7 anos a Aprender a comer ou Parabéns, vamos comer?
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Seja bem-vindo ao “Aprender a Comer” com a nutricionista Mariana Chaves. Eu sou o Nelson Ferreira. Mariana, hoje estamos de parabéns, não é? Bem-vinda. Hoje temos, de facto, um programa especial, porque a Rádio Observador faz sete anos a 27 de junho. O “Aprender a Comer” também, porque é um dos programas, cá está, desde o início. O tempo passa rápido, já vamos em quantos episódios? Consegues resumir sete anos numa palavra ou num episódio de “Aprender a Comer”?
Olha, é verdade, estamos mesmo de parabéns e já temos mais de 440 episódios. Inacreditável.
Que belo arquivo.
Exatamente. Nem quis acreditar, porque não tinha ideia. Eu ainda estava no mais de 200. Não, mais de 440. Estamos mesmo de parabéns.
Já é mais que um livro, Mariana.
É verdade.
Um livro do “Aprender a Comer”.
Já falámos tanto aqui. E realmente eu acho que podemos dizer que foi um trabalho inovador. Começou em 2019, isto já parece outro século, 2019, e na altura não existia nada remotamente parecido em Portugal. Aqui uma conversa semanal dedicada à alimentação, mas sempre com esta base científica, sempre com uma linguagem simples. E quando perguntas da palavra, eu diria que escolhia comunidade, porque este podcast só faz sentido, obviamente, com os ouvintes.
E cada vez mais, agora com a edição extra de sexta-feira, em que respondemos diretamente às suas perguntas.
Exatamente. São muito fiéis. E esse programa só fez sentido porque nos escreviam exatamente com sugestões, com perguntas, e não há nada melhor do que isso, que é esta interação. Portanto, são programas que são complementados com o ponto de vista de quem nos ouve, que são ouvintes resilientes. Muitos dizem que começam do início, mais de 400.
Nos 440.
É verdade, que vão lá atrás. E realmente isso torna este trabalho muito especial, porque não é só um podcast sobre nutrição. Acaba por ser uma conversa, nós vamos percebendo os temas que fazem mais sentido e vamos ouvindo as partilhas.
Eu adoro comida. Tu falas de nutrição, eu falo de comida. Por isso é que eu gosto de fazer isto também.
E também mostras muito o lado muito real, que não é uma nutricionista a pensar no assunto. Que essa parte também é muito importante, que é como desmistificar um bocadinho. O que isto quer dizer, para que serve? Essa parte é superimportante. Nós já temos vários episódios com mais de 100 mil downloads, e isso é obviamente graças aos nossos ouvintes, mas é também porque há interesse, há curiosidade. E essa curiosidade faz-se destes dois lados. Isto não é uma enciclopédia. Isto é uma junção dessas duas partes. Ainda temos muito para dar, porque a nutrição tem muito para onde pegar.
Eu acho que em Portugal ainda há muito a fazer também na parte da literacia alimentar.
Sem dúvida. Saber como utilizar. Eu acho que cada vez mais as pessoas estão mais informadas, ou seja, é muito diferente o que nós tínhamos há sete anos e o que temos agora, em termos de literacia alimentar. Penso que as pessoas têm muito mais conhecimento sobre fibra, sobre probióticos, o que é um kefir, o próprio mercado também nos dá mais produtos, mas a verdade é que ainda falta.
E a ciência também dá mais estudos.
Sim, sem dúvida.
De há sete anos para cá, muita coisa se soube entretanto.
É verdade, muito evoluiu. A área da nutrição, que era uma área que antigamente não tinha grande investimento e, portanto, não havia grandes evoluções, hoje em dia há.
Por isso ainda temos muitos temas para falar. Nunca tiveste esse problema de que é que eu vou falar esta semana?
Não, nem pensar. Basta abrir o e-mail com as perguntas dos ouvintes. Não falta tema. Portanto, para quem estiver preocupado, não, 400 não quer dizer nada. Vamos continuar, seguir em frente, sem dúvida.
Portanto, mais de 440 episódios depois, continuamos com muito para aprender. E espero que também muito para descomplicar na alimentação e às vezes simplificar, porque eu acho que às vezes as pessoas também complicam. Como é que isto tudo começou? Até porque tu já vinhas da rádio antes do próprio “Aprender a Comer”, não é?
Exatamente. Já tinha passado por duas rádios diferentes, com programas completamente diferentes deste. Já há 13 anos, que o tempo também passa a correr. Mas o “Aprender a Comer” nasce com uma lógica completamente diferente. Começa com um telefonema do Ricardo Conceição, a perguntar se eu queria vir a uma entrevista para uma rádio nova que iria começar. E o desafio era este programa de nutrição baseado na evidência e, portanto, o Observador também está de parabéns por ter esta visão. Eu fiquei radiante, como é óbvio. Já tinha passado alguns meses desde que não tinha o programa anterior e, portanto, para além das saudades de estar numa rádio, era este desafio de tudo o que eu queria fazer, que é esta liberdade em falar realmente o que interessa na nutrição de forma científica, mas muito prática para que as pessoas que nos ouçam realmente possam utilizar, possam espalhar a mensagem. E por isso temos um programa que é o podcast na área da nutrição mais ouvida em Portugal e faz parte dos 10 podcasts do Observador também mais ouvidos. Por isso, eu olho para trás e eu acho que cumprimos muito bem o desafio que foi feito há sete anos. E realmente acho que isto acontece porque o objetivo foi sempre o mesmo, que é trazer a nutrição para a vida real, para quem tem filhos, para quem trabalha muito, para quem quer envelhecer melhor, para quem quer treinar, para quem está cansado, ou perceber mais sobre apetite, sobre comportamentos alimentares, até suplementação Eu acho que nasceu para fazer uma coisa muito simples, mas na verdade complexa. Como na rotina alimentar, nada se consegue de uma vez só, aqui também é preciso ouvir os nossos programas todos para conseguir ficar com uma ideia mais completa das várias áreas que mexem com a nutrição e com o bem-estar, e que implicam com a nossa vida, sem dúvida.
E algumas não são assim tão imediatas, porque eu gosto muito dos programas que fazemos, por exemplo, sobre a organização da própria cozinha, das nossas prateleiras, e eu acho que isso é uma forma de alimentação também.
Sem dúvