Quem chumbou no exame esta semana?
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Começa agora a reunião semanal do Geração V, o teu programa de comentário político jovem da Rádio Observador, feito em parceria com o Voto. Eu sou o Vasco Galharde e hoje, apesar desta temperatura nada recomendável, consegui reunir nos estúdios do Observador em Alvalade, o meu trio escaldante de comentadores Maria Vilarigues, Zé Paulo Soares e Joana Zaguri. Olá, meus caros, e obrigado por terem enfrentado estes quase 40 graus para estarem aqui hoje.
Olá, Vasco. Olá.
Olá, Vasco. Não só não há nada de escaldante a acontecer aqui hoje, mas aconselhamos toda a gente a ver vídeos.
Sim, porque esta semana foi quente e voltou a pôr várias instituições à prova. Desde as falhas nos exames nacionais, passando pela indenização de € 15 mil do Estado a José Sócrates, pela saída de Rui Tavares da direção do LIVRE e pela nova declaração de rendimentos do Presidente da República, António José Seguro. Quatro temas que prometem muita discussão e que vão marcar o programa de hoje. Zé Paulo, começo por ti, que dos três foste quem fez os exames nacionais há menos tempo.
Foi.
Soubemos hoje que a plataforma Meta Prof recebeu mais de 200 queixas e falhas de professores. O que aconteceu?
Sim, discutir a plataforma Meta Prof podia ser interessante também, que é um espaço dedicado à divulgação de ações de luta, resistência e reivindicação.
Eu não conhecia até agora.
E poderíamos discutir também os interesses que a plataforma tem. Mas gostava só de começar, porque há uns anos fiz uma entrevista à Marta Temido para o meu podcast na altura, a conversa que a gente se entende, em que ela conversou sobre as suas razões para a saída do Ministério da Saúde. E daquilo que ela disse e daquilo que depois se foi conhecendo passados uns anos, foi evidente que o conjunto de informações que havia na altura, que precipitou a sua saída, eram informações que tinham uma origem. E a responsabilidade aqui não é de forma alguma nos jornalistas, é na forma como a informação vai parar às redações e que interesse é que está por trás muitas vezes dessas informações.
O tipo de informação que aparece.
E da altura. E o tipo de informação também, mas a altura em que ela aparece. A verdade é que depois de António Manuel Pizarro e todo o tipo de informação sobre mortes de grávidas em ambulâncias, deixou de aparecer. Feita a introdução, a adaptação na educação-
Que promete, diga-se de passagem
…a adaptação no caso da educação não tem sido fácil. E o último ano para o ministro da Educação não tem sido de forma alguma fácil.
Mas nunca é uma pasta fácil, não é?
Também nunca é uma pasta fácil, a par da saúde e da administração interna, são certamente as três mais difíceis de qualquer governo. E foram vários os casos e casinhos ao longo das últimas semanas e tem havido alguma falta de boa gestão no caso da comunicação para fora do próprio ministério. Mas tivemos o caso, por exemplo, do exame de português, em que há aquela pergunta que é igual a um livro de preparação para os exames e, portanto, perceber o que se passou no antigo IAVE, agora Educa, seria interessante. Temos o caso das provas online moda, onde me parece que o formato de provas idênticas ano após ano para tentar aferir a evolução do ensino podia ser interessante, mas barrou contra a realidade e contra o facto de haver saídas de informação e agora mais recentemente, o caso da correção dos exames. Por um lado, a informação de que há professores falecidos ou reformados a serem chamados e, por outro, os problemas que têm acontecido na correção online. A questão que eu gostaria de colocar era se alguém acredita que o caso de professores falecidos e reformados serem chamados começou a acontecer este ano. Se alguém acredita que isto é possível. Por quê? Porque as listas que não estão atualizadas com professores reformados e mortos, são listas que saem das escolas. Quer dizer, as listas ficaram desatualizadas este ano? Ou seja, os professores que já faleceram há mais tempo que há um ano não eram chamados em anos anteriores? Por que será que não tivemos a informação sobre isto em anos anteriores? É uma questão que me parece relevante que precisamos colocar, porque a responsabilidade ao nível das listas e de chamar os professores é das escolas, não é do Ministério da Educação. Sobre o caso da correção online, parece-me também importante dizer que a correção online acrescenta um conjunto de benefícios aos alunos. Em primeiro, uma equidade. Ou seja, neste momento aquilo que acontece é que um exame é corrigido integralmente por um professor e um professor corrigirá volta de 20 exames. E dependendo do exame ou do professor que calhará a um determinado aluno a corrigir o seu exame, vai depender a nota que ele tem, se for mais ou menos exigente. Aquilo que neste momento a proposta é feita quando se apresentam as provas na correção online, é que um professor corrija apenas uma questão, o que garante maior uniformização na correção dos exames e mais justiça.
