TECNOLOGIA

Chineses mudam o jogo e derrubam preço do carro zero no Brasil

O preço médio dos carros zero quilômetro registrou a primeira queda real em seis anos no Brasil. O aumento da concorrência, puxado pelas montadoras chinesas, mudou a dinâmica do setor.Continua após a publicidadeMesmo assim, comprar um carro novo continua longe de ser simples. Juros elevados e renda estagnada ainda pesam no orçamento de boa parte dos consumidores.
Além de preços menores, as fabricantes chinesas apostam em baterias próprias e mais tecnologia embarcada. – Imagem: TY Lim/ShutterstockA diferença aparece na negociaçãoO levantamento da Bright Consulting mostra que o preço médio sugerido pelas montadoras chegou a R$ 166,9 mil em 2026. Como a inflação acumulada foi de 3,18%, o resultado foi uma queda real de 1,5%.Na prática, porém, o desconto costuma ser maior. Segundo Cássio Pagliarini, sócio da Bright Consulting, o valor efetivamente pago caiu 3,5%, passando de R$ 157,6 mil para R$ 152,1 mil.Essa redução costuma acontecer graças a fatores como:
bônus oferecidos pelas fabricantes;

valorização maior do veículo usado;

condições especiais de financiamento;

negociações para diminuir estoques.
A concorrência ficou mais intensaO principal motivo para essa mudança é o crescimento das montadoras chinesas no país.“Estamos falando de um mercado de cerca de 34 milhões de veículos por ano, 10 vezes maior do que o brasileiro. A BYD, por exemplo, fabricou cerca de 4 milhões de carros só em 2025. Essa escala fabulosa reduz drasticamente o custo médio por veículo”, explica Antônio Jorge Martins, coordenador dos cursos da área automotiva da Fundação Getulio Vargas (FGV), em entrevista ao G1.Além da escala, essas empresas passaram a produzir internamente componentes estratégicos, como baterias. Com menos intermediários, conseguem reduzir custos e manter preços mais competitivos.Esse movimento também colocou o Brasil na liderança das importações de veículos chineses no primeiro semestre de 2026, com US$ 5,2 bilhões (cerca de R$ 26,4 bilhões). Desse total, US$ 4,5 bilhões (aproximadamente R$ 22,8 bilhões) foram destinados a modelos elétricos e híbridos.

“Nos anos 90, os carros chineses sofriam com rejeição por falta de qualidade. Hoje, eles unem alto volume, controle da cadeia e muita tecnologia embarcada”, afirma Martins.
Mesmo com a queda dos preços, os juros elevados ainda dificultam o financiamento para muitos brasileiros. – Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)O crédito ainda limita as vendasApesar dos descontos, financiar um automóvel continua caro. As taxas variam entre 18% e 22% ao ano, enquanto a Selic permanece em 14,25%.Leia mais:Martins lembra que cerca de 60% das vendas dependem do crédito bancário. Quando os juros ficam elevados, os bancos restringem o financiamento por causa do risco de inadimplência.Continua após a publicidadeA queda nos preços mostra que a concorrência está beneficiando o consumidor, mas o financiamento continua sendo o principal obstáculo para quem deseja trocar de carro. Enquanto os juros permanecerem elevados, a redução no valor dos veículos tende a ter efeito limitado sobre as vendas. Mesmo assim, quem pesquisa e negocia nas concessionárias encontra hoje um cenário mais favorável do que nos últimos anos.

Valdir Antonelli

Valdir Antonelli é jornalista com especialização em marketing digital e consumo.

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