SpaceX: rivais captam bilhões de dólares para desafiar empresa
A Stoke Space levantou mais US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5,1 bilhões) em uma rodada de investimento Série E para acelerar o desenvolvimento de foguetes totalmente reutilizáveis e disputar com a SpaceX o mercado de lançamentos de baixo custo. A empresa informou que concluiu o fechamento inicial da rodada, liderada pela Point72 Ventures e pela Spark Capital.Continua após a publicidadeO dinheiro será usado para ampliar a produção, aumentar a frequência de voos e financiar o desenvolvimento de uma nova geração de foguetes. Com a nova rodada, a Stoke já acumula US$ 2,3 bilhões (cerca de R$ 11,7 bilhões) captados.“Esta rodada é realmente para escalar. Para construir a infraestrutura, ampliar a produção e a frequência de voos e, principalmente, financiar o desenvolvimento do veículo de segunda geração”, afirmou Andy Lapsa, CEO da Stoke Space, ao TechCrunch.A rodada também contou com investimentos da General Innovation, Glade Brook Capital, US Innovative Technology, Washington Harbour Partners, Woven Capital e Y Combinator, entre outros.Stoke quer reutilizar o foguete inteiro
A Stoke faz parte de um grupo de startups que tenta competir com a SpaceX no mercado de lançamentos espaciais de baixo custo;
A empresa de Elon Musk construiu seu negócio em torno do Falcon 9, que possui um primeiro estágio reutilizável e, agora, trabalha para colocar em operação o Starship, projetado para ser totalmente reutilizável;
A ambição da Stoke é ainda mais direta: desenvolver um foguete em que tanto o primeiro estágio quanto o segundo, responsável por transportar a carga, possam retornar à Terra e ser reutilizados. Segundo a empresa, esse objetivo ainda não foi alcançado;
A startup também segue uma abordagem diferente de concorrentes, como Rocket Lab, Relativity Space e Firefly Aerospace, que desenvolvem veículos com outras estratégias de reutilização e lançamento;
O desenvolvimento de foguetes desse tipo exige investimentos elevados. A SpaceX já gastou mais de US$ 10 bilhões (cerca de R$ 50,9 bilhões) no Starship ao longo da última década, mas o veículo ainda não chegou à órbita.
Um dos principais desafios é proteger o segundo estágio do foguete durante a reentrada atmosférica, quando a estrutura é submetida a temperaturas extremas. Enquanto a SpaceX enfrenta dificuldades para definir materiais e configurações adequados para essa proteção, a Stoke aposta em solução de resfriamento ativo.A empresa pretende fazer circular hidrogênio líquido super-resfriado pelo sistema de proteção térmica do veículo. Segundo Lapsa, a tecnologia já passou por extensos testes em solo e será utilizada no primeiro voo.“Podemos fazer circular excesso de líquido de refrigeração — mais do que pensamos precisar para resfriar demais a superfície do veículo — e adotar uma postura conservadora nos primeiros voos”, disse o executivo.Primeiro lançamento está previsto para 2027O primeiro foguete da Stoke, chamado Nova Pathfinder, deve fazer seu voo inaugural no início de 2027. A empresa chegou a essa previsão depois de realizar uma série de testes estruturais e operacionais no primeiro estágio em suas instalações em Moses Lake, nos Estados Unidos.
A próxima etapa será testar individualmente os motores e os estágios do foguete em solo antes de combiná-los com a plataforma de lançamento.“O sistema terrestre foi testado na medida em que podemos fazer isso sem o foguete, e o foguete foi testado na medida em que podemos fazer isso sem a plataforma. Então, o próximo passo é fazer os dois juntos”, afirmou Lapsa.A Stoke já vendeu contratos de lançamento para o Pathfinder. O foguete poderá transportar até três toneladas métricas para a órbita baixa da Terra, o que, segundo Lapsa, fará dele o maior veículo de estreia de uma empresa de foguetes dos Estados Unidos.Apesar da previsão, a própria empresa reconhece os riscos envolvidos. Poucos foguetes conseguem cumprir seus primeiros voos exatamente dentro do cronograma e com sucesso total, e simplesmente alcançar a órbita já representaria um marco para a startup.Continua após a publicidade“Nós temos vários veículos Pathfinder em produção e estamos confiantes de que colocaremos o Pathfinder no mercado e em órbita independentemente desta rodada”, disse Lapsa.Nova geração poderá transportar 15 toneladasA Stoke também revelou um foguete ainda maior, o Nova Block 2, que está em desenvolvimento há alguns anos.O veículo será baseado nas mesmas tecnologias do Pathfinder, incluindo os motores e o sistema de proteção térmica desenvolvido pela empresa. A diferença estará na capacidade: o Block 2 poderá transportar 15 toneladas métricas para a órbita baixa da Terra, ligeiramente acima da capacidade do Falcon 9.A Stoke pretende colocar o novo foguete em operação em 2029 — justamente no período em que Elon Musk prevê a aposentadoria do Falcon 9.Para Lapsa, uma eventual retirada do Falcon 9 poderia ampliar a diferença entre a oferta e a demanda por lançamentos. “Isso amplia a incompatibilidade entre oferta e demanda por lançamentos, não há dúvida. Independentemente de o Falcon 9 ser aposentado ou não, a indústria e a economia espacial crescem exatamente na velocidade em que os foguetes conseguem decolar, principalmente os que atendem a clientes terceirizados”, afirmou.Continua após a publicidadeA questão é especialmente relevante porque, com o avanço do Starship, empresas e governos interessados em colocar cargas no espaço poderão disputar espaço com os próprios projetos da SpaceX. A Stoke, por outro lado, não revelou planos de operar seus próprios ativos espaciais.“Agora é hora de avançar para que finalmente possamos começar a implantar muitas das constelações e aplicações que, como indústria, desejamos, mas que estão presas no solo”, disse Lapsa.
