Ilha de 17 mil habitantes recebe obras militares dos EUA e teme se tornar alvo em guerra entre potências
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Os planos dos Estados Unidos para reconstruir e ampliar o principal porto de Palau, pequeno arquipélago no Pacífico, estão provocando preocupação entre moradores que ainda carregam as memórias da Segunda Guerra Mundial.Continua após a publicidadeA obra prevê a expansão de um antigo cais construído pelo Japão durante o conflito para receber navios estadunidenses e faz parte de um projeto estimado em US$ 500 milhões (cerca de R$ 2,6 bilhões).Palau deverá se tornar, no próximo ano, a principal base no exterior para equipes de construção das Forças Armadas dos EUA. Além da ampliação do porto, estão em andamento outros projetos militares no arquipélago, incluindo a instalação de um radar e a expansão de um aeródromo remoto para receber aeronaves de grande porte.A ilha também deverá abrigar um depósito de reserva destinado aos fuzileiros navais estadunidenses em situações de crise, segundo documentos de licitação. Um depósito de acesso restrito com mais de 930 m² está previsto para o porto e a instalação deverá empregar cerca de 50 pessoas quando estiver operacional.Palau fica a cerca de 800 quilômetros a oeste do Mar da China Meridional e tem aproximadamente 17 mil habitantes. O país possui menos de 458 km² de área terrestre habitável.A movimentação militar desperta preocupação justamente por causa da posição estratégica do arquipélago. Em agosto, uma petição assinada por duas mil pessoas foi enviada ao Congresso de Palau pedindo garantias de Washington sobre a segurança da população caso um conflito chegue ao território.“Para onde eles iriam? A preocupação é muito real”, disse Madelsar Ngiraingas, que cresceu ouvindo das avós histórias sobre como elas fugiram durante uma batalha sangrenta entre tropas estadunidenses e japonesas na Segunda Guerra Mundial.“Agora somos um alvo”
Palau recebe financiamento significativo dos Estados Unidos por meio de um acordo de livre associação. Os cidadãos do arquipélago também podem trabalhar e estudar nos EUA sem visto. Em contrapartida, Washington recebe acesso ao território para atividades militares;
Segundo Ongerung Kambes Kesolei, fundador do think tank local Congress Point Institute, o atual movimento de construção representa a primeira atividade militar significativa dos EUA no país dentro desse acordo;
“Com a chegada das Forças Armadas americanas, agora somos um alvo. O papel de Palau na segunda cadeia de ilhas tornou-se mais proeminente”, afirmou;
A chamada segunda cadeia de ilhas é uma linha estratégica do Pacífico considerada relevante por planejadores militares chineses e americanos em possível conflito.
Durante uma reunião comunitária realizada em agosto, autoridades estadunidenses apresentaram aos moradores imagens de navios de cruzeiro para explicar os benefícios da modernização do porto. Quando um participante perguntou onde ficaria o terminal de passageiros, porém, a resposta foi que a Marinha dos EUA não precisava de um.O projeto prevê o aprofundamento e a ampliação do porto para permitir a entrada de embarcações maiores. A Força-Tarefa Conjunta dos EUA na Micronésia afirmou à AFP que a infraestrutura vai ampliar a capacidade de Palau para o transporte marítimo comercial e para receber navios maiores, além de melhorar as opções logísticas militares para a defesa regional.Documentos do governo estadunidense já registravam o projeto “Palau Port and Harbor Improvements” no programa de construção militar dos EUA.
Bandeira de Palau – Imagem: em_concepts/ShutterstockContinua após a publicidadeLeia mais:Obras preocupam ambientalistasA reconstrução do porto também provoca preocupação entre chefes tradicionais, cientistas e operadores turísticos de Palau.O principal projeto está localizado em Koror, centro turístico do arquipélago e região conhecida por suas lagoas de águas turquesas. A área é Patrimônio Mundial da Unesco e abriga grande diversidade de espécies.A Unesco descreve as lagoas marinhas de Koror como “laboratórios naturais” para a ciência, onde novas espécies são descobertas em uma região rica em grandes corais.Continua após a publicidadeOs moradores também temem que as obras afetem os dugongos, mamíferos marinhos vulneráveis semelhantes aos peixes-bois, além de tartarugas e peixes.Uma avaliação de impacto ambiental aponta que a dragagem prevista para o porto vizinho de Malakal deverá provocar a perda de 4,26 hectares de coral, com impactos sobre diferentes espécies.O biólogo Ron Leidich, que estuda os dugongos da região, questionou a capacidade de controlar os impactos sobre os animais durante a construção. Segundo ele, a instalação de estruturas e a dragagem poderiam fazer com que os animais deixassem a região.A Palau Conservation Society também apontou risco direto para o ecossistema provocado pelas nuvens de sedimentos geradas pelas obras. O governo do estado de Koror, por sua vez, pediu mais recursos para compensar os danos provocados pela construção, segundo documentos consultados pela AFP.Continua após a publicidadePresidente defende modernizaçãoApesar das preocupações, o presidente de Palau, Surangel Whipps, defende a reconstrução. Em entrevista, Whipps afirmou que o antigo porto estava “à beira do colapso” e classificou a modernização como necessária.“Somos muito gratos que o Departamento de Defesa dos EUA tenha se oferecido para nos ajudar a melhorá-lo para que seus navios possam entrar, assim como nossos navios de carga”, afirmou o presidente.A Força-Tarefa Conjunta dos EUA na Micronésia também afirma que a obra terá utilização comercial e militar, ampliando a infraestrutura portuária de Palau e oferecendo novas opções logísticas para a atuação dos EUA na região.Enquanto as obras avançam, parte da população continua questionando se os benefícios da nova infraestrutura compensarão os riscos ambientais e, principalmente, a possibilidade de o pequeno arquipélago passar a ocupar posição ainda mais estratégica em eventual confronto entre grandes potências.
Rodrigo Mozelli
Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.
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