CIÊNCIA

"Falta de tempo na consulta leva 51% dos doentes a usar IA"


Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Explicador da Rádio Observador: mais de metade dos portugueses, 51%, um bocadinho acima de metade, considera recorrer à inteligência artificial em vez de consultar um médico. Este valor está um pouco abaixo da média de 58%, que é registrada em 20 países analisados num estudo hoje divulgado, o relatório STADA Health Report 2026, que coloca Portugal na 11ª posição entre 20 países, numa tabela que é liderada, neste caso, pelo Cazaquistão, em que 74% das pessoas admite recorrer à IA em vez de consultar um médico. Este estudo foi realizado entre fevereiro e março deste ano, terá cerca de 20 mil entrevistados, e conclui que a abertura à utilização da IA na saúde é maior entre os homens, os mais jovens e pessoas que recorrem à automedicação. Os resultados do inquérito têm mais dados curiosos, mostram, por exemplo, que 30% dos portugueses inquiridos usam a IA para entender diagnósticos, 22% para prevenção, 13% para preparar uma consulta com o médico, 11% para uma segunda opinião, 6% para suporte em saúde mental, enquanto 49% não usam a IA para saúde. Há ainda mais um dado interessante. Este estudo revela que quatro em cada 10 portugueses estariam dispostos a armazenar todo o seu historial e dados de saúde num sistema de IA. Sessenta e um por cento dos portugueses inquiridos temem erros ou diagnósticos incorretos, o que está acima da média dos 20 países, que é de 54%. Eu sou o Ricardo Conceição e comigo está a Judite de França.
E o nosso convidado, Fernando Sá, é cardiologista na ULS de Matosinhos. Bem-vindo ao Explicador. Obrigada pela disponibilidade. Cinquenta e um por cento dos inquiridos admite recorrer à inteligência artificial, 51% dos portugueses, em vez de uma consulta médica. Fica preocupado com este valor?
Boa tarde. Na verdade, preocupado, não. O valor, tal como o estudo mostra, está enquadrado com aquilo que são os parâmetros europeus e internacionais. E reflete também muito daquilo que é a prática clínica diária. Eu fico preocupado é com o que esses valores revelam ou o que nós podemos tirar da necessidade que os doentes sentem de cuidados adicionais.
Exatamente, porque no fundo, poderá estar aqui escondido nestes dados, a facilidade ou acesso a uma resposta, neste caso, que é praticamente imediata, mas poderá estar aqui escondido, por exemplo, o preço de acesso a consultas particulares, mesmo com 3 milhões de utentes, salvo erro, com seguro de saúde, o acesso ao SNS, poderá estar aqui algo escondido nestes valores.
Mais do que os preços, acho que o que aqui revela é uma questão de tempo. Ou seja, o principal motivo pelo qual as pessoas procuram o recurso à inteligência artificial, e aqui depreendo que o recurso à inteligência artificial sejam os modelos de linguagem. Portanto, os modelos mais utilizados, o ChatGPT, o Claude ou os afins. E portanto, entender um diagnóstico é algo que um médico, com tempo, consegue fazer melhor do que um modelo de linguagem desse gênero, de inteligência artificial. Em princípio, conseguirá fazê-lo. Primeiro, porque consegue ler a linguagem não verbal da pessoa enquanto estamos a explicar o diagnóstico, e também adaptar, faz parte da formação, adaptar a linguagem ao nível do conhecimento da pessoa que está à sua frente. É uma coisa que às vezes demora muito tempo, dependendo do diagnóstico. Há coisas mais fáceis de explicar, há coisas mais difíceis, há pessoas que percebem mais, há pessoas que percebem menos. E portanto, isto é uma questão de tempo. Ao fim de algum tempo, qualquer médico deve ser, em princípio, capaz de explicar qualquer doença a qualquer pessoa. E esse é o principal revelador, é que falta tempo na consulta. Seja em cuidados primários, seja em cuidados hospitalares, seja no sistema nacional de saúde, seja no privado, o tempo que a pessoa tem com o clínico não é suficiente, pelo menos para esses 30%, mais ou menos, que procuram por esse motivo, não é suficiente para que compreendam completamente o diagnóstico. Ou então, sendo suficiente para os casos que poderão ser, há coisas que, e isto também acontece, as pessoas têm vergonha ou medo de perguntar, digamos assim, e perante o chat, que não faz qualquer tipo de julgamento, perguntam com mais facilidade. Isso sempre existiu e, na verdade, haver uma forma de ultrapassar essas situações é boa. E por isso não tenho medo do fato de esses números serem os que são. Acho que são um espelho, um reflexo daquilo que temos no nosso estado sistema de saúde, nomeadamente, falta de tempo para a consulta e alguma falta de acessibilidade clara, que se vê quer com a busca para uma segunda opinião, que em princípio seria algo que o doente poderia fazer do ponto de vista privado, e que se calhar aí, sim, poderá não ter recursos para tal. E a questão do apoio à saúde mental também.
