TECNOLOGIA

Asteroide misterioso está perto de ser fotografado pela primeira vez

Uma pequena rocha espacial que acompanha a Terra em sua órbita ao redor do Sol pode, na verdade, ser um fragmento da Lua. A resposta para esse mistério pode estar próxima, já que a sonda chinesa Tianwen-2 está prestes a iniciar observações científicas detalhadas do asteroide 469219 Kamoʻoalewa e tentar coletar amostras que serão trazidas para análise na Terra.Continua após a publicidadeEmbora a Lua seja o satélite natural mais conhecido do planeta, ela não é o único objeto que viaja pelo espaço em companhia da Terra. Atualmente, os astrônomos conhecem oito chamados “quase-luas” ou quase-satélites, pequenos asteroides que orbitam o Sol praticamente em sincronia com a Terra e levam um ano para completar uma volta ao redor da estrela.Entre eles está o 469219 Kamoʻoalewa, nome havaiano que significa “objeto celeste oscilante”, em referência ao movimento aparente que apresenta no céu. O asteroide mede entre 30 e 60 metros de diâmetro e percorre uma órbita ao redor do Sol muito semelhante à da Terra, mantendo essa configuração de forma considerada extremamente estável.Origem do asteroide ainda divide cientistas
O interesse dos pesquisadores pelo Kamoʻoalewa vai além de sua órbita incomum;

Durante anos, análises da forma como sua superfície absorve e reflete a luz sugeriram que o objeto poderia ser um fragmento da Lua, lançado ao espaço após um impacto de meteorito ocorrido há muito tempo;

Entretanto, estudos mais recentes colocaram essa hipótese em dúvida;

As novas análises indicam que o objeto pode ser apenas um asteroide rochoso comum do tipo condrito LL, cuja superfície teria sido profundamente alterada pelo desgaste provocado pela exposição prolongada ao ambiente hostil do espaço;

Para esclarecer essa questão, a Administração Espacial Nacional da China lançou, em maio de 2025, a missão Tianwen-2, projetada para estudar o asteroide de perto e trazer amostras para a Terra.
Sonda já deve estar orbitando o objetoA missão apresenta elevado grau de dificuldade técnica. Um dos desafios é a rápida rotação do Kamoʻoalewa, que completa uma volta sobre seu próprio eixo a cada 28 minutos, tornando a coleta de material mais complexa.Agora, a espaçonave está se aproximando de seu destino. Observações realizadas por uma estação terrestre localizada em Bochum (Alemanha) indicam que a Tianwen-2 acionou brevemente seus motores para pequenas correções de trajetória, antes de executar uma queima principal em 7 de junho.Com base nessas observações, acredita-se que a sonda já esteja em órbita do asteroide. O início das operações científicas é esperado para a primeira semana de julho.Durante a missão, a Tianwen-2 fará diversas aproximações ao objeto para coletar amostras destinadas a análises laboratoriais detalhadas. A espaçonave deverá pairar sobre a superfície enquanto aspira partículas soltas de poeira, realizar um breve toque para recolher uma amostra maior de rocha e ainda tentar utilizar extensões robóticas para alcançar material localizado abaixo da superfície.

Tianwen-2 já estaria na posição esperada – Imagem: Reprodução/X/Andrew JonesLeia mais:O que é um quase-satéliteApesar do nome, um quase-satélite não é uma lua verdadeira.Enquanto a Lua permanece gravitacionalmente presa à Terra, os quase-satélites continuam ligados gravitacionalmente ao Sol. Ainda assim, vistos da Terra, esses objetos frequentemente parecem orbitar o planeta durante décadas ou até séculos.No caso do Kamoʻoalewa, os cientistas acreditam que sua órbita sincronizada com a da Terra deverá permanecer estável por muito tempo.Embora pareça acompanhar o planeta, o asteroide nunca chega muito perto da Terra. Estudos de sua órbita indicam que ele entrou na configuração atual de quase-satélite há aproximadamente 100 anos.Continua após a publicidadeSua maior aproximação ocorreu em 27 de dezembro de 1923, quando passou a cerca de 12,44 milhões de quilômetros da Terra. Já no fim de maio de 2369, deverá estar a uma distância equivalente ao dobro da separação entre a Terra e o Sol.Amostras podem resolver o mistérioA principal dificuldade para determinar a origem do Kamoʻoalewa é que observações realizadas da Terra permitem estudar apenas sua superfície.Os astrônomos utilizam o espectro da luz refletida pelos objetos espaciais para identificar os elementos químicos presentes em suas superfícies. As primeiras observações espectrais do asteroide mostravam grande semelhança com materiais encontrados na Lua.Continua após a publicidadePosteriormente, novas análises sugeriram que o desgaste causado pelo ambiente espacial — conhecido como intemperismo espacial — pode ter alterado a aparência da superfície do objeto, levando a interpretações equivocadas.Por isso, obter amostras do interior do asteroide é considerado fundamental. Como o intemperismo modifica principalmente as camadas externas, analisar material abaixo da superfície poderá revelar sua verdadeira composição e ajudar a determinar sua origem.Missões anteriores, como a japonesa Hayabusa-2 e a norte-americana OSIRIS-REx, já demonstraram a importância da coleta de amostras diretamente de asteroides. As análises em laboratório permitem identificar composições minerais, assinaturas isotópicas e outras características impossíveis de serem medidas apenas por observações realizadas da Terra.Essas duas missões também revelaram detalhes inesperados sobre os asteroides estudados, informações que não poderiam ter sido obtidas apenas com telescópios.Continua após a publicidadeObservações decisivas começam este mêsSe as previsões atuais se confirmarem, a Tianwen-2 iniciará suas observações científicas mais importantes por volta de 4 de julho de 2026.Imagens, medições e as primeiras tentativas de coleta de material poderão fornecer novas pistas sobre a origem do Kamoʻoalewa.A confirmação definitiva, porém, dependerá das análises laboratoriais das amostras trazidas para a Terra. Esses estudos deverão indicar se o objeto realmente é um fragmento da Lua ou se pertence à família de asteroides do cinturão principal, tendo sua superfície sido transformada por milhões de anos de exposição ao ambiente espacial.Segundo os pesquisadores, qualquer um dos resultados terá grande valor científico. Refutar uma hipótese amplamente aceita pode ser tão importante quanto confirmá-la.Caso o mistério seja solucionado, o Kamoʻoalewa poderá fornecer novos conhecimentos sobre a evolução do sistema Terra-Lua e sobre o ambiente dinâmico que marcou os primórdios do Sistema Solar interno.

Rodrigo Mozelli

Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.

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