TECNOLOGIA

O animal que sumiu do Pampa e ainda afeta o bioma hoje

Um estudo baseado em fósseis revelou que o gado presente atualmente no Pampa brasileiro não consegue ocupar todos os papéis ecológicos deixados por grandes mamíferos extintos há cerca de 12 mil anos.Continua após a publicidadeA investigação mostra que o desaparecimento da megafauna reduziu a diversidade do bioma e alterou funções importantes exercidas pelos animais no equilíbrio do ambiente.
A extinção da megafauna reduziu a diversidade de mamíferos e mudou o funcionamento do ecossistema. – Imagem: Julio Lacerda/Jornal da USPFósseis ajudam a reconstruir um Pampa diferentePublicado na revista Functional Ecology e divulgado pelo Jornal da USP, o trabalho comparou três momentos da história do Pampa: o Pleistoceno, antes da extinção da megafauna; o Holoceno, após esse desaparecimento; e o período atual, que inclui espécies introduzidas pelos humanos.A pesquisa teve participação de Thayara Carrasco, pós-doutoranda do Instituto de Biociências (IB) da USP, além de pesquisadores da própria universidade e da Swansea University, no Reino Unido.Para entender como o ambiente mudou, a equipe recorreu aos fósseis encontrados na região. Características como tamanho corporal, alimentação e habitat ajudaram a indicar quais funções ecológicas foram perdidas com o fim de grandes espécies.Os dados revelam que a extinção ocorrida na transição entre o Pleistoceno e o Holoceno provocou uma redução de 30% na diversidade de mamíferos terrestres e uma queda de 40% na diversidade funcional do Pampa brasileiro.
Cientistas analisaram milhões de anos de história para entender as mudanças na fauna do Pampa brasileiro – Imagem: alex rodrigo brondani/ShutterstockAnimais introduzidos recuperam apenas parte das funções perdidasEmbora algumas espécies atuais desempenhem papéis parecidos com os de animais extintos, elas não conseguem reconstruir completamente a variedade ecológica existente antes do desaparecimento da megafauna.Entre os exemplos estão:
Cervo-axis (Axis axis), espécie exótica invasora que se expandiu pelo Brasil;

Cavalo doméstico (Equus ferus);

Espécies que ocupam parcialmente funções deixadas por cervos e cavalos extintos;

Animais domésticos que contribuem para algumas funções ecológicas do ambiente campestre.


A presença desses animais aumentou em 12% a riqueza funcional analisada pelos pesquisadores. Mesmo assim, a maior parte das espécies introduzidas apresenta funções semelhantes entre si e não recupera toda a diversidade perdida.Embora o gado possa representar um impacto novo para esse ambiente, que não existia no Pleistoceno, continua sendo menos pior do que uma monocultura.Pedro Godoy, professor do Departamento de Zoologia do IB e autor do artigo, ao Jornal da USP.
Animais com toneladas de peso desapareceram, deixando marcas que ainda influenciam o bioma brasileiro. – Imagem criada por IA- Gemini/Nano Banana 2Passado da megafauna ainda influencia o futuro do biomaDurante o Pleistoceno, entre 2,6 milhões e 11,7 mil anos atrás, o Pampa era habitado por animais como preguiças gigantes, gliptodontes e mastodontes. Todos os mamíferos com mais de 500 quilos desapareceram.Continua após a publicidade“A partir dos fósseis, a gente tem uma ideia do que aquele animal comia, em que substrato ele estava, se ele era terrestre ou se ele cavava tocas, como algumas preguiças-gigantes faziam”, explicou Thayara Carrasco.Leia mais:A pesquisa também diferencia diversidade funcional e diversidade taxonômica. Enquanto a primeira está relacionada aos papéis únicos exercidos pelas espécies no ambiente, a segunda considera a quantidade de espécies existentes.Atualmente, o Pampa é o bioma menos preservado e protegido do Brasil. Segundo os dados apresentados no estudo, 47,3% da vegetação nativa permanece preservada e apenas 3% são áreas de conservação.Continua após a publicidadeOs pesquisadores esperam que a análise ajude a orientar políticas públicas para proteger a fauna e o bioma. O estudo reforça que conhecer a história dos animais extintos pode ser essencial para preservar os ecossistemas atuais.

Valdir Antonelli

Valdir Antonelli é jornalista com especialização em marketing digital e consumo.

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