Trave fechante, sim.
Portanto, isto seria algo positivo e depois protege os professores contra, por exemplo, o desaparecimento de exames, contra os exames, por exemplo, se danificarem, que são responsabilidades dos professores quando os exames são físicos. Vamos dizer que nos últimos anos nunca aconteceu exames desaparecerem, nunca aconteceu exames estragarem-se e os problemas do modelo anterior de correção nunca apareceram.
Mas agora tens um novo modelo e é um novo modelo que não funciona. O primeiro teste que teve não funcionou.
E esse modelo, que já teve um teste o ano passado em Filosofia, e esse modelo que este ano estamos agora a ver, aquilo que o ministro nos disse ontem foi que manifestamente boa parte dos casos que se conhecem de falhas são casos falsos.
São fake news.
Se são falsos ou se não são, nenhum de nós a esta mesa consegue aferir. A informação das instituições é que é falso. Se não for falso e se o Educa e o INE têm dito que são falsos, então temos que perceber o que é que nestas instituições está a falhar para que nos chegue a informação que são falsos e afinal são verdadeiros.
Joana, o ministro da Educação, Fernando Alexandre, disse e cito: “Nenhum aluno será prejudicado.” Confias nas palavras do ministro?
Acho que o ministro não pode dizer isso, porque não tem garantia do que está a dizer. Acho que o ministro o que pode dizer é que vai fazer o possível e o impossível dentro do seu alcance para tentar resolver aquilo que é uma valente trapalhada. A uma determinada altura, eu achei este discurso do Zé Paulo particularmente interessante. Caricato. Nós passamos de comparar à admissão da Marta Temido, que de fato se prendia com questões cujas pessoas que teriam conhecimento seria muito mais limitado do que exames nacionais. Portanto, numa escala de Likert, por assim dizer, diria que essa teoria da conspiração é-
São casos particulares de professores. Nunca aconteceu casos anteriores de exames desaparecidos, etc. Por que esses casos dos alunos nunca chegaram à comunicação social?
Não, essa não é a questão. Eu vou te deixar terminar, Joana.
Sim, eu também interrompi.
Desculpem. Essa não é toda a questão. Tu estás a falar dos casos dos professores falecidos. Isso é evidente e até veio posterior, já é na sequência, quando estamos já no calor da notícia. Portanto, quando se continuou a investigar e claro, a tentar trazer para o debate público ainda mais coisas para cravar mais uns pregos no caixão do governo, que é o que se faz sempre. Agora, esqueces que originalmente até, uma das primeiras declarações do governo foi: “Foram as escolas que agrafaram mal os QR codes.”
E que ninguém profissionalmente mentiu.
É absolutamente extraordinário. Enquanto este governo devia assumir uma coisa muito simples: foi uma experiência e uma experiência que correu mal. Foi uma experiência que correu mal. Os professores, e aliás, se tivesse estado atento, neste caso, aos movimentos sindicais, terias percebido. Isto foi falado na altura da greve geral, os professores já estavam a alertar e falaram variadíssimas vezes sobre os riscos que se corria com este modelo de correção de exames. E depois vens dizer aqui uma coisa que me preocupa seriamente, Zé Paulo. Dizer que isto é mais vantajoso para os professores e que cria uma maior equidade. Bem, então nessa lógica, Zé Paulo, o salto que tu dás é uma coisa absolutamente extraordinária.
Os exames serem corrigidos on-line não é um benefício dos professores.
Este ano não vai ser, porque não vai conseguir ser assim.
Exato, este ano não vai ser.
O ministro diz que é possível garantir. Se não for possível garantir, eu concordo completamente.
Mas o ministro antes dizia que estava tudo bem, o que o ministro diz não se escreve, Zé Paulo.
Deixa-me só dizer que eu concordo plenamente contigo de que nenhum aluno será prejudicado, é uma frase demasiado forte.
Desculpa, mas é assim, eu acredito genuinamente, mas acredito mesmo, acho que as pessoas estão a fazer um alarme gigante à volta da tecnologia. Sei que a Maria discorda de mim, no que toca à inteligência artificial.
Isto não tem nada a ver com inteligência artificial, são digitalizações de folhas.
Tu própria já me disseste que achas que é uma ameaça maior do que-
É mais ou menos, não me ponhas palavras na boca.
São digitalizações de folhas. Qual é que é a tecnologia aqui por trás? São folhas a ser digitalizadas. Uma, duas, três, quatro.
Olha, mais razão estás a dar. É que estás mais razão do que tu estás a dar contra. É absolutamente surreal. Desculpa, mas eu não interrompi ninguém. Eu não interrompi ninguém e estou a ter menos tempo do que o Zé Paulo, para variar. Portanto, vamos ter calma. E foi sucessivamente.