Exatamente. Aqui no estudo, 11% procura para uma segunda opinião e 6% para suporte de saúde mental, aqui eu diria que é ainda mais preocupante ou é muito preocupante.
Sim, aí sim, até porque no que toca a apoio de saúde mental, estamos a falar de situações que são normalmente abordadas por equipes multidisciplinares Não só por médico, mas também obviamente por terapeutas, por psicólogos, por diversas instituições muitas vezes. É esse tratamento e orientação estruturada que tem de longe os melhores resultados, mesmo com a integração do doente na comunidade, em terapias de grupo e afins. É um valor reduzido, felizmente, mas é uma situação onde há alguma preocupação, porque de facto o apoio artificial à saúde mental não tem os mesmos resultados que teria o apoio pessoal, em muitos casos.
Deixe-me só perguntar-lhe: quando se fala neste acesso à inteligência artificial, um dos parâmetros é que quem mais faz esta escolha é quem se automedica. Isto é um sintoma também.
Sim, sem dúvida. Na área da cardiologia, mais do que a automedicação por si só, pessoas que tomam apenas medicamentos baseados nas suas opiniões e decidem a sua própria medicação. Mais do que isso, o que acontece na cardiologia também são pessoas que vão parando e recomeçando a medicação de acordo com aquilo que acham que devem fazer. E isso também se enquadra nesse grupo classificados como automedicados, só para esclarecer. E a verdade é que é muito aquele perfil de pessoa que ou não tem uma boa relação ou uma boa experiência com os cuidados de saúde e que portanto acaba por recorrer à sua decisão autónoma. Nesse tipo de doentes é muito importante a desconstrução de mitos, a transparência entre cuidados de saúde e o doente e partilhar objetivos e metas. Ou seja, há uma relação muito humana que mostra e que traz o doente de volta para aquilo que lhe dá maior probabilidade de sucesso, mesmo que às vezes ouça ou possa ter que fazer coisas que não era aquilo que gostava. Porque o problema da inteligência artificial neste contexto, e toda a gente que a usa sabe disso e percebe, é que, regra geral, é influenciável para nos tentar agradar. Se eu tentar influenciar uma resposta, vou tê-la.
Vai sempre procurando estimular mais perguntas e tentando ir ao encontro do que percebe que é a forma de estar ou de pensar de quem faz as perguntas, não é?
Exatamente. E é preciso perceber também que a própria inteligência artificial, à medida que a vamos utilizando, vai traçando um perfil nosso. Ou seja, eu se for um utilizador assíduo, se utilizar sempre o mesmo sistema e fizer sempre as perguntas de forma consecutiva, ela vai retendo memória de alguns traços meus, ou seja, as minhas preferências, a minha forma de falar, aquilo que eu gosto de ouvir, aquilo que eu não gosto, o que me faz fazer mais perguntas e o que me faz desligar.
E uma das vantagens do médico é dizer aquilo que nós não gostamos e não queremos ouvir.
Exatamente. Isso ao mesmo tempo é uma das vantagens, mas também uma das desvantagens, dependendo do perfil da pessoa. Às vezes a verdade não é aquilo que nós gostamos, mas em princípio o médico será a pessoa que nos vai dizer aquilo que de facto deve acontecer no que toca a cuidado de saúde específico e não tenta agradar em demasia. E aí, claro, a inteligência artificial é preciso compreender que é um produto, os chats, os modelos de linguagem, que é aquilo que estamos a falar, são produtos que têm também como interesse seduzir a pessoa, quer ao seu produto, quer a fazer mais perguntas e a continuar a usar. Portanto, tenta sempre agradar e pode, com isso, acabar por induzir a pessoa em erro relativamente ao que fazer.
