Como a urna eletrônica brasileira protege os votos contra fraudes
A urna eletrônica brasileira completou 30 anos em 2026. Por trás dos botões usados pelos eleitores, há um sistema operacional próprio, chips criptográficos e mecanismos de verificação que ajudam a proteger os programas eleitorais e os resultados da votação.Continua após a publicidadeNas eleições municipais de 2024, mais de 155 milhões de eleitores e cerca de dois milhões de mesários participaram do pleito. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), foi a maior eleição informatizada do mundo.
Camadas de segurança no hardware interrompem o programa imediatamente ao detectar tentativa de violação. – Imagem: Nelson Antoine/Shutterstock
O sistema operacional feito para a urnaA urna utiliza o UEnux, sistema operacional baseado em Linux desenvolvido para o TSE e adotado oficialmente a partir do modelo UE2008. Em vez de reunir os recursos de um computador convencional, ele executa apenas as aplicações necessárias à votação. Não oferece terminal de comandos exposto nem dispõe de componentes físicos para conexão à internet.Essa configuração reduz a quantidade de recursos que poderiam apresentar vulnerabilidades. O sistema também impede a instalação de programas externos e verifica as assinaturas digitais dos arquivos executados. Se um programa não corresponder aos padrões oficiais de autenticidade, a urna impede sua execução.“Sempre que a gente diminui um software, a gente reduz a possibilidade de bugs e outros tipos de falhas”, explicou Jéferson Campos Nobre, professor do Instituto de Informática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em entrevista ao Olhar Digital.A proteção também depende de componentes físicos. O teclado, o leitor biométrico e a impressora térmica possuem chips criptográficos que permitem verificar se as peças são autorizadas. Já o Módulo de Segurança Embarcado (MSE) funciona como um cofre de chaves criptográficas, usadas para proteger dados e assinar digitalmente registros eleitorais.Essas proteções atuam em diferentes pontos do equipamento:
Autenticidade do sistema: as assinaturas digitais ajudam a confirmar que os programas são oficiais e não foram alterados.
Integridade dos periféricos: os chips criptográficos permitem reconhecer componentes autorizados pelo TSE.
Proteção contra adulterações: mecanismos de segurança podem bloquear o funcionamento diante de determinadas tentativas de ataque.
Rastreabilidade dos resultados: o Boletim de Urna registra os totais apurados em cada seção eleitoral.
Auditoria e lacração antes da votaçãoA segurança começa antes de a urna chegar à seção eleitoral. Instituições externas podem inspecionar o código-fonte dos sistemas eleitorais para procurar vulnerabilidades e verificar os recursos de proteção.Concluída essa etapa, os programas passam pela Cerimônia de Assinatura Digital e Lacração dos Sistemas Eleitorais. Os sistemas são compilados, recebem assinaturas digitais de autoridades e ficam armazenados em mídias protegidas na sala-cofre do TSE.O procedimento busca garantir que os programas usados nas eleições correspondam aos que foram inspecionados. Quando a urna é ligada, o sistema verifica as assinaturas digitais. Se elas não corresponderem às chaves oficiais, o equipamento não inicia normalmente.O desenvolvimento de um sistema próprio também permite ao Brasil acessar seu código-fonte, sem depender integralmente de fornecedores que mantêm seus programas fechados. Para Nobre, essa autonomia tem importância estratégica.Continua após a publicidade“Ter hardware com mecanismos de segurança evita que outros tipos de software sejam executados na urna”, afirmou o professor.
A engenharia da urna garante a integridade da votação para um eleitorado de mais de 155 milhões de pessoas. Imagem: divulgação/TSE
Como os votos chegam à Justiça EleitoralDurante a votação, a urna não se conecta à internet nem a redes de dados. Quando o processo termina, ela gera o Boletim de Urna (BU), em versões impressa e digital. O arquivo eletrônico é assinado digitalmente e armazenado na Mídia de Resultado, que segue para um ponto de transmissão da Justiça Eleitoral.De lá, os dados são enviados por uma rede privada, que pode utilizar satélite ou fibra dedicada, até os sistemas responsáveis pela totalização dos votos.O sigilo individual é protegido pelo Registro Digital do Voto (RDV), que armazena os votos de forma embaralhada para impedir sua associação direta aos eleitores. Como explicou Nobre, a transmissão reúne os totais consolidados do Boletim de Urna, e não votos individuais identificados.Continua após a publicidadeA combinação de auditoria, verificação de software, componentes autenticados e transmissão por redes privadas compõe as diferentes camadas de segurança da urna eletrônica.
Valdir Antonelli
Valdir Antonelli é jornalista com especialização em marketing digital e consumo.
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