TECNOLOGIA

Como um “fracasso” da década de 1980 se tornou a maior revolução da medicina moderna e salvou milhões de vidas

Poucas inovações transformaram a história da saúde pública global tão profundamente quanto as vacinas desenvolvidas com a tecnologia do RNA mensageiro. O achado científico que hoje salva milhões de vidas nasceu sob ceticismo generalizado e esteve perto do abandono total. 

A trajetória surpreendente até os imunizantes de última geração mostra como uma ideia que parecia não ter futuro conseguiu sobreviver ao descrédito e se transformar em uma das grandes apostas da medicina.  

A tecnologia do RNA mensageiro, hoje usada para produzir vacinas que salvam milhões de vidas, nasceu sob desconfiança e quase foi abandonada pela ciência. – Crédito: Imagem gerada por IA

Três décadas entre a rejeição e a glória 

Na década de 1980, a bioquímica húngara Katalin Karikó enxergou o imenso potencial terapêutico do RNA mensageiro. A molécula atua no organismo como um gabarito genético temporário, orientando as próprias células do corpo humano a fabricarem proteínas específicas.

No entanto, a comunidade científica da época considerava a proposta inviável. Os pesquisadores acreditavam que o RNA sintético era instável demais e causava inflamações graves no organismo.

Inabalável frente à desconfiança dos colegas de profissão, Karikó manteve firme sua linha de pesquisa na Universidade da Pensilvânia, nos EUA, ao longo dos anos 1990. Sua insistência em defender um conceito considerado sem futuro cobrou um preço alto. Ela teve sucessivos pedidos de financiamento recusados pelas agências de fomento, perdeu o espaço físico do seu laboratório e sofreu um rebaixamento na hierarquia acadêmica.

A sorte do projeto mudou drasticamente quando Karikó iniciou uma colaboração decisiva com o médico e imunologista estadunidense Drew Weissman. Em 2005, a dupla publicou uma descoberta revolucionária que redefiniu o rumo da biologia molecular. Ao modificar quimicamente uma das bases nucleicas do RNA, a uridina, eles conseguiram eliminar por completo a resposta inflamatória indesejada. A alteração permitiu instruir as células com segurança.

Mesmo após essa conquista histórica, o mercado farmacêutico e as grandes empresas globais continuaram ignorando o invento por longos anos. A aplicação comercial continuava sendo vista como um investimento incerto e financeiramente arriscado. O cenário só mudou radicalmente no começo de 2020, quando o mundo enfrentou a emergência global da pandemia de Covid-19, e as gigantes Pfizer e Moderna resgataram o método para criar vacinas.

A bioquímica Katalin Karikó e o médico Drew Weissman, vencedores do Nobel de Medicina de 2023 – Imagem: Prêmio Nobel

A utilização da plataforma tecnológica permitiu desenvolver e testar imunizantes altamente eficazes e seguros em um tempo recorde. Estimativas globais publicadas na prestigiada revista científica The Lancet apontam que as vacinas contra a Covid-19 salvaram quase 20 milhões de vidas humanas somente durante o seu primeiro ano de aplicação massiva em todo o mundo. O método treinou o sistema imune com rapidez inédita.

Três décadas de trabalho árduo, ignorado e marginalizado pelas instituições tradicionais, culminaram na consagração máxima da comunidade científica. Em 2023, conforme noticiado pelo Olhar Digital, Katalin Karikó e Drew Weissman receberam o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina. O comitê sueco reconheceu a contribuição essencial das modificações nas bases de nucleosídeos, que permitiram criar as vacinas de RNA eficazes durante a crise sanitária.

