A Liturgia viva da Igreja
A ordenação episcopal de quatro sacerdotes da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), à revelia da Santa Sé, no passado dia 1 de Julho, feriu a unidade da Igreja, rasgando a túnica inconsútil de Cristo. É de lamentar que nem a carta escrita por Leão XIV os tenha demovido do seu propósito cismático.
Embora a liturgia seja a razão aparente desta grave dissidência eclesial, é provável que essa questão seja apenas um pretexto para questionar a própria Igreja e, sobretudo, os seus mais recentes ensinamentos. De facto, a FSSPX contesta o Concílio Vaticano II, bem como o magistério pontifício posterior, por entender emanado de Papas heterodoxos e, portanto, merecedores de uma desobediência que entendem ser expressão da sua fidelidade a Cristo e aos princípios tradicionais da fé.É verdade que, como o então Cardeal Joseph Ratzinger reconheceu numa antiga e longa entrevista concedida a Vittorio Messori, nem tudo o que alguns atribuem ao Concílio Vaticano II é ortodoxo, nem corresponde à fé e à moral da Igreja católica, como também nem tudo o que consta da FSSPX é heterodoxo, nem contrário à fé e à moral da Igreja católica. Os documentos conciliares não divergem do que é a doutrina e a tradição católicas, pois o último concílio ecuménico, ao contrário do Vaticano I e do de Trento, entre outros, não foi um concílio dogmático, mas pastoral.Por outro lado, a Igreja vive, desde sempre, uma salutar tensão entre o depósito revelado – que nenhum Papa, ou Concílio, pode alterar – e as circunstâncias do seu tempo. Em pleno século XVI, a Igreja católica teve de tomar uma posição sobre as questões levantadas por Lutero e, nesse sentido, Trento foi uma boa resposta à reforma protestante, como também a encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV, é uma adequada reacção ao desafio da inteligência artificial.
O Vaticano II foi, sem dúvida, o mais importante acontecimento eclesial do século XX, e as suas constituições e declarações, em sintonia com a tradição eclesial, apontaram para novos caminhos de evangelização, nomeadamente no que respeita ao chamamento universal à santidade (Mt 5, 48) e ao papel dos leigos na construção de um mundo mais cristão, porque mais solidário e justo (Mt 25, 14-30).Embora a constituição conciliar sobre a celebração do mistério cristão, ao indicar os princípios a ter em conta na reforma litúrgica, seja programática, a prática posterior foi muito além do que nesse documento conciliar se propunha. Um exemplo: o Vaticano II nunca impôs, nem sequer propôs, a celebração eucarística de frente para o povo.A Conferência Episcopal Portuguesa recordou, em excelente Nota Pastoral de 5 de Maio de 2025, que “o Concílio Vaticano II aprovou critérios para a revisão do Ordinário da Missa: simplificação e maior clareza dos ritos, conservando a sua substância; supressão das coisas menos úteis que, ao longo do tempo, se foram duplicando ou acrescentando; restabelecimento, de acordo com os Padres da Igreja de elementos desaparecidos; participação mais activa e consciente dos fiéis; uso da língua vernácula; abundância das leituras bíblicas.” (Todas as citações literais em que não se indique outra fonte, constam neste documento).Pode-se dizer que o Concílio Vaticano II procurou fazer, em relação à Liturgia, o que fez em relação à nova edição da Sagrada Escritura, a Neovulgata: expurgá-las de tudo o que, com o passar do tempo, lhes tinha sido espuriamente acrescentado, para recuperar a sua originária beleza e autenticidade.
Neste sentido, não é correcto opor a tradição ao Vaticano II, como se este concílio tivesse interrompido o processo histórico da liturgia católica: “o Missal Romano, promulgado por São Paulo VI em 1970, conjuga a fidelidade à Tradição viva da Igreja, aplicando cuidadosamente as determinações do Concilio Vaticano II. Por isso, também ele é antigo e novo. Desde então, tem recebido actualizações, em sucessivas edições típicas, com destaque para as introduzidas por São João Paulo II. ‘Assim, pode afirmar-se que a reforma litúrgica é estritamente tradicional, porque se atém ‘às normas dos Santos Padres’ (Vigesimus Quintus Annus, nº 34).” Como também recordou o nosso episcopado, “a Liturgia não é uma peça de museu, mas a oração viva da Igreja, ou melhor, a Liturgia é algo permanente e vivo ao mesmo tempo.”A recente reforma litúrgica corresponde, precisamente, a mais uma etapa desse longo processo histórico, em que a renovação ocorre em sintonia com a fidelidade à tradição litúrgica: “A renovação conciliar da Liturgia exigiu um aprofundamento das riquezas das fontes litúrgicas em plena fidelidade à Sagrada Escritura e à Tradição. Neste sentido, tornou-se possível o uso da língua vulgar, apesar da manutenção do latim, pois todas as línguas são litúrgicas no seu contexto próprio. Recorde-se ainda que, até ao século IV, a língua oficial da Liturgia em Roma era o grego.”Os apóstolos celebraram a Páscoa judaica com Cristo, na véspera da sua paixão e morte. Das primitivas celebrações cristãs ficou a expressão grega “Kyrie eleison”. Quando a Cristandade se espraiava pelos domínios do império romano, o latim tornou-se, naturalmente, a língua franca da Igreja, que ainda hoje usa expressões latinas, como Requiem e Te Deum. Ou seja, a liturgia católica nunca foi rígida, nem estática, mas firme quanto ao seu fundamento – a Sagrada Escritura e a Tradição – e flexível quanto às formas, conjugando tradição e modernidade, segundo o princípio evangélico: “todo o escriba instruído nas coisas do Reino dos Céus é semelhante a um pai de família, que tira do seu tesouro coisas novas e velhas.” (Mt 13, 52).O Santo Padre – que recebeu os cismáticos Bartolomeu I, Patriarca ecuménico de Constantinopla, Carlos III da Grã-Bretanha e a ‘arcebispa’ de Cantuária – deve manter o diálogo com o agora cismático superior da FSSPX, por forma a pôr termo a esta dolorosa separação. Na carta que lhe dirigiu, Leão XIV recordou que Jesus de Nazaré envergava uma “túnica sem costura, pois era toda tecida de alto a baixo” (Jo 19, 23). Essa veste de uma só peça é imagem da prioridade do Papa para o seu pontificado romano: a unidade da Igreja.
É provável que Maria tenha tecido, com as suas mãos, a túnica inconsútil de Cristo. Como Mãe que é dos discípulos do seu Filho, alcance a graça da unidade de todos os cristãos na única Igreja, que tem no Papa o seu pastor supremo e o garante da sua autenticidade evangélica. Todos com Pedro, a Jesus, por Maria! Nota: A crónica da semana passada, em que se reproduziram literalmente algumas palavras do Cardeal Robert Sarah sobre o caso Galileu, foi objecto de muitos comentários, que confirmaram os factos nela referidos, bem como a existência de uma ‘lenda negra’ sobre este processo. Não se faz História com mitos, mas com a realidade, e, por isso, a ignorância e o preconceito são os principais inimigos da ciência em geral e da História em particular.
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