais.Por que precisamos de um segundo bissexto?
A explicação começa com uma diferença fundamental: o tempo medido por relógios atômicos não é exatamente igual ao tempo determinado pela rotação da Terra;
Os relógios atômicos medem o tempo a partir de fenômenos físicos extremamente regulares. A definição internacional do segundo, estabelecida em 1967, utiliza uma frequência específica associada ao átomo de césio-133. Um segundo corresponde a 9.192.631.770 períodos da radiação relacionada a uma transição entre dois níveis de energia desse átomo;
A rotação da Terra, por outro lado, não ocorre em velocidade perfeitamente constante. Embora estejamos acostumados a considerar que o planeta completa uma volta em aproximadamente 24 horas, a duração exata do dia varia;
A atração gravitacional da Lua, por exemplo, exerce efeito de maré que contribui para desacelerar a rotação terrestre ao longo do tempo. Outros fenômenos também interferem nessa dinâmica, tornando impossível tratar a duração do dia astronômico como uma constante absoluta;
Para entender a diferença, imagine dois relógios: um acompanha a passagem do tempo com base em oscilações atômicas extremamente estáveis; o outro representa a relação entre o tempo e a posição aparente do Sol no céu. Ao longo dos dias, pequenas diferenças podem se acumular;
É para administrar essa discrepância que existe o segundo bissexto.
Como funciona o ajuste?O Tempo Universal Coordenado (UTC, na sigla em inglês) é a principal referência internacional para sincronizar relógios e sistemas. Ele serve de base para aplicações que vão de telecomunicações e navegação por satélite a transações financeiras e infraestrutura digital.Desde 1972, o sistema utiliza segundos bissextos para manter o UTC próximo do tempo determinado pela rotação terrestre, conhecido como UT1.Quando a diferença entre as duas referências se aproxima do limite estabelecido, um segundo pode ser acrescentado ao UTC. Em vez de a sequência dos relógios passar diretamente de 23h59min59s para meia-noite, ela inclui um segundo adicional: 23h59min60s.O último segundo bissexto foi acrescentado em 31 de dezembro de 2016. Desde então, não houve novos ajustes desse tipo.O problema é que sistemas computacionais nem sempre lidam bem com essa alteração. Programas e serviços podem interpretar o segundo adicional de maneiras diferentes, provocando inconsistências na sincronização de horários e falhas operacionais.
A situação seria ainda mais delicada caso fosse necessário fazer o ajuste inverso, retirando um segundo. Isso exigiria que sistemas preparados para uma sequência contínua de tempo lidassem com uma correção inédita.A preocupação com os riscos tecnológicos já vinha sendo discutida internacionalmente. Em 2022, a Conferência Geral de Pesos e Medidas decidiu ampliar, até 2035, o limite permitido para a diferença entre o UTC e o tempo determinado pela rotação terrestre. A decisão de outubro de 2026 antecipou a mudança.A nova regra permite que essa diferença chegue a 3.600 segundos, ou uma hora, sem que seja necessário inserir segundos bissextos. O UTC passará a funcionar de maneira contínua a partir de 20 de maio de 2027.De acordo com o Bureau Internacional de Pesos e Medidas (BIPM), a coordenação internacional do tempo é essencial para manter sistemas de navegação, telecomunicações, infraestrutura digital e transações financeiras operando com uma referência comum.Continua após a publicidade
Segundo bissexto era um ajuste utilizado para manter o tempo oficial sincronizado com a rotação da Terra – Imagem: gerado com IA/Olhar Digital
A alteração busca justamente reduzir a necessidade de ajustes irregulares que podem gerar comportamentos inesperados em sistemas tecnológicos.Isso não significa que os relógios atômicos deixarão de funcionar ou que os cientistas perderão a capacidade de acompanhar a rotação terrestre. O que muda é a maneira como as duas referências serão conciliadas no padrão internacional de tempo.Leia mais:A Terra está girando mais rápido?Há outro detalhe que ajuda a explicar por que o tema voltou ao centro das discussões: a rotação terrestre apresentou períodos de aceleração nos últimos anos.Continua após a publicidadeHistoricamente, a influência das marés provocadas pela Lua contribui para desacelerar a rotação da Terra. No entanto, desde 2020, medições indicaram períodos em que o planeta girou mais rapidamente do que o esperado.Segundo o Laboratório de Tempo e Espaço do Observatório de Paris, as causas desse comportamento ainda não são conhecidas com certeza. Uma das hipóteses envolve movimentos internos do núcleo terrestre, cuja dinâmica permanece pouco compreendida.Caso a tendência de aceleração persistisse, poderia surgir a necessidade de um segundo bissexto negativo entre 2030 e 2035. Isso significaria retirar um segundo do UTC, algo que nunca foi implementado na prática.A possibilidade aumentou a preocupação com os efeitos de uma correção inédita sobre infraestruturas que dependem de horários precisos.O que muda na prática?Para a maioria das pessoas, a decisão não provocará uma alteração perceptível na rotina. Relógios de pulso, celulares e computadores continuarão indicando as horas normalmente.Continua após a publicidadeO impacto está principalmente na infraestrutura que precisa manter uma referência de tempo consistente em escala global. Sistemas de telecomunicações, redes de computadores, serviços bancários, navegação por satélite e instalações científicas dependem de sincronização precisa para funcionar corretamente.A mudança também não elimina a necessidade de acompanhar a rotação terrestre. Astrônomos e pesquisadores continuarão utilizando medições específicas para determinar a posição e o movimento do planeta. A diferença é que o UTC poderá se afastar gradualmente do tempo astronômico, sem correções de um segundo.Segundo o BIPM, o limite de uma hora permitirá manter a continuidade do padrão internacional durante vários séculos. Isso transfere para o futuro a discussão sobre como lidar com a diferença acumulada entre o tempo atômico e a rotação da Terra.Continua após a publicidadeA decisão marca, portanto, uma mudança importante na metrologia: em vez de corrigir continuamente o relógio oficial para acompanhar as pequenas variações do planeta, o sistema internacional priorizará uma referência contínua, mais adequada às exigências da infraestrutura tecnológica moderna.
Rodrigo Mozelli
Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.
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