A IA está ficando comum — e isso pode ser má notícia para a OpenAI
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A inteligência artificial (IA) está se tornando um recurso cada vez mais acessível, com preços em queda, modelos mais eficientes e maior oferta de capacidade computacional. Para usuários e empresas, esse movimento tende a ampliar o acesso à tecnologia. Para líderes do setor, como OpenAI e Anthropic, porém, ele pode representar um desafio à sustentabilidade de seus negócios.Continua após a publicidadeSegundo uma análise publicada pelo The Wall Street Journal, três acontecimentos recentes apontam para uma mesma direção: a IA está deixando de ser um recurso escasso e se aproximando de uma commodity, o que pode reduzir a vantagem competitiva das empresas que hoje lideram o desenvolvimento dos modelos mais avançados.Modelos mais baratos ampliam acesso à IA
Um dos principais fatores por trás dessa transformação é a queda acentuada do custo da IA capaz de realizar a maior parte das tarefas do cotidiano;
Isso vem sendo impulsionado pelo lançamento de modelos mais leves, que funcionam tanto na nuvem quanto diretamente em dispositivos, incluindo soluções desenvolvidas por Google, Apple e empresas chinesas de IA;
Outro sinal dessa mudança veio da própria China. Na quinta-feira (16), o presidente chinês Xi Jinping defendeu, durante um discurso em Xangai, a continuidade da liberação de modelos de IA de “pesos abertos” (“open-weights”), que podem ser modificados e utilizados livremente por qualquer pessoa;
Segundo a análise, a estratégia busca servir de contraponto ao domínio dos Estados Unidos no setor;
Ao mesmo tempo, modelos chineses como GLM 5.2 e Kimi K3 estariam reduzindo a distância em relação aos sistemas mais avançados desenvolvidos por empresas estadunidenses.
Outro acontecimento destacado pela análise foi o avanço da Meta no desenvolvimento de modelos voltados para programação. Segundo o texto, a empresa demonstrou que pode competir diretamente com OpenAI e Anthropic em um mercado considerado altamente lucrativo: o de modelos especializados em geração de código.Além disso, a expectativa é que o atual gargalo de capacidade computacional diminua à medida que novos data centers entrem em operação e engenheiros desenvolvam formas mais eficientes de executar modelos de IA.Em algumas aplicações, a oferta de tokens — unidade básica de consumo dos modelos de IA — já começa a acompanhar a demanda.Cenário favorece usuários, mas desafia líderes do setorNa avaliação do artigo, esses avanços representam uma boa notícia para consumidores e empresas. Há cerca de um ano, o diretor-executivo da OpenAI, Sam Altman, afirmou que desejava tornar a inteligência “barata demais para ser medida”.
Segundo a análise, em vez de substituir completamente trabalhadores, a IA poderá aumentar a produtividade de muitas profissões e reduzir parte da chamada fricção digital nas atividades do dia a dia. O cenário, no entanto, levanta dúvidas sobre o futuro financeiro de OpenAI e Anthropic, ambas vistas como candidatas a abrir capital em bolsa.Como dependem de manter uma vantagem tecnológica sobre gigantes já estabelecidas, as duas empresas podem enfrentar dificuldades caso a IA passe a ser tratada como uma tecnologia de uso geral, semelhante à eletricidade ou ao automóvel.Concorrência reduz participação da OpenAIDados da empresa de inteligência de mercado Sensor Tower, citados pela análise, mostram que, em março, o ChatGPT passou a responder por menos de 50% da participação global entre usuários consumidores, considerando acessos via dispositivos móveis e web.Continua após a publicidadeSegundo o texto, a redução ocorreu principalmente em razão da concorrência do Google Gemini e do Claude, da Anthropic.No segmento corporativo, modelos chineses também passaram a competir diretamente com os principais sistemas estadunidenses, oferecendo desempenho semelhante em algumas métricas por custos significativamente menores.O ranking da plataforma OpenRouter, citado na análise, mostra que os cinco modelos mais utilizados por empresas são atualmente chineses e que cerca de 45% dos tokens monitorados pela plataforma passam por esses modelos.Modelos gratuitos intensificam disputaA análise também destaca o lançamento de um modelo de pesos abertos pela Thinking Machines Lab, empresa liderada por Mira Murati, ex-diretora de tecnologia da OpenAI. Segundo a companhia, o sistema busca equilibrar desempenho e custo operacional.O texto resume essa mudança com uma comparação: “Quem precisa de uma Ferrari de IA para ir ao trabalho quando um Honda Civic de IA está logo ali?”Continua após a publicidadeDiante do avanço da concorrência, OpenAI e Anthropic aumentaram seus investimentos em engenheiros e acesso a data centers, mesmo com impacto sobre a rentabilidade. As empresas vêm comprometendo centenas de bilhões de dólares para manter a liderança tecnológica.Ao mesmo tempo, clientes corporativos passaram a avaliar de forma mais criteriosa