A IA vai substituir os desenvolvedores de games?
Durante a Gamescom Latam tive a felicidade de mediar um painel sobre a IA nos jogos. Continua após a publicidade
Neste painel, me pareceu irremediável e irreversível o uso da inteligência artificial nos jogos. Mas afinal, a IA vai substituir os desenvolvedores de games?Enquanto alguns profissionais veem a IA como a maior revolução da história dos games, outros a veem como uma ameaça direta aos empregos criativos. Mas onde a IA tem sido usada?Apesar do maior impacto ser visual, com a criação de artes diretamente para os jogos, existe uma série de locais em que o jogador final não é diretamente impactado. No caso da própria arte, há poucos anos, criar arte conceitual para um jogo podia levar semanas. Hoje, uma IA gera dezenas de imagens em segundos. Mas estas artes conceituais são apenas uma referência para o artista criar sobre elas. Mais uma gama de opções que os jogos atuais utilizam para agilizar o processo de desenvolvimento. Atualmente, a IA tem sido útil como ferramenta de prototipagem e de início de projeto, para saber se a ideia inicial está no caminho certo. Mas é sabido, e eu uso bastante atualmente, que com “Vibe Coding” é possível já recriar jogos famosos como Minecraft, sem uma linha sequer de código sendo redigida. Para quem não está familiarizado com a expressão, “Vibe Coding” é o termo usado para descrever o desenvolvimento de software utilizando IA, no qual o programador descreve o que deseja em linguagem natural e a inteligência artificial escreve o código/algoritmo do software. IA substitui tarefas, não necessariamente pessoas É importante registrar e compreender que as tarefas de desenvolvimento de um jogo continuam existindo, ainda é necessário fazer o personagem pular, correr, ter um comportamento. Os inimigos ainda têm de ser imaginados e desenhados, a ideia fundamental do jogo ainda tem de ser criada. E a partir desta premissa, algum desenvolvedor precisa coordenar uma ou um conjunto de IAs para obter o resultado inicial destas tarefas, que ainda devem ser lapidadas e concluídas.O perigo da massificação O maior risco da IA talvez não seja substituir desenvolvedores. Talvez seja inundar o mercado com mais jogos do que jamais conseguimos consumir.
Só na Steam em 2025, foram lançados 21.406 jogos segundo a SteamDB, o que segue um boom de crescimento anual desde 2014, tendo 2019 como único ano de baixa neste crescimento. Muitos títulos de qualidade acabam passando despercebidos porque a oferta é enorme. Com o advento da IA, as lojas serão cada vez mais inundadas de “shovelwares” – jogos de baixa qualidade feitos em grande quantidade que poluem as lojas digitais – tornando os jogos de qualidade, mais e mais inacessíveis ou dependentes de uma grande campanha de marketing para emergir do mar de jogos das lojas. Impacto nos empregos Imagem: Engadget/ ReproduçãoÉ fato que a IA vai impactar não apenas o desenvolvimento de jogos, mas também os empregos. Já é notória a onda de demissões não apenas nas grandes empresas fora do mercado de jogos: empresas como Meta, que demitiu 8 mil funcionários, mas também em empresas de jogos como a Epic, que demitiu 1.000 funcionários e a XBOX, que junto com a Microsoft demitiu 4800 funcionários, dentre estes, muitos amigos e conhecidos em todas as quatro empresas citadas. No caso específico da Microsoft, aconteceu uma união de fatores, em que a empresa passa por uma reestruturação, vendendo estúdios e mudando o foco de onde a empresa vai investir recursos, além de uma tentativa de diminuição de níveis de comando, ao mesmo tempo em que a Inteligência Artificial levanta uma grande sombra sobre a empresa, também sendo um catalisador de demissões. Entendo que eventualmente, esse fato ocorreria assim como já havia ocorrido nas indústrias da música, da escrita, do cinema e da pintura. Continua após a publicidadeO futuro talvez não pertença à inteligência artificial nem aos desenvolvedores humanosO futuro provavelmente pertencerá aos desenvolvedores que souberem trabalhar com inteligência artificial. Enquanto alguns profissionais enxergam a tecnologia como uma ameaça e outros como uma solução mágica, a realidade parece situar-se entre esses extremos. A IA veio para ficar, e sua influência nos games tende a crescer. A questão agora não é se ela fará parte da indústria, mas qual será o papel dos seres humanos nesse novo cenário. Afinal, a arte e o entretenimento são uma forma de expressão humana para humanos. Sendo assim, não importa se a IA pode criar qualquer mecânica de jogo já existente ou algo inovador, os jogos que marcam e que são sucesso têm sempre algo a mais do que uma jogabilidade interessante. Eles se destacam pela história sendo contada em conjunto com uma mecânica engajante, o que é a parte mais humana possível no desenvolvimento de qualquer arte ou qualquer peça de entretenimento.Continua após a publicidadeDepois de ouvir especialistas e profissionais da indústria durante a Gamescom Latam, uma coisa me parece clara: o uso da inteligência artificial nos games é um caminho sem volta. O que ainda está em aberto não é a tecnologia em si, mas a forma como iremos utilizá-la. Ela pode servir para democratizar a criação de jogos, aumentar a produtividade e permitir experiências antes impossíveis. Ou pode contribuir para um mercado cada vez mais saturado e impessoal.Como acontece com toda ferramenta poderosa, o impacto da IA dependerá menos da tecnologia e mais das pessoas que a utilizam.
Rodrigo “Chips” Scharnberg
É referência em games e advergames – projetos para Disney, Aquiris e Sioux. Consultor na Dan Chips e host Chips Podcast
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