TECNOLOGIA

China está prestes a ganhar carros solares, mas tecnologia não é bem o que parece

A China está prestes a receber nova tecnologia que pode transformar o teto de vidro de carros em fonte de geração de energia. A fabricante de vidros automotivos Fuyao Glass colocou à venda um produto capaz de produzir eletricidade a partir da luz solar, mas a novidade ainda está longe de tornar os veículos realmente movidos pelo Sol.Continua após a publicidadeA ideia de utilizar a luz solar para alimentar carros elétricos existe praticamente desde o surgimento dos próprios veículos elétricos. O problema é que a quantidade de energia solar que chega à superfície da Terra, considerando a área disponível em um automóvel, não é suficiente para fornecer toda a energia necessária para movimentá-lo.Isso não impediu o desenvolvimento de carros solares. Competições estudantis, como a American Solar Challenge e a Formula Sun Grand Prix, já utilizam veículos movidos pela energia do Sol. Esses modelos, porém, são pequenos, extremamente leves e projetados para transportar apenas uma pessoa, características muito diferentes dos carros convencionais.Um exemplo mais próximo de um automóvel comum é o da Aptera, empresa que desenvolve há anos um veículo elétrico equipado com teto solar. O modelo já chegou a protótipos dirigíveis, mas ainda apresenta diversas concessões em relação a um carro convencional e não consegue gerar energia solar suficiente para se manter completamente em movimento.Por outro lado, graças a uma bateria de grande capacidade, a quantidade de energia produzida pelos painéis pode ser suficiente para que alguns motoristas gerem energia suficiente para compensar todo o consumo de um trajeto diário, incluindo a eletricidade captada enquanto o veículo está estacionado.Vidro solar pode gerar 150 W por metro quadradoA proposta da Fuyao Glass tenta levar a tecnologia para veículos de aparência convencional. A empresa desenvolveu um vidro automotivo que pode ser instalado no teto do carro e desempenhar simultaneamente as funções de cobertura de vidro e painel solar.Segundo a fabricante, o produto consegue gerar cerca de 150 W por metro quadrado. O número é próximo do desempenho de painéis solares convencionais modernos, que produzem aproximadamente 200 W por metro quadrado.A diferença está na construção do vidro. O produto da Fuyao é translúcido, enquanto os painéis solares tradicionais não permitem a passagem de luz. Como parte da radiação atravessa o vidro, a eficiência naturalmente é menor.

Por outro lado, essa característica pode ser adequada para o uso automotivo, já que os tetos de vidro dos carros normalmente são projetados justamente para bloquear uma parcela significativa da luz que chega ao interior.A empresa divulgou vídeos e imagens de demonstração mostrando como a tecnologia poderia funcionar. Em uma das representações, é possível observar árvores através do teto enquanto o veículo passa por elas, ao mesmo tempo em que o padrão das células solares pode ser visto através do vidro pelo interior do automóvel.Energia não é suficiente para mover o carro
Mesmo que toda a área disponível do teto solar seja coberta pelo vidro fotovoltaico, a quantidade de energia produzida ainda não é suficiente para movimentar um automóvel convencional;

Veículos elétricos altamente eficientes podem consumir centenas de vezes mais energia durante a aceleração até atingir determinada velocidade. Por isso, a proposta da Fuyao não é utilizar o vidro para alimentar diretamente o motor;

A eletricidade produzida poderia, em vez disso, compensar parte do consumo dos diversos equipamentos eletrônicos presentes nos veículos modernos;

Segundo a empresa, a energia poderia ser utilizada para alimentar funções de conectividade à internet, o ar-condicionado ou um sistema de gravação de dados instalado no veículo, como o Sentry Mode da Tesla, que pode consumir uma quantidade significativa de energia.
Continua após a publicidadeNos carros elétricos, esses equipamentos são alimentados pela própria bateria de tração. Embora a quantidade de energia consumida seja pequena diante da capacidade total da bateria, esse gasto reduz a autonomia e faz com que o veículo precise ser conectado à tomada com maior frequência. O consumo também ocorre enquanto o carro está estacionado.
Empresa divulgou vídeos e imagens de demonstração mostrando como a tecnologia poderia funcionar – Imagem: Divulgação/FuyaoTecnologia também pode chegar aos carros a combustãoA Fuyao, porém, não apresenta a tecnologia exclusivamente como uma solução para veículos elétricos. Em um dos vídeos de demonstração, a empresa utiliza como exemplo um BMW movido a gasolina. Nesse caso, seria necessário acrescentar uma bateria para armazenar a energia produzida pelo teto solar, mas o sistema poderia permitir que veículos a combustão incorporassem algumas das funcionalidades que grandes baterias de tração tornaram comuns nos carros elétricos.Continua após a publicidadeUma infografia divulgada pela própria Fuyao, inclusive, mostra uma saída de escapamento no veículo representado, indicando que a tecnologia pode ser aplicada também a carros com motores a combustão e híbridos plug-in.BYD pode oferecer tecnologia como opcionalRelatos publicados pela imprensa indicam que a BYD poderia oferecer o vidro solar da Fuyao como equipamento opcional em seus veículos elétricos.Segundo essas informações, o sistema custaria 8.000 yuans (aproximadamente R$ 6,5 mil) e teria área suficiente para alcançar uma produção de até 720 W em condições ideais.Tanto a Fuyao quanto a BYD, porém, ainda não confirmaram oficialmente essas informações.Com uma potência de 720 W e condições perfeitas de incidência solar, o sistema poderia, em determinadas circunstâncias, fornecer energia suficiente para veículos utilizados em trajetos muito curtos, na faixa de poucos quilômetros.Continua após a publicidadeAinda assim, a quantidade de energia dependeria diretamente das condições de iluminação. Sombra de árvores, edifícios e outros obstáculos reduziria a geração.Tecnologia pode sair da ChinaA Fuyao é uma fornecedora de vidros automotivos para veículos comercializados em diferentes partes do mundo. Por isso, existe a possibilidade de que a tecnologia também chegue a automóveis fora da China.Até o momento, no entanto, os relatos sobre a utilização do vidro pela BYD não foram confirmados e não há informações sobre outras fabricantes de automóveis que pretendam adotar o sistema.A Fuyao também não é a única empresa trabalhando com vidro solar. A fabricante, porém, afirma ser a primeira de que se tem conhecimento a apresentar uma tecnologia comercializada de vidro solar automotivo semitransparente.Vidro solar também pode ser usado em edifíciosOutra aplicação potencial para a tecnologia está na construção civil. Edifícios permanecem em posições relativamente estáveis em relação ao Sol e podem contar com grandes superfícies envidraçadas que não precisam se movimentar. Isso cria condições potencialmente mais favoráveis para a geração de energia solar por meio do próprio vidro.Continua após a publicidadeA Fuyao também fornece vidros para o setor de construção e pretende desenvolver aplicações desse tipo para edifícios. Outras empresas já trabalham em soluções semelhantes.O vidro solar, portanto, pode representar uma maneira de adicionar uma pequena fonte de geração de energia a carros elétricos, veículos a combustão e edifícios. Mas, apesar dos avanços, a tecnologia ainda não significa que carros capazes de funcionar exclusivamente com energia solar estejam prestes a se tornar realidade.

Rodrigo Mozelli

Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.

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