Mas estás a gastar o teu tempo, sim.
Agora, o ministro não pode fazer uma afirmação tão forte como esta, porque não pode, porque isto é uma valente trapalhada, isto não tem outro nome. Foi uma asneira. E perdeu-se na política, e aqui também falo sobre o meu partido, perdeu-se na política a humildade de quando se faz uma experiência, admitir os erros. Admitir os erros. E é absolutamente surreal, porque nós neste momento estamos com milhares de alunos num estado de ansiedade, porque não sabem o que vai ser o seu futuro, se vão ter que repetir exames, se não vão, o que vai ser. Nenhum aluno vai ser prejudicado. O que esta frase me diz? Não vai ser prejudicado, como? Vão ter que repetir os exames? Não vão? Efetivamente, se os repetirem, foi-lhes dada uma nova oportunidade. Estamos aqui a falar de uma coisa que, para variar, falhou aquilo que falha sistematicamente no nosso país, que é prevenção e organização. Falhou. E falhou uma coisa tão simples, como diz o Zé Paulo, digitalizar folhas. E para quem não nos está a ver em vídeo, estamos a fazer um movimento, tipo virar a fremg.
Sim, isso aí falhou, evidentemente.
Falhou, eu sei que já não temos muito tempo, mas eu queria só deixar uma nota. Que o Educa, que é o Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação, é um instituto público. É um instituto público criado pelo governo em setembro.
Mudar o nome a um instituto que existia, pelo amor de Deus.
Agregaram o IAVE, agregaram a Direção Geral de Educação, o Plano Nacional de Leitura e a Rede de Bibliotecas Escolares.
Desculpa, o nome do instituto que existia? Então, pera lá, isso não é a grande reforma do Estado? E agora é o nome do instituto. Então é só mudar o nome? É tipo CEFI, mas quer ver.
E depois, eu não sei se vocês já foram lá ao site do Educa, aquilo tem um site todo catita, muito catita, muito bonitinho.
Pelo menos investiram no site, muito bem.
Investiram, mas parece que não investiram em absolutamente mais nada.
Não investiram em digitalizar.
E portanto, eu acho altamente interessante, estou a ser irônica, acho altamente interessante a posição de pessoas como aqui o nosso querido Zé Paulo, que vêm dizer que isto é responsabilidade das escolas, isto é responsabilidade de não sei quem.
As listas são responsabilidade das escolas. Isso é factual.
Mas as escolas estão integradas aonde?
É responsabilidade dos diretores das escolas. Quer dizer, a responsabilização de tudo o que acontece nas escolas é do ministro?
Como é que tu podes chegar-
É que se for, os ministros mudam uma semana.
Mas o ministro aqui-
Também vais dizer que a responsabilidade do exame de português também é das escolas e não de quem o-
É do Educa.
Zé Paulo, mas o ministro aqui disparou para todos os lados, disparou para as escolas, disparou para os professores, disparou para o Educa, que é um instituto público que foi criado por decreto de lei em setembro.
Não, e uma das grandes reformas do ensino em Portugal.
Mas não é possível ter responsabilidades?
Não, mas a questão é-
Parece que temos o Partido Socialista restelo, que é só contra podermos ter exames que beneficiem a correção dos alunos e ser mais justos.
Claro, mas eu acho isso muito bem.
Se correu mal, correu mal, é evidente.
Agora, como é que é possível o ministro chegar a esta altura do campeonato e dizer que é tudo fake news, é tudo mentira, aquilo que está tudo bem, ele vai conseguir assegurar. Tens vários professores a dizer que isso não é verdade, tens vários alunos a dizer que isso não é verdade.
Não vamos bater mais nos professores. Vamos pôr em causa a palavra dos professores que estão a alertar para isto há meses.
Uma das partes tem que parar em casa. A questão de ter responsabilidade dos exames. Nos últimos exames de moda, houve também professores que fizeram greve e ninguém aí se preocupou com o estresse dos alunos. Eles estavam preocupados antes, há dois meses.
Sim, e depois aqui.
Há dois meses os professores manifestaram preocupação com estes exames desde o início.
É muito fácil criticar os professores, mas quem vai limpar a trapalhada deste ministro e dos seus institutos públicos vão ser os professores, que em agosto vão ficar a corrigir exames à mão. Portanto, é muito bonito este género de afirmações como o Zé Paulo.
Provavelmente não vão receber mais por isso.
O que é que tu mudavas no Ministério da Educação?
O ministro.
É um ministério que estruturalmente é impossível de ser governado. Alguém tentou fazer alguma coisa.
