CIÊNCIA

Prevenir para governar: a lição italiana

Os sistemas de saúde europeus enfrentam pressões crescentes e persistentes. Como sabemos, Portugal não é exceção. Mas haverão exemplos sobre os quais possamos refletir e aprender? Itália tomou uma decisão, na área da vacinação, que merecerá uma reflexão séria da nossa parte: colocar a prevenção e a vacinação no centro da política pública, não apenas como instrumentos de saúde, mas como pilares estratégicos da própria sustentabilidade económica.
A mensagem italiana é simples, mas transformadora: não há sistemas de saúde sustentáveis sem uma aposta firme na prevenção. Resulta de uma leitura rigorosa da realidade, publicada na Eurostat, que preencheu as manchetes internacionais e que chegou também ao nosso país – Itália é o país mais envelhecido da União Europeia (UE), com a taxa de natalidade mais baixa e a maior idade média da população (49,1anos vs 44,9 anos na UE). Perante esta realidade, a resposta não foi apenas reforçar o tratamento. Foi, sobretudo, apostar na prevenção evitando a doença.É neste contexto que ganha particular relevância o “Calendario Vaccinale per la Vita 2025”, um documento de consenso que juntou várias sociedades médicas e que traduz de forma exemplar esta mudança de paradigma, consagrando a vacinação ao longo de todo o ciclo de vida, e não apenas na infância. A estratégia italiana reflete uma conceção moderna da saúde pública, em que a prevenção ao longo da vida é apoiada pela evidência científica e pelo compromisso com a equidade no acesso à vacinação. Este calendário é um documento técnico e, simultaneamente, uma afirmação que a prevenção deve ser estruturante, contínua e integrada, apoiada em evidência científica.É precisamente esse o ponto que hoje importa sublinhar. A aposta na prevenção, na vacinação e na proteção dos mais vulneráveis não é, nem pode ser, matéria de disputa ideológica. A vacinação é uma medida de saúde custo-efetiva que salva milhões de vidas todos os anos e promove um envelhecimento saudável, acrescentando não apenas anos à vida, mas também vida aos anos. Com base na evidência científica disponível e nos dados sobre a sustentabilidade económica e dos sistemas de saúde, a hesitação política não deveria existir.
Portugal, aliás, não pode ignorar o paralelismo com Itália. O nosso país, segundo o Eurostat e o INSA tem uma das populações mais envelhecidas da UE. Esta ideia é ainda reforçada por dados do INE, mostrando que em 2024 o índice de envelhecimento foi de 192,4 idosos por cada 100 jovens (188,1 em 2023). Associado a estes números sabemos que a carga de doença crónica tem vindo a crescer. Segundo uma investigação da Nova SBE liderada pelos investigadores Carolina Santos e Pedro Pita Barros, a prevalência de doença crónica aumentou de 28% para 36% entre 2017 e 2025. Daqui resulta um aumento da pressão sobre um sistema de saúde já saturado e com recursos necessariamente limitados.Apesar dos avanços registados, no nosso país a vacinação completa do adulto ainda não está totalmente implementada. Também em Portugal, na vacinação do adulto várias sociedades se uniram em torno de um documento recentemente publicado – Guia da vacinação do adulto, que reflete a preocupação e o consenso que existe dentro da comunidade científica em torno deste assunto. Há outro documento em construção – Livro Azul da Vacinação, com importante informação que pode apoiar decisões clínicas.No entanto, o nosso sistema de saúde acaba ainda por estar mais focado a jusante do problema, na resposta à doença aguda e não na sua prevenção com maior impacto da doença e com mais custos para o sistema de saúde. Se temos este conhecimento o que nos impede de mudar?O nosso Plano Nacional de Vacinação e as estratégias vacinais aliadas a altas taxas de vacinação são um exemplo em todo o mundo. Para continuarmos este caminho positivo e tendo o conhecimento dos factos, precisamos continuar a trabalhar. É necessário mais investimento em estratégias de prevenção e numa maior integração entre saúde e apoio social nesta área. Vacinar é promover um sistema imunitário populacional robusto, autonomia e qualidade de vida com cidadãos que vivem mais e melhor. É garantir que exige uma viabilidade social num país onde a proporção de jovens não pára de diminuir. É proteger também, socialmente, os mais novos, criando condições de prosperidade no nosso país.
Esta reflexão exige reconhecimento político e, mais do que isso, a adoção de medidas concretas, pois investir em prevenção não é um custo, mas antes um verdadeiro investimento, com ganhos a curto e a longo prazo.Num tempo em que tanto se discute o financiamento da saúde, talvez a pergunta mais relevante seja outra: estamos a investir naquilo que verdadeiramente promove maior qualidade de vida das populações, alivia a pressão sobre o sistema de saúde e reduz a necessidade de gastar mais? A resposta, pode passar sobre refletir sobre a nossa realidade e olhar para o exemplo italiano. Não podemos também ignorar a evidência que a pandemia tornou incontornável: não há política de saúde eficaz sem prevenção, não há prevenção sem ciência, e não há ciência que possa ser refém da ideologia. Porque governar, em saúde pública, é, acima de tudo, proteger. E nós, profissionais de saúde, também não podemos calar esta voz.FONTES:

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