quanto realmente precisam investir em IA e quais modelos premium justificam seus custos.Segundo a análise, OpenAI e Anthropic estudam a possibilidade de entrar em uma guerra de preços, embora empresas, como SpaceXAI, Meta e desenvolvedores chineses de modelos de código aberto, já tenham iniciado esse movimento.Conhecimento sobre IA está se espalhandoOutro fator que acelera a transformação da IA em commodity é a disseminação do conhecimento sobre como construir modelos avançados.Embora empresas continuem protegendo seus segredos industriais — a Apple, por exemplo, anunciou recentemente um processo contra a OpenAI por suposto roubo de propriedade intelectual relacionada à IA — pesquisadores continuam publicando estudos científicos descrevendo novos avanços.Continua após a publicidadeLaboratórios chineses e empresas, como a Thinking Machines Lab, também divulgam regularmente modelos de código aberto acompanhados de documentação detalhando sua construção.Distilação gera disputaO texto também aborda a chamada “distilação”, técnica que consiste em treinar um modelo utilizando outro como referência. OpenAI e Anthropic acusam empresas chinesas de utilizarem esse processo para desenvolver sistemas concorrentes com base em informações proprietárias.Por outro lado, a própria indústria utiliza a técnica de forma legítima. Segundo a análise, grandes modelos costumam ser empregados para treinar versões menores e mais rápidas.O novo modelo que dará suporte à Siri atualizada da Apple, por exemplo, foi destilado a partir de modelos do Google, dentro de um acordo firmado entre as empresas.Em um ensaio recente, o CEO da Microsoft, Satya Nadella, afirmou considerar “irônico” que empresas que treinam seus modelos utilizando dados obtidos na internet e até informações de clientes tentem impedir terceiros de utilizar a distilação.Continua após a publicidadeSegundo ele: “Se o aprendizado flui apenas em uma direção, o valor econômico converge para os proprietários da infraestrutura de aprendizado, e não para os criadores do próprio conhecimento.”
Modelos chineses, como o da DeepSeek, estão ganhando cada vez mais terreno – Imagem: Melinda Nagy/ShutterstockLeia mais:Empresas buscam novas vantagens competitivasAté agora, segundo a análise, a principal vantagem competitiva de OpenAI e Anthropic era oferecer modelos significativamente superiores aos dos concorrentes.Com a popularização de sistemas considerados “bons o suficiente” — e, em alguns casos, altamente avançados — disponíveis tanto para usuários de iPhone quanto para grandes empresas, essas companhias precisarão encontrar novos diferenciais.Enquanto o Google conta com seu mecanismo de busca, a Meta possui sua base de redes sociais, a Microsoft e a Amazon dominam a infraestrutura corporativa e a Apple controla um amplo ecossistema de dispositivos.Energia pode ser a principal vantagem no futuroPara Eric Zhao, professor da Universidade de Oxford e coautor de um estudo citado na análise, a principal vantagem competitiva das empresas de IA no futuro poderá ser o acesso à energia elétrica.Segundo ele, à medida que a oferta de eletricidade se torna mais limitada e comunidades passam a resistir à construção de novos data centers, utilizar energia de forma eficiente será essencial. “Os laboratórios de fronteira precisarão competir por inteligência por watt.”OpenAI e Anthropic diversificam receitasA OpenAI vem ampliando suas fontes de receita. Segundo a empresa, ela já possui mais de três milhões de clientes corporativos e também trabalha no desenvolvimento de hardware próprio para estabelecer uma relação direta com consumidores.A Anthropic, por sua vez, registrou recentemente seu primeiro trimestre lucrativo e protocolou um pedido para abrir capital neste outono do hemisfério norte (setembro-dezembro).Caso a oferta pública seja concretizada, a empresa poderá levantar recursos para conquistar novos clientes, desenvolver novas fontes de receita ou ampliar o aluguel de data centers.Boom da IA desperta questionamentosA análise conclui que o mercado de IA pode ser grande o suficiente para sustentar diversas empresas vencedoras e até permitir que OpenAI ou Anthropic se tornem futuras gigantes da tecnologia.Entretanto, o texto cita uma avaliação do Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês), segundo a qual o volume de investimentos em IA já supera qualquer ciclo de expansão econômica ocorrido em tempos de paz, incluindo a construção das ferrovias e a bolha das empresas de internet no fim dos anos 1990.Diante desse cenário, cresce o número de críticos que questionam se as empresas conseguirão justificar os investimentos atuais — e os ainda maiores previstos para os próximos anos. Segundo a análise, sem uma vantagem competitiva sustentável, as companhias que hoje lideram o boom da IA podem enfrentar uma contração significativa no futuro.
Rodrigo Mozelli
Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.
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