Ó Vasco, faço referência ao nosso episódio, temos uma hora precisamente a discutir o ensino e não chegava e teríamos ficado mais tempo a falar.
Há muitas falhas no ensino que podia dizer e neste ministro em particular. Podemos sempre estar na posição de defender, mas também podia apontar falhas.
Este ministro em particular, por exemplo, quando andou aqui a fazer o Educa e quando andou a tentar implementar uma modernização das escolas, que é obviamente necessária, se calhar devia ter prestado um pouco mais de atenção às pessoas que realmente estão na escola, que realmente vão ver estas coisas aplicadas na prática e que realmente têm preocupações legítimas.
E os resultados PISA a cair há 10 anos. Tem corrido tão bem que acho que continuar aquilo que estávamos a fazer, devíamos continuar. Se voltasse Tiago Brandão Rodrigues, Luís Pedro Mano Brandão Rodrigues, teríamos de voltar.
Mas quem é que está a dizer que devíamos continuar? Eu hoje acho que estou a discutir com uma pessoa do Partido Socialista, porque tu estás completamente do contra.
Qualquer alteração que seja feita, no caso da educação, e é um caso muito particular, qualquer alteração que é feita que vá contra o status quo, seja de sindicatos, seja do que for, tem sido crucificada. Aí está a acontecer há dois anos.
Estou te aqui a dizer que acho que é desejável haver uma modernização nas escolas.
Mas quando se apresenta-
Mas não se apresenta, onde é que ela está? É nos exames com QR codes errados.
Os QR codes não foram errados. Então é que foram gravados em cima dos QR codes.
Exato, portanto, as instruções que foram dadas não foram corretas.
O ministro diz que avisou as escolas.
Tu acreditas muito no ministro, tens muita fé nele. Eu não tenho muita fé.
E vocês acreditam muito em todas as notícias de professores que aqui aparecem.
Os professores que estão nas escolas a fazer exames hão de saber muito melhor.
Estamos ambos a tomar um dos lados da história que está a falar.
Pois, e vamos ver quem é que vai ter razão, porque eu aposto contigo que em agosto vai haver professores a corrigir exames à mão.
Vamos ver.
Muito bem, está feita a primeira parte do “Geração V”. Vamos agora para um curto intervalo e já voltamos para a segunda parte do nosso programa. Até já. Estamos de volta para a segunda parte do “Geração V”. Nos últimos dias, veio a público que em maio António José Seguro declarou à Entidade para a Transparência um património financeiro de 1,2 milhões de euros. Um milhão de euros a mais face à declaração entregue em dezembro do ano passado, quando formalizou a sua candidatura presidencial, onde declarou património de cerca de 188 mil euros. Segundo o jornal Sol, o Presidente da República acrescentou à sua declaração de rendimentos as contas bancárias da sua mulher. Joana, isto é uma mancha na credibilidade de Seguro?
Não se fosse uma mancha.
Claro.
Se quiseres completar o que acabaste de dizer, apresentou à Entidade da Transparência, ou seja, se quisesse esconder e ocultar-
Mas por que agora?
Não apresentava. Por que agora? Provavelmente porque foi aconselhado, no sentido que já o deveria ter feito.
E não foi aconselhado antes, por quê? Por que não foi aconselhado antes a apresentar?
Olha, isso é uma excelente pergunta, e eu agradeço. Não, é uma excelente pergunta. Que alguém lhe fizesse, porque a própria notícia o diz, que acrescentou o património da mulher. Não acho que a personagem do António José Seguro possa ser atribuído, que teve aqui uma grande jogatana política, porque se quisesse assim um grande move político, não declarava, não apresentava.
Não apresentava como? Não apresentava nada. É que o que eu gostava de saber é se o António José Seguro, nosso querido presidente, estou a ser irónico obviamente.
O património é dele. Quer dizer, é património adquirido.
Mas ele é casado ou não é casado?
Ele é casado em comunhão de adquiridos.
Mas já era antes.
Eu acredito que à data. E até tivemos essa discussão por causa de outro político que tu e eu gostamos imenso, chamado Luís Montenegro, a propósito dos regimes de bens. E portanto não vejo que isso seja minimamente problemático, nem que seja uma mancha no seu… Porque se for, o próprio virá esclarecer. E tenho a certeza absoluta.
Maria, o que aconteceria se soubéssemos disto durante a campanha?
