Nvidia assume risco bilionário para sustentar boom da IA; mercado acende alerta
A Nvidia está ampliando sua atuação no mercado de inteligência artificial (IA) para além da fabricação de chips. A companhia liderada por Jensen Huang também passou a financiar empresas que desenvolvem modelos de IA e constroem data centers, oferecendo garantias e outros mecanismos financeiros para viabilizar projetos de grande porte. Agora, a estratégia enfrenta teste em meio à turbulência nos mercados e ao aumento das preocupações com o endividamento de parceiros.Continua após a publicidadeA Nvidia informou, em seus documentos financeiros mais recentes, que mantinha US$ 36 bilhões (cerca de R$ 194 bilhões) em acordos de financiamento e garantias fora do balanço relacionados a empresas de computação em nuvem especializadas em IA, conhecidas como neoclouds.O montante se soma à garantia de até US$ 105 bilhões (cerca de R$ 567 bilhões) associada a um projeto de data center da OpenAI em Ohio (EUA). A Nvidia também assinou contratos de locação de futuros data centers no valor de US$ 20 bilhões (cerca de R$ 108 bilhões), que posteriormente serão transferidos a terceiros.Esses compromissos não significam que a fabricante já tenha desembolsado todos esses valores. Na maior parte dos acordos, a obrigação de pagar depende de determinadas condições, como o inadimplemento de participantes dos projetos ou o descumprimento de compromissos financeiros.Ainda assim, a dimensão das operações levanta dúvidas sobre quanto risco a Nvidia está disposta a assumir para sustentar a expansão da infraestrutura de IA.Empresas de IA enfrentam pressão nos mercados
Os primeiros sinais de estresse aparecem entre empresas de infraestrutura que receberam investimentos ou apoio financeiro da Nvidia;
As ações da CoreWeave, da Nebius e da IREN acumulavam quedas de pelo menos 30% em outubro, segundo a CNBC. As três companhias operam no segmento de computação em nuvem para IA e ainda consomem grandes volumes de caixa;
A CoreWeave, maior empresa desse grupo, também viu o custo dos contratos de proteção contra inadimplência disparar. O spread de seus credit default swaps, instrumentos utilizados para proteger investidores contra o risco de calote, ultrapassou 11%;
A empresa possui aproximadamente US$ 51,6 bilhões (cerca de R$ 279 bilhões) em dívida total, incluindo cerca de US$ 35 bilhões (cerca de R$ 189 bilhões) em notas, títulos e empréstimos. Os rendimentos de seus títulos com vencimentos em 2031 e 2032 superaram 15%, indicando que os investidores exigem retornos elevados para assumir esse risco;
O cenário também afeta outras empresas apoiadas pela Nvidia. A australiana Firmus retirou seus planos de abertura de capital neste mês, enquanto a britânica Nscale e a SB Energy, apoiada pelo SoftBank, haviam protocolado pedidos para entrar na bolsa estadunidense em setembro, mas não divulgaram atualizações recentes sobre os planos;
A própria Nvidia encerrou a terceira semana consecutiva de perdas em Wall Street na sexta-feira (23). Suas ações acumulavam queda de 7,6% em outubro, o que poderia representar seu pior desempenho mensal desde novembro do ano anterior.
Como a Nvidia passou a financiar o setor de IAA estratégia da Nvidia aproveita vantagem importante: a capacidade de obter crédito em condições favoráveis e mobilizar grandes volumes de capital.Além de fornecer os processadores gráficos necessários para treinar e executar modelos de IA, a companhia ajuda clientes a obter financiamento para comprar equipamentos e construir a infraestrutura necessária para operá-los.O apoio pode assumir diferentes formatos. Em alguns acordos, a Nvidia garante preço mínimo de revenda para os equipamentos ou valor mínimo de contratação da capacidade computacional. Em outros, compromete-se a comprar capacidade de processamento caso o fornecedor não encontre outro comprador.No caso da CoreWeave, por exemplo, a fabricante de chips se comprometeu a comprar até US$ 6,3 bilhões (cerca de R$ 34 bilhões) em capacidade computacional caso a empresa não consiga encontrar outro cliente.Continua após a publicidadeA Nvidia também investe diretamente em empresas do setor. Sua carteira de participações alcançou US$ 99 bilhões (cerca de R$ 535 bilhões) no segundo trimestre, incluindo investimentos relevantes na OpenAI e na Anthropic.O objetivo é ampliar o número de clientes capazes de adquirir seus sistemas. Quanto mais infraestrutura for construída e mais modelos forem desenvolvidos, maior poderá ser a demanda pelos chips da companhia.Jensen Huang defendeu essa estratégia ao afirmar à CNBC que a demanda por serviços de neoclouds está em níveis extraordinários, mas que falta capital de giro para financiar a expansão.Segundo o executivo, há procura por capacidade computacional em diferentes segmentos da IA, mas a disponibilidade de recursos financeiros não acompanha o mesmo ritmo.Compromissos financeiros superam R$ 2,7 trilhõesOs documentos financeiros da Nvidia também mostram a dimensão da estratégia. Em agosto, a empresa detalhou mais de US$ 500 bilhões (cerca de R$ 2,7 trilhões) em compromissos fora do balanço previstos para os próximos anos, a maioria com vencimento até o ano fiscal de 2029.Continua após a publicidadeNo mesmo mês, Huang anunciou parceria com seis grandes gestoras de ativos para impulsionar até US$ 500 bilhões (cerca de R$ 2,7 trilhões) em financiamento para infraestrutura de IA. O plano prevê tratar a infraestrutura computacional como uma classe de ativos capaz de atrair investidores institucionais.O acordo inclui garantias de até US$ 125 bilhões (cerca de R$ 675 bilhões) relacionadas ao valor residual de financiamentos de GPUs, os processadores gráficos utilizados em sistemas de IA.A Nvidia também participa de fundos especializados em infraestrutura. A empresa investiu US$ 2 bilhões (cerca de R$ 10,8 bilhões) no primeiro fundo de infraestrutura de IA da Brookfield, que pretende levantar US$ 10 bilhões (cerca de R$ 54 bilhões). A reportagem também cita veículos de investimento ligados à KKR e à Valor Equity Partners.A fabricante dispõe de recursos próprios para sustentar essa estratégia. No primeiro semestre do ano, gerou US$ 70 bilhões (cerca de R$ 378 bilhões) em fluxo de caixa livre, enquanto a AMD registrou pouco mais de US$ 4 bilhões (cerca de R$ 21,6 bilhões).Continua após a publicidadeA capacidade financeira ajuda a explicar por que a Nvidia consegue assumir compromissos que outras empresas talvez não consigam suportar nas mesmas condições.
