TECNOLOGIA

Brasileiros levam jogo acessível à Gamescom 2026 em busca de publisher

Para pequenos estúdios, participar da Gamescom não significa apenas apresentar um jogo. Entre reuniões disputadas, playtests e encontros inesperados pelos corredores, a feira também pode representar uma oportunidade de encontrar os parceiros necessários para transformar um projeto independente em um lançamento comercial.Continua após a publicidadeFoi com esse objetivo que Roberto Spinelli (Pena) e Vitor Moreira, da Caramelo Biônico, viajaram para a Gamescom 2026, em Colônia, na Alemanha. A dupla levou Circo de Pulgas, projeto acessível que realizou seu primeiro grande teste com público internacional durante o evento.Circo de Pulgas aposta em acessibilidade com apenas um botãoCirco de Pulgas nasceu com a proposta de ser jogado por pessoas com deficiência motora severa. Para isso, toda a experiência utiliza apenas um botão.

A pulga se movimenta automaticamente pelo picadeiro enquanto o jogador controla o salto. O mesmo comando muda de função conforme a situação, permitindo interagir com elementos como canhões, trapézios e catapultas.Desenvolvido em cerca de um mês, com uso de inteligência artificial em animações e assets, o projeto atualmente possui um vertical slice com um nível. Nos testes, porém, a Caramelo Biônico percebeu que a simplicidade dos comandos também poderia tornar o game atraente para jogadores casuais.Uma baia vazia virou oportunidade de testar o jogoImagem: Roberto Spinelli/ ReproduçãoO primeiro grande teste internacional aconteceu de maneira improvisada. Durante a Gamescom Dev, Roberto e Vitor encontraram uma baia vazia e decidiram instalar o jogo no local. Quando um dos organizadores percebeu a situação, permitiu que continuassem usando o espaço até o final do dia.A oportunidade colocou Circo de Pulgas diante do público e serviu como uma primeira validação antes de outra missão importante da viagem: encontrar possíveis parceiros.A Caramelo Biônico havia mapeado cerca de 90 empresas, posteriormente reduzidas a 26 potenciais contatos. Durante a feira, conseguiu conversar com nove delas, e quatro demonstraram interesse no projeto.Uma das conversas mais promissoras aconteceu com uma plataforma de jogos para navegador com mais de 100 milhões de usuários. Nenhum contrato foi fechado durante a Gamescom, mas o estúdio pretende continuar as negociações para expandir Circo de Pulgas, inclusive com planos para mobile e Steam.Continua após a publicidadePara indies brasileiros, oportunidades também aparecem por acasoImagem: Roberto Spinelli/ ReproduçãoA experiência da Caramelo Biônico encontrou paralelo nas histórias de outros brasileiros presentes na feira. Em um evento desse tamanho, nem sempre a conversa mais importante está marcada na agenda.Matheus Lacerda, da TinyTank Studio, levou a demo para PC de My Girlfriend is a VAMP. Depois de não conseguir agendar uma reunião com uma publisher que estava em seu radar, encontrou um representante da empresa por acaso durante o evento. A conversa funcionou e abriu uma possibilidade que não havia surgido pelos canais tradicionais.Já Gildineia Guimarães, da Galactonautas, teve uma validação diferente com Bruce’s Gym, jogo de gerenciamento inspirado nas academias de bairro brasileiras. Um visitante passou cerca de 30 minutos jogando e foi embora. Mais tarde, ela percebeu que ele havia retornado para jogar novamente, algo que só confirmou ao comparar as fotos que havia registrado dos playtests.Continua após a publicidadePara Livia Yoshikawa, a Maki, da Dragonroll Studio, conseguir essas oportunidades exige insistência. Ela enviou cerca de 40 pedidos de reunião para publishers e conseguiu seis encontros para apresentar Final Flavor. A experiência contrasta com sua primeira Gamescom, em 2022, quando apresentou outro projeto e voltou sem conseguir avançar nas negociações.Os relatos evidenciam uma dificuldade comum aos pequenos estúdios. Com equipes e orçamentos reduzidos, participar de uma feira internacional significa disputar atenção com centenas de projetos enquanto cada conversa pode representar uma chance de viabilizar o próximo passo do jogo.IA também entrou no debate entre desenvolvedoresImagem: Roberto Spinelli/ ReproduçãoAlém das reuniões, a Gamescom Dev colocou em evidência outro tema presente na produção de Circo de Pulgas: o uso de inteligência artificial no desenvolvimento de games.Continua após a publicidadeSegundo Pena, as palestras apresentaram diferentes perspectivas. Enquanto a Tencent demonstrou um fluxo que utilizava IA em etapas como modelagem, rigging e animação, outras apresentações discutiram impactos ambientais e criativos da tecnologia.A Caramelo Biônico também utiliza IA durante o desenvolvimento, mas afirma buscar a tecnologia como ferramenta dentro de um processo autoral e com curadoria humana.Entre reuniões, também há espaço para os perrenguesParticipar da maior feira de games do mundo com orçamento indie também exige criatividade fora do desenvolvimento. Para economizar, Pena e Vitor aproveitavam o café da manhã reforçado do hotel e as oportunidades de comida gratuita espalhadas pelos eventos.Em uma das noites, os dois acabaram permanecendo por acidente em uma festa VIP no pavilhão indie, onde aproveitaram comida e bebida e ainda jogaram PowerWash Simulator com desenvolvedores.Continua após a publicidadeMaki relata uma estratégia parecida: procurar comida oferecida pelos estandes para diminuir os gastos durante a viagem. Pelo menos uma coisa parecia mais fácil de encontrar na Alemanha, segundo ela, o grupo conseguiu uma cerveja grátis por dia em algum ponto do evento.Entre esses improvisos, encontros de corredor e dezenas de pitches, a passagem dos brasileiros pela Gamescom mostra uma realidade distante apenas dos grandes anúncios e estandes milionários. Para os pequenos estúdios, a feira também é uma corrida para fazer o jogo ser visto, testado e, com alguma sorte, encontrar a parceria capaz de levá-lo adiante.

Rachele Victoria

Rachele Victoria é formada em Letras, MBA em Inovação e atua há 10 anos com comunicação e conteúdo gamer.

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