Eu não partilho da opinião da Joana, como é evidente. A Joana é claro que diz que quando é uma pessoa do Partido Socialista que é visada, que não fez nada de mal, está tudo bem. Eu tenho aqui uma notícia do Observador da altura das presidenciais, que dizia: “Rendimentos de António José Seguro, sem carro, sem dívidas e com três empresas. Um verdadeiro espartano.” Um espartano, uma pessoa que não tem nada, um homem simples. Vamos ver uma coisa que é importante eu deixar claro. Não tem problema nenhum uma pessoa ter património de 1 milhão de euros, 10 milhões de euros, 100 milhões de euros, desde que tenha sido adquirido, obviamente, de forma legítima. O problema que eu vejo aqui é só um, que a Joana também vê, mas não consegue admitir, que é o problema de há seis meses atrás, António José Seguro tinha um património 10 vezes inferior àquele que tem hoje. Que eu saiba, nós não tivemos uma boda agora de António José Seguro, semana passada, para ele agora decidir que afinal junta com o património da mulher. E havia inclusive questões nos rendimentos que ele apresentou, que na altura não batem certo com a altura das presidenciais. Por exemplo, ele aqui nesta notícia dizia que ele não tinha dívidas. Agora tem dívidas de cerca de 600 mil euros, três bancos, se eu não me engano.
Acho que é o Santander.
Portanto, acho que António José Seguro, como é óbvio, achou que isto o ia prejudicar na campanha presidencial.
Vou te lançar um desafio.
E escolheu esconder uma coisa.
É perguntares, e a ti, ó Vasco, e voltamos a falar sobre isto para a semana. Vocês perguntem na Assembleia da República
E peçam aos deputados para vos explicar o quão complicado é saber o que se deve e não deve. Agora é um problema dele. Coitado, que ele nem tem ajuda, não tem advogados. Eu não acredito que estejas mal-intencionado. Não é, claro que não. O Sócrates também não é nada mal-intencionado, já vamos falar dele a seguir.
Não está a comparar o segundo .
Eu não comparei. Eu fiz uma afirmação, vocês é que estão a comparar. Eu só disse que vêm os dois do mesmo sítio, que era do Partido Socialista.
O que é agora, na tua opinião?
Ninguém percebe. Acho que a nova declaração não apresenta nenhum problema. Se fosse a primeira, não havia nada ali a apontar. Há uma questão apenas, que era: até agora disseram-nos que ele era benamincorense e percebeu-se que ele afinal é benfiquista. É a única questão diferente que aparece ali.
Que é péssimo, diga-se de passagem.
Agora percebe-se que afinal é sócio do Benfica, mas isso o teu grande líder também é sócio do Benfica. E portanto, é a única grande diferença que se conhece aqui. A questão de ele não ter apresentado antes, realmente é estranho. Não me parece que teria impactos eleitorais, por que ele não decidiu apresentar antes, não se percebe. E naturalmente, fica a mancha. E no melhor pano também cai mancha.
Desculpa, Vasco. Eu ia só dizer que não é o melhor pano, mas vamos ver quais são as razões.
Passando agora de Belém para a Justiça, soubemos também esta semana que o Estado foi condenado a pagar €15 mil a José Sócrates por violação do segredo de justiça. O Tribunal Administrativo de Lisboa concluiu que o Sócrates foi lesado durante a investigação da Operação Marquês. Maria, como é que regista esta notícia bizarra?
Olha, eu se calhar vou ter uma opinião que é controversa, que é: é verdade que José Sócrates tem razão neste caso . É muito simples.
O Venturo disse o contrário. O Venturo disse que não queria pagar.
Mas eu estou aqui a representar-me a mim própria.
Ainda bem.
Eu estou aqui a representar-me a mim própria.
É ótimo, claro.
É evidente para qualquer pessoa que houve fugas de informação durante toda a Operação Marquês. Isto já aconteceu, e aconteceu inclusive noutras investigações.
Não era possível naquela altura saber se aquelas informações.
Noutras investigações que visaram outras pessoas do Partido Socialista, porque eles são sempre muito concorridos nestas coisas.
E de outros partidos, já foram outros.
É evidente que houve, de facto, fugas de informação neste processo. Isso é grave.
Nem a José Sócrates desejamos tal coisa, não é?
Isso é um bom ponto, porque eu acredito num Estado de direito e acredito num Estado de direito democrático, em que os arguidos têm direitos, mesmo que esse arguido seja José Sócrates, que eu tenho a minha opinião sobre ele, que toda a gente sabe, mas ele não deixa de ser um arguido que tem direitos e que tem direito à presunção de inocência, porque se acabamos com a presunção de inocência, então isto fica realmente uma balbúrdia completa. O que é triste aqui, o que é verdadeiramente dramático, é que sejam os contribuintes portugueses que tenham que eventualmente pagar, porque o Ministério Público já disse que vai recorrer desta decisão. O José Sócrates também pedia €205 mil, que ele também não faz a coisa por menos. Ele tem advogados. Ele não tem advogado, atenção. Ele não tem advogado, mas ele tem ali advogados para pagar. E portanto, eu acho que é dramático que a incompetência do Estado, neste caso do José Sócrates, leve a que seja o contribuinte que tem que pagar a fatura de coisas que realmente aconteceram e que são verdade. E portanto, eu acho triste que nós contribuintes tenhamos que acabar a pagar ao José Sócrates, que foi um dos maiores malandros que este país alguma vez viu, tenhamos que acabar a pagar-lhe indeminizações que ainda por cima eu acho que são justificadas.