Jensen Huang defendeu essa estratégia ao afirmar à CNBC que a demanda por serviços de neoclouds está em níveis extraordinários, mas que falta capital de giro para financiar a expansão – Imagem: FotoField/Shutterstock
Leia mais:Projeto da OpenAI em Ohio concentra riscosUm dos maiores exemplos dessa estratégia é o futuro data center da OpenAI em Pike County, no estado estadunidense de Ohio. O empreendimento poderá se tornar o maior centro de dados do mundo e prevê a utilização de equipamentos da Nvidia por pelo menos 20 anos.Continua após a publicidadeA garantia de até US$ 105 bilhões está relacionada a diferentes cenários envolvendo os contratos de locação. Caso a OpenAI deixe de cumprir seus pagamentos ou enfrente insolvência, a Nvidia poderá assumir o contrato, buscar outro inquilino ou solicitar a venda da instalação. Em determinadas condições, a fabricante terá de cobrir a diferença caso a nova locação ou a venda fique abaixo de um preço mínimo acordado.A garantia, contudo, pode ser encerrada caso a OpenAI ofereça garantias próprias ou alcance classificação de crédito suficientemente elevada.O acordo ilustra como a fabricante tenta viabilizar projetos que exigem investimentos extraordinários, mas também evidencia sua exposição caso os clientes não consigam cumprir as obrigações financeiras.O que acontece se a demanda por IA não corresponder às expectativas?A principal preocupação é que a capacidade computacional construída hoje não gere receitas suficientes para justificar os investimentos.David Trainer, fundador e diretor-executivo da empresa de pesquisa financeira New Constructs, afirmou à CNBC que uma demanda por processamento inferior às expectativas elevadas do setor poderia provocar problemas.O risco envolve não apenas a Nvidia, mas todo o ecossistema de infraestrutura de IA. Empresas que constroem data centers precisam pagar por instalações, energia e equipamentos, muitas vezes antes de receber o retorno dos contratos com seus clientes.Se a procura por computação desacelerar ou os contratos perderem estabilidade, algumas dessas companhias poderão enfrentar dificuldades para honrar suas dívidas. Nesse cenário, garantias financeiras e compromissos de compra assumidos pela Nvidia poderão se tornar mais relevantes.A New Constructs estima que o valor presente líquido dos passivos fora do balanço da fabricante no ano fiscal de 2026 ultrapassou US$ 153 bilhões (cerca de R$ 826 bilhões), aumento superior a US$ 100 bilhões (cerca de R$ 540 bilhões) em relação ao ano anterior.A Moody’s também acompanha o crescimento dos compromissos financeiros fora do balanço em todo o setor de IA. Segundo a agência de classificação de risco, as garantias foram o tipo de estrutura de financiamento fora do balanço que mais cresceu em 2026.Isso não significa que todos esses compromissos se transformarão em perdas. O impacto dependerá das condições de cada contrato, do comportamento dos clientes e do valor que os equipamentos e as instalações ainda terão caso precisem ser revendidos.A Nvidia, por sua vez, sustenta que seus parceiros de nuvem possuem demanda sólida e carteiras robustas de vendas, mas enfrentam limitações para construir infraestrutura em escala suficiente.A companhia também procura seguradoras que possam assumir parte dos riscos associados à perda de valor dos equipamentos. Para Tom Hoad, executivo da Howden, as seguradoras podem ajudar em determinadas operações, mas ainda não representam uma solução completa para o problema.O teste para a Nvidia será manter o financiamento necessário à expansão da IA sem assumir uma exposição financeira que se torne difícil de administrar caso as expectativas do setor não se concretizem.
Rodrigo Mozelli
Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.
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