Tempestades de calor se multiplicaram e já atingem quase todo o planeta
Uma onda de calor que durou 367 dias e alcançou quase 85% da superfície do planeta provocou impactos em diferentes regiões do mundo, de incêndios florestais nos Estados Unidos a mortes durante peregrinação religiosa na Arábia Saudita. Batizado de Vera, o fenômeno é o maior já identificado em uma investigação da Reuters, que aponta aumento expressivo na frequência e na extensão de eventos extremos de calor nas últimas décadas.Continua após a publicidadeA análise reuniu dados de temperatura registrados a cada hora desde 1960 em mais de um milhão de áreas que cobrem o globo. A agência também consultou cerca de duas dezenas de meteorologistas e pesquisadores climáticos para investigar como as ondas de calor se transformaram em eventos capazes de atingir vastas regiões por meses ou até anos.A partir desse levantamento, a Reuters propôs nova categoria para os fenômenos de maior extensão: as chamadas “tempestades de calor”. Na metodologia adotada pela investigação, uma onda de calor comum precisa durar pelo menos cinco dias consecutivos, com temperaturas anormalmente elevadas. Quando o evento alcança, em seu pico, pelo menos 1% da superfície do planeta, ele passa a ser classificado como uma tempestade de calor.O levantamento identificou mudança significativa ao longo do tempo. Na década de 1960, havia média de cinco tempestades de calor ativas por ano. Nesta década, a média chegou a aproximadamente 102 anuais.Tempestade de calor Vera conectou tragédias em diferentes continentes
A tempestade Vera começou em 29 de julho de 2023 e terminou em 29 de julho de 2024. Ao longo dos 367 dias, o fenômeno atingiu quase 85% do planeta, com pico de extensão que chegou a 31,3% da superfície terrestre em janeiro de 2024;
Os efeitos apareceram em diferentes regiões, inclusive em locais onde as consequências pareciam não ter relação entre si;
Nas Filipinas, temperaturas de até 38 °C afetaram estudantes em escolas que, em sua maioria, não tinham ar-condicionado. Em Manila (Filipinas), um professor relatou à Reuters o caso de um aluno que começou a chorar durante uma aula e sofreu um sangramento nasal espontâneo, associado ao calor extremo;
No sul da Louisiana (EUA), a tempestade agravou seca histórica e contribuiu para cenário de incêndios florestais. Em agosto de 2023, a região registrou cerca de 600 outros focos de incêndio. Meses depois, a fumaça de um incêndio que continuava queimando em área alagadiça contribuiu para a formação de neblina densa, que provocou engavetamento envolvendo pelo menos 158 veículos e deixou sete mortos;
Na Líbia, o fenômeno ajudou a alimentar um ciclone no Mediterrâneo em 2023, que provocou chuvas torrenciais. Duas barragens se romperam perto da cidade costeira de Derna, destruindo bairros inteiros;
A Arábia Saudita também sofreu os efeitos do calor extremo. Durante a peregrinação anual do Hajj, as temperaturas na Grande Mesquita de Meca chegaram a 51,8 °C. Mais de 1,3 mil peregrinos morreram durante o episódio, segundo os dados reunidos pela Reuters;
A tempestade também coincidiu com grandes incêndios florestais na Grécia, incluindo o maior já registrado na Europa até então, que matou migrantes que atravessavam a floresta de Dadia;
Os episódios ilustram como um fenômeno climático de grande escala pode contribuir para diferentes tipos de desastre, com consequências para a saúde humana, a infraestrutura e os ecossistemas.
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El Niño também agrava a situação – Imagem: gerada por IA
Tempestades de calor ficaram mais frequentesA investigação também identificou expansão significativa da área do planeta afetada por ondas de calor e tempestades de calor. Da década de 1960 até esta década, a proporção média da superfície terrestre suscetível a esses eventos aumentou mais de 12 vezes.No mesmo período, a concentração de dióxido de carbono na atmosfera cresceu mais de 30%, segundo a análise. A Reuters aponta que o aumento das emissões de gases de efeito estufa acompanha a expansão dos fenômenos extremos de calor. O El Niño, caracterizado pelo aquecimento periódico das águas do Pacífico equatorial, também pode intensificar esses eventos.Continua após a publicidadeAs tempestades de calor passaram a representar parcela maior dos dias excepcionalmente quentes. Na década de 1960, esses fenômenos correspondiam a cerca de 3% dos dias em que as temperaturas estavam entre as mais elevadas do histórico local. Nesta década, a proporção chegou a quase 43%.O levantamento também identificou mudanças na duração dos períodos em que tempestades de calor ocorrem de forma consecutiva ou simultânea. A Reuters chama esses episódios combinados de “cascatas de tempestades de calor”.Na década de 1960, essas sequências duravam, em média, cerca de dois meses. No início dos anos 2000, a duração média havia chegado a nove meses.Uma dessas cascatas começou em 6 de julho de 2008 e continuava ativa na data de publicação da investigação, em outubro de 2026. Isso significa que o planeta passou mais de 18 anos consecutivos com pelo menos uma tempestade de calor ativa em algum lugar do mundo.Continua após a publicidadeFenômeno também afeta agricultura e saúdeAlém de intensificar secas e incêndios, o calor extremo pode provocar consequências duradouras para a produção de alimentos e a saúde pública.Na Costa do Marfim e em Gana, dois dos principais produtores mundiais de cacau, a colheita caiu pela metade após a passagem da tempestade Vera, segundo os relatos reunidos pela Reuters. O calor e a seca prejudicaram plantações, comprometendo a produção e a renda de agricultores.A investigação também destaca estudos que associam a exposição a temperaturas elevadas durante a gravidez a maiores riscos de complicações, incluindo natimortos e pré-eclâmpsia, condição que pode colocar em risco a vida da gestante.O professor James Renwick, da Universidade Victoria de Wellington (Nova Zelândia), afirmou à Reuters que o calor provoca grandes perturbações na sociedade e pode contribuir para fome, mortes e conflitos por recursos.Continua após a publicidadeEmbora algumas regiões possam se beneficiar de temperaturas mais altas para determinadas atividades agrícolas, a expansão das ondas de calor também aumenta os riscos de seca em outras áreas. A investigação cita a Sibéria, que passou a produzir quase tanto trigo quanto a tradicional região agrícola russa próxima ao Mar Negro, em parte devido à abertura de áreas mais ao norte para o cultivo.Nova tempestade de calor continua ativaA investigação também identificou outra grande tempestade de calor, chamada Raimundo, que começou em 28 de fevereiro de 2026. Até a publicação do levantamento, o fenômeno já havia alcançado quase três quartos da superfície do planeta.Raimundo provocou calor intenso na Europa durante o verão do Hemisfério Norte e contribuiu para alimentar grandes incêndios florestais na Espanha e na França. Em agosto, a tempestade chegou a cobrir 33,8% do globo em seu pico de extensão, superando o recorde anterior de Vera nesse indicador específico.Continua após a publicidadeA Reuters lançou um rastreador on-line para acompanhar as tempestades de calor, com nomes e informações sobre a extensão desses eventos. A proposta é tornar mais visíveis fenômenos que, apesar de seus impactos, costumam ser percebidos como episódios regionais e desconectados.A agência ressalta que a categoria foi desenvolvida para sua investigação, já que não existe definição universal para ondas de calor. Ao delimitar esses eventos por duração e extensão geográfica, o levantamento busca facilitar a comparação entre períodos históricos e ampliar a compreensão sobre os efeitos do aquecimento global.
Rodrigo Mozelli
Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.
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