Joana, achas pouco €15 mil?
É obviamente uma provocação.
Tenho uma coisa a dizer, que é: há bastante tempo, como advogada, que já não lia uma sentença tão bem fundamentada.
Faz-nos lá o resumo.
A juíza versou sobre várias temáticas. O pedido não se esgotava, também falava sobre a lentidão do processo, que foi uma grande discussão, até porque tivemos o procurador a dizer que, de facto…
Isto também culpa do Sócrates, não é?
Essa foi uma das grandes temáticas de discussão, era se efetivamente havia ou não, da parte da defesa do José Sócrates, litigância de má-fé. E a juíza considerou abuso, neste caso não seria litigância de má-fé.
Manobras dilatórias.
Manobras dilatórias e atos de má-fé processual. E a juíza considerou que não, porque dentro do contexto das datas a que o processo reporta, que não deixa de ser das partes mais cômicas do processo. Quer dizer, o José Sócrates processa o Estado português pelo atraso na Justiça e só tem uma sentença nove anos depois. Acho que isso fala por si. Também foi discutido o tempo da sua prisão preventiva, que a juíza considerou que dois anos e três meses foi efetivamente justo. E tem ali uma discussão muito interessante para a atualidade, que é: a juíza refere na própria sentença que os prazos para o Ministério Público não são vinculativos, são meramente indicativos. Algo que nesta altura do campeonato, sabendo que ia ser uma sentença que ia ser exposta nos meios de comunicação social, acho que é precisa alguma coragem. Ainda há outras temáticas, mas quanto ao mais, efetivamente, e eu gostei muito da forma como é fundamentado, só a Autoridade Tributária, o Ministério Público e os OPCs é que poderiam ter conhecimento à data a que reportam os factos, e isso é muito importante
Dizer-se dos atos que estavam a ser praticados. Aliás, não só porque estava em segredo de justiça, porque se houvesse outros intervenientes a ter conhecimento, prejudicaria a própria investigação. Tem havido aí uma onda nas redes sociais a dizer que foi o próprio José Sócrates que fez leak destas notícias, mas isso nem sequer faria sentido, porque senão não teria sido surpreendido à porta do aeroporto em 2014. É uma lógica que não colhe. É evidente, e a juíza fundamenta aquilo de uma maneira easily, que é só dentro destas três entidades e um número muito reduzido de pessoas é que poderiam ter acesso a esta informação. E 15 mil euros é calculado dentro do valor do pedido, é o que é calculado e eu acho que o cálculo faz sentido. Agora, também concordo com José Sócrates quando diz: é uma condenação histórica. E tem razão, e é. Quer se goste, quer se não goste, até à sentença final não tomo uma opção. Quer se goste ou quer se não goste, este mecanismo processual existe e não foi uma coisa de agora, foi uma coisa que foi transposta em 2017. O problema é só termos a resposta agora.
Zé Paulo, 15 mil euros são bastantes fotocópias.
São muitas fotocópias, mas ele perdia 205 mil fotocópias. Portanto, ter 15 mil, apesar de tudo, é um bocadinho menos. Só lhe deram razão apenas num ponto. Mas um dos pontos que Sócrates também se queixava, como dizias, era a demora. Ver José Sócrates queixar-se da demora do processo. Ele já não é ouvido desde novembro, onde pediu 10 ou 15 dias que precisava para fazer a preparação dos pontos seguintes. Passaram-se oito meses, e oito meses depois ele disse, na semana passada, que está pronto pra poder recomeçar em setembro.
É dramático isto, é absolutamente dramático.
É preciso não ter vergonha nenhuma na cara.
Mas ele não tem.
Havia notícias no Expresso esta semana também sobre como a escola Sócrates está a fazer escola nos tribunais ao nível das manobras dilatórias e portanto há gente a copiar. Acho que era esta semana no Expresso que havia essa notícia. A justiça tem que tocar a rebate, tem que agir.
Não passa por esta reforma do Código de Processo Penal. Essa não passa, de certeza.
Era aí que eu ia, porque eu não tenho opinião sobre isso, como podem calcular, mas no caso da justiça, parece-me ser dos casos onde o governo está demorando mais a agir, porque foram prometidas muitas reformas, passaram-se dois anos e até agora ainda pouco ou nada se viu.