Especialista detalha mecanismo e segurança na medicina atual 

Em entrevista ao Olhar Digital, o especialista em biologia molecular e genética Warlen Pereira Piedade, professor na Faculdade de Medicina de Bauru da Universidade de São Paulo (FMBRU-USP) e ex-pesquisador de pós-doutorado pela Escola de Medicina da Universidade de Harvard (HMS), nos EUA, explicou que, na prática vacinal, a plataforma atua como um manual de instruções direcionado às células. “A vacina entra nas nossas células e ensina a produzir um pedacinho do vírus, uma ‘proteinazinha’ viral – às vezes não é nem a proteína inteira, é só um pedacinho dela. Ela entrega essa instrução genética para a célula para que ela possa produzir essa proteína do vírus, que aí vai ser encontrada pelas células do sistema imunitário. Elas vão ver que tem essa proteína estranha, vão reconhecê-la como invasor e vão produzir anticorpos e células de memória que vão lembrar dessas proteínas como sendo algo nocivo. Quando um vírus infecta a gente de verdade, ele tem essas proteínas na superfície, então essas células detectam o vírus e vão acabar com ele”. 

O geneticista desmistifica qualquer receio sobre a segurança da tecnologia e reitera que é biologicamente impossível que essas vacinas alterem o código genético humano ou provoquem doenças. Conforme esclarece o professor, o RNA mensageiro não possui sinalizador celular para entrar no núcleo (o “cofre” onde fica o DNA), permanecendo restrito ao citoplasma até ser degradado. 

Além disso, o imunizante não contém partes vivas ou infectantes do vírus, utilizando apenas a instrução para uma proteína isolada. “Elas passam por rigorosos ensaios clínicos e controle de agências regulatórias em todos os países. No nosso caso, é a Anvisa, no caso dos Estados Unidos, a FDA. Elas foram testadas em populações diferentes, em momentos diferentes, idades diferentes, contextos diferentes, então são extremamente seguras”.

A tecnologia de RNA mensageiro permite desenvolver vacinas e terapias contra diferentes doenças, usando instruções genéticas temporárias, adaptáveis e produzidas de forma sintética em laboratório. – Crédito: Imagem gerada por IA

Velocidade e versatilidade redefinem o combate às doenças

Entre as maiores vantagens do método em relação às vacinas tradicionais, Piedade destaca a versatilidade e a velocidade de produção. Enquanto tecnologias antigas exigem o cultivo prolongado do vírus em laboratório, a plataforma de RNA é 100% sintética. “Ele é planejado no computador, depois um equipamento produz essa sequência e aí a gente monta a vacina. Então, eu consigo rapidamente, em poucas semanas, alterar essa sequência no computador e começar a sintetizar RNA mensageiros novos”, explica.

Além do impacto direto no combate ao coronavírus, a tecnologia desenvolvida por Karikó e Weissman abriu um leque extraordinário de novas oportunidades na medicina moderna. Piedade observa que a solução possui uma incrível versatilidade contra múltiplos agentes infecciosos. “Praticamente todos os vírus que nos causam doenças, conseguimos pegar pedacinhos e usar para ensinar o nosso corpo a combatê-los”, afirma o pesquisador, citando que a técnica pode ser aplicada contra gripe, dengue, raiva, HIV e zika.

Cientistas de ponta trabalham hoje no desenvolvimento de vacinas terapêuticas personalizadas contra diversos tipos de câncer, além de tratamentos inéditos para doenças genéticas raras, autoimunes e infecções virais complexas. Piedade salienta que, no tratamento do câncer, biópsias podem mapear as proteínas específicas do tumor de um paciente para criar uma vacina personalizada. Dessa forma, o próprio sistema imunitário passa a identificar e destruir as células cancerígenas, reduzindo os riscos de metástase. “Essas vacinas terapêuticas já estão sendo testadas para diversos tipos de cânceres, não é algo que está só sendo planejado; o teste já está sendo feito”.

O Brasil também avança nessa direção. Projetos nacionais conduzidos por instituições como a Fiocruz e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) já solicitaram à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorização para ensaios clínicos de fase 1. Piedade, porém, ressalta que o caminho até a fabricação em escala industrial e a disponibilização no Sistema Único de Saúde (SUS) ainda deve levar algum tempo, por necessitar do cumprimento rigoroso das fases 2 e 3 de testes.

A história de Karikó e Weissman deixa um aprendizado fundamental sobre o financiamento da ciência básica e a importância de apoiar ideias controversas. A tecnologia do RNA mensageiro, avanço que quase foi soterrado pela burocracia acadêmica, tornou-se o pilar central da proteção sanitária do planeta.
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