Stoke Space está investindo forte para entrar na disputa – Imagem: Stoke Space SYstemsLeia mais:Empresa europeia também mira mercado dominado pela SpaceXA Stoke não é a única empresa que está levantando bilhões para disputar espaço com a SpaceX. A europeia The Exploration Company (TEC) anunciou uma rodada Série C de US$ 450 milhões (cerca de R$ 2,3 bilhões), descrita pela companhia como a maior Série C já realizada por uma empresa espacial europeia.Continua após a publicidadeA empresa opera na Alemanha, França, Luxemburgo, Espanha e Itália e pretende usar o novo capital para construir uma alternativa europeia aos serviços da SpaceX. A rodada foi liderada pela Atomico e pelo Scaleup Europe Fund, administrado pela EQT, com participação da Bessemer Venture Partners.A captação ocorre em momento no qual cresce a demanda por lançamentos orbitais e aumenta a percepção de que a infraestrutura espacial não pode depender exclusivamente da SpaceX.A TEC é comandada por Hélène Huby, francesa que passou duas décadas na Airbus e na ArianeGroup. A executiva pretende transformar a empresa em uma fornecedora europeia de veículos reutilizáveis capazes de transportar cargas pesadas.A empresa afirma já ter 10 missões Nyx contratadas, representando mais de US$ 2 bilhões (cerca de R$ 10,2 bilhões) em contratos e compromissos. Entre os clientes estão instituições, como a Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla em inglês) e a NASA.Continua após a publicidadeO principal projeto da companhia é a Nyx, cápsula reutilizável semelhante à Dragon, da SpaceX. O veículo poderá transportar cargas e, posteriormente, pessoas. A meta é fazer a Nyx acoplar à Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês) e retornar à Terra em segurança até novembro de 2028.A rodada também financiará inicialmente o programa de motores Storm, que servirá de base para futuros lançamentos. Segundo Huby, ainda será necessário captar mais recursos para construir uma plataforma de lançamento e o próprio foguete.A executiva reconhece que a Europa ainda precisará avançar bastante para competir no segmento de grandes lançadores. A startup alemã Isar Aerospace, por exemplo, realizou recentemente um lançamento de seu foguete Spectrum a partir da Noruega, mas a TEC pretende desenvolver um veículo consideravelmente maior.Para Huby, a expansão da infraestrutura espacial será necessária diante do crescimento projetado para aplicações em órbita. “Nos próximos cinco a dez anos, metade das nossas comunicações de banda larga poderá vir do espaço, data centers poderão estar no espaço; e, se esse for o caso, precisaremos de foguetes enormes e alta frequência de lançamentos.”Para alcançar esse ritmo, a TEC também aposta na reutilização. A empresa pretende utilizar o ciclo de combustão em fluxo total nos motores, a mesma tecnologia adotada pela SpaceX e pela Stoke.“É o ciclo de motor mais difícil, mas também o mais eficiente do mundo. É a primeira vez que uma empresa desenvolve esse tipo de motor de foguete na Europa”, afirmou Huby.A expansão da TEC já recebeu apoio de autoridades europeias. O presidente francês, Emmanuel Macron, e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, elogiaram a nova rodada de investimentos. O anúncio ocorreu às vésperas do International Space Summit, em Paris (França), onde a empresa indicou que novos anúncios relacionados ao projeto poderão ser feitos.
Rodrigo Mozelli
Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.
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