A ministra está a tentar fazer algumas, mas o Partido Socialista aqui acha que está tudo bem.
Sobre isso não posso opinar.
Não acho que está tudo bem. Agora, com os direitos de defesa do arguido, como está previsto na proposta atual em discussão pública, é muito preocupante.
Eu só gostava de ir à questão das manobras dilatórias e sobre a nova lei que foi aprovada, em que os arguidos podem ter que pagar até 10 mil euros. É o valor teto máximo. E comparar esses 10 mil euros com os 15 mil que o Estado vai ser, e que nós contribuintes vamos ser obrigados a pagar, por causa de uma falha do próprio Estado e por causa de uma falha do próprio Ministério Público. E portanto, Sócrates queixa-se de assassinato do caráter, mas eu não diria que é um assassinato de caráter em praça pública.
Esse assassinato de caráter foram palavras do procurador.
Porque nós temos, mas as deles são mais ou menos a mesma coisa.
Ele é uma vítima, ele acha que é uma vítima.
Temos e-mails, temos informação que é determinada pública, bem ou mal, mas que nós temos em nossa posse, que nós sabemos. A opinião pública cria é fundamentada com base nisto. E acho que devemos distanciar duas coisas. É importante termos a presunção de inocência do arguido, mas também a presunção de inocência não significa a presunção da nossa estupidez. Nós vimos e ouvimos o que vimos e ouvimos e temos opiniões só sobre isso. E a opinião que nós temos sobre ele acho que é mais do que fundamentada.
Muito bem. Para terminar, também foi notícia a saída de Rui Tavares como porta-voz do Livre, apesar de continuar como deputado e a fazer parte da direção nacional do partido. Jorge Pinto assume o papel que será dividido com Isabel Mendes Lopes, que continua no cargo. Joana, isto é basicamente sair não saindo.
Eu não percebi sequer.
Sair ficando.
Sair ficando é melhor. Eu só gostava era de saber por quê. Porque eu acho que todos nós gostávamos de saber por quê.
Há a Europeias em 29, pode ser uma passagem pra isso.
Sim, mas por quê? O que é que foi agora? Por quê? Mas depois o Livre admite que pode vir a ser candidato a primeiro-ministro. Primeiro que não existe… Eu estava a citar a notícia, Zé Paulo. Que eu não sei o que é que é um candidato a primeiro-ministro.
Era a pergunta que eu ia fazer, mas o Zé Paulo já te respondeu.
Eu não sei o que é um candidato a primeiro-ministro, mas o Livre diz que sim, ou pelo menos as notícias dizem que o Livre disse. Eu só não percebo o porquê.
E que o Livre tem um candidato a primeiro-ministro.
Eu só não percebo o porquê. E isto leva-nos a uma discussão que, infelizmente, já não vamos ter tempo, que é se a direita também faz as suas brincadeiras e correm mal, a esquerda nesta altura do campeonato não se pode dar ao luxo de estar a fazer este tipo de coisas. Por que o senhor não podia ficar? Por que agora? Eu sei que estamos na silly season. Eu tenho perfeita consciência disso e que precisávamos de notícias, nós próprios também tivemos dificuldade em arranjar temas pro programa, mas eu só não percebo por quê, e pra quê chamar a atenção. Vamos ver, então se calhar pode vir a ser, vá, candidato a primeiro-ministro, o que quer que isso queira dizer.
Exatamente, Zé Paulo, porque o Livre disse que já estava preparado pra governar.
Com certeza, o Bloco também tinha um governo soberano. E correu tão bem. O Bloco tem um deputado, julgo saber. E portanto, não sei se o Livre tem o mesmo fim.
Por isso que eu não percebo porquê, desculpa, o Livre estava numa rota de crescimento.
Até porque o Livre é um partido de única pessoa. As pessoas conhecem o Rui Tavares e vivem da personalidade e da forma como fala bem, da forma como consegue convencer as pessoas. E por muito que simpatize com o Jorge Pinto, que é quase meu conterrâneo Não correu nada bem.
Evidentemente que não colhe o mesmo apoio.
A questão é: a esquerda mais radical ou a esquerda à esquerda do PS, a extrema esquerda, tem sondagens terríveis com o PCP, com o Bloco e com o PAN. O único partido que ainda sobrava e apesar de tudo, mais moderado, europeísta, etc., que tinha uma cara um bocadinho mais simpática, já ia chegar a esse ponto.
Moderado.
O Livre tinha dois caminhos, que era aparentemente com o Rui Tavares podia apresentar-se com uma face um bocadinho mais moderada que o Bloco e que o PCP, e parece não estar a escolher esse. Parece escolher o do grupo parlamentar, onde nota-se já mais radicalização, onde se nota uma aproximação muito evidente àquilo que era o Bloco que nós sempre conhecemos. E se for esse o caminho que o Livre quer seguir, que é o caminho de se tornar um Bloco um bocadinho mais próximo do PS, vai ter o mesmo fim, inevitavelmente, porque aquilo que vemos nos outros países europeus é que também estes partidos acabam por sofrer numa primeira fase. E o Livre pode ter que sofrer isso. E só uma coisa para acabar. O Livre mantém esta ideia das eleições diretas ou primárias, como eles chamam. Correu tão bem com o Francisco Paupério, que depois nem queriam ir à segunda volta e queriam impedir que o rapaz fosse candidato, porque as elites dirigentes depois queriam escolher. Nas presidenciais era para ir a primárias, depois não era, afinal já era, íamos marcar uma data, depois já não é, afinal vamos escolher, afinal apontamos este, afinal o segundo. Aquilo não serve para nada. Correu bem com a Joacine? Não. Com o Francisco Paupério ficaram muito zangados porque não foi a Filipa Pinto. E agora continuam a insistir.
O Francisco Paupério é excecional.
Que até podia ser uma pessoa mais moderada e até mais adequada.
Ficámos a perder um parlamentar europeu.
Eu não sei o que é que o Livre quer no futuro, quer ser uma espécie de Frankenstein político e não vai dar grande futuro.
Acho que estas inovações políticas têm sempre um problema.
Maria, o que tu achas que o Livre quer e quero ouvir se achas que Jorge Pinto é uma boa escolha.
Eu acho que é uma excelente escolha. Já não sei se foi o Napoleão que disse: “Nunca digas ao teu inimigo quando ele está a cometer um erro.”
Maria está a ser um bocado de ironia, porque depois isto aparece nos vídeos.
Eu estou a ser irónica. Eu sou uma pessoa que gosto muito de ironizar.
Não precisas dizer, eu acho que as pessoas já estão a conhecer.
Ao contrário do que disseram aqui os meus caríssimos colegas, é óbvio que o Livre não é de todo um partido moderado. Deixa-me terminar. É um lobo com pele de cordeiro.
Deixa ouvir a Maria que tem dois minutos.
E defende exatamente o mesmo que o Bloco defendia, com um rebranding novo.
É europeísta.
Peço desculpa, é apenas e só isso que é a diferença. E o Rui Tavares é outra pessoa que dá aquela aparência de ser uma pessoa moderada e um académico, mas depois vai-se a ver as coisas que ele diz e ele é exatamente-
Uma pessoa do Chega a falar sobre moderação.
Ainda bem que disseste uma pessoa do Chega, porque o Rui Tavares aquilo que ele adora falar é do Chega e adora chamar populista ao Chega.
Tu adoras falar do PS.
Eu vou só ler aqui uma coisa que o Rui Tavares disse, que é para ver quem é populista: “Entre um terço e metade das contribuições para a Segurança Social são de imigrantes”, disse ele. 23 de julho de 2025. Ele até teve a sorte de ser visado pelo Polígrafo, que não é nada parcial, e neste caso até lhe disse que ele estava errado. Mas ele não teve o mínimo pudor em vir dizer às pessoas que entre um terço e metade das contribuições para a Segurança Social são de imigrantes, o que é uma mentira, mas ele veio dizer isto porque isto é conveniente à sua narrativa política. E portanto, o Livre para mim é um partido que é uma fotocópia do Bloco com outra face, que é a face do Rui Tavares.
E que vai ter o mesmo caminho, é isso?
Eu espero que sim. E com o Jorge Pinto, acho que estão muito bem entregues. Outra vez, estou a ser irónica. E volto a recordar o que disse o Jorge Pinto quando foi candidato às presidenciais, que foi um candidato ótimo, como nós sabemos, estou a ser irónica, que disse que se houvesse uma revisão da Constituição, à direita, que ele dissolvia o Parlamento. Portanto, nós estamos muito bem entregues a este verdadeiro democrata que é o Jorge Pinto.
O Livre está pronto para governar o país.
Queres acabar assim o programa, José Paulo?
É o que eles dizem.
Nós fingimos que acreditamos.
Sim, está feito o programa de hoje. Obrigado aos meus comentadores, José Paulo Soares, Joana Zaguri e Maria Vilarêdo. Até para a semana.
Obrigada.
Obrigada, até para a semana.
O “Geração V” é uma parceria entre o Ou Vote e a Rádio Observador. Podes ouvir-nos na rádio, em podcast e ver-nos em vídeo no YouTube. Eu sou o Vasco Galhardo, muito obrigado por estares deste lado, tudo a correr bem e até para a semana.