Deixe-me só interrompê-lo, porque aí 61% dos portugueses inquiridos temem, de facto, erros ou diagnósticos incorretos. Isso está acima da média dos 20 países estudados.
A verdade é que os erros nestas circunstâncias chamam-se alucinações, porque são alucinações dos sistemas de inteligência artificial que inventam referências, estudos e conselhos. Isso não é feito de uma forma intencional, não são os modelos que estão criados para isso. Simplesmente são falhas do próprio modelo. Não estou a dizer que sejam coisas intencionais, mas os próprios sistemas podem alucinar, ou seja, inventar justificação para aquilo que estão a dizer. E é preciso haver um conhecimento tecnológico, um conhecimento digital, uma literacia digital, que não existe. Portugal é dos países da União Europeia em que a literacia digital é mais baixa. Eu acho que utilizar os sistemas de inteligência artificial com peso e medida e sabendo em que é que estão a usar, é sem dúvida interessante. Por exemplo, 13%, se não estou em erro, cerca de 15%, utilizavam para preparar a consulta. Eu acho isso extremamente interessante, que é uma forma de eu otimizar o tempo que vou ter com aquela pessoa antecipadamente, saber o que eu devo reforçar, o que eu estou à espera. Acho que é uma das utilidades mais práticas disto.
Dr. Fernandes Sá, e pelo lado dos médicos, tem havido cada vez mais também, imagino, a utilização destas ferramentas. Também estão a ser usadas, por exemplo, para confirmar uma suspeita de diagnóstico?
Neste momento, obviamente não posso falar por todos. Eu faço parte do grupo de trabalho de aplicação de inteligência artificial na área da cardiologia a nível europeu, e uma das coisas que tem vindo a ser discutida é o âmbito, quer de utilização, quer da otimização. Estamos numa fase muito inicial destas tecnologias, em que há sistemas para tudo Há sistemas para ajudar a aumentar a probabilidade de eu diagnosticar uma coisa corretamente. Há sistemas para eu perceber que doente é que tem mais risco e que doente é que tem menos risco e até para adivinhar quem é que vai faltar à consulta e quem é que não vai. Há muita coisa de evidência, às vezes duvidosa, outrora entanto, e portanto estamos numa fase em que é difícil saber exatamente o que usar, quando usar e como usar.
Mas os médicos estão a ter formação específica para isso?
Esse é exatamente um dos tópicos que têm vindo a ser discutidos. Quando é muito no início, é muito interessante, há muito potencial, mas ao mesmo tempo também é difícil de fazer essa gestão. E estamos neste momento a tentar integrar na formação dos nossos internos, os médicos, que já são médicos, mas que estão a fazer a sua especialização, a tentar começar a incluir módulos de formação na área. Ainda é uma coisa muito inicial, poucos médicos têm de facto formação estruturada na área de inteligência artificial. No fundo, há muitos médicos que gostam da área e portanto acabam por ser um pouco autodidatas e estudar um pouco isso, mas já começa a haver um grupo, por exemplo, a Sociedade Portuguesa de Cardiologia, da qual faço parte, tem um grupo de estudo de saúde digital com pessoas dedicadas e com formação específica na área e já tentamos anualmente começar a fazer formação para os médicos saberem exatamente o que utilizar e como utilizar.
Temos de fechar a nossa conversa. Faço-lhe aqui só uma provocação. O Dr. ChatGPT não deve substituir o Dr. Google, que não deve substituir o médico. É a moral desta história.
Na verdade, sim. Eu diria que o Dr. Google já está substituído pelo Dr. Gemini, porque agora pesquisar no Google dava alguma resposta do Gemini e portanto estão a par, estão um bocadinho empatados entre os dois.
Obrigado, Dr. Fernandes Sá, cardiologista da ULS de Matosinhos, aqui a comentar este estudo, hoje conhecido, que 51% dos portugueses admite recorrer à inteligência artificial em vez de uma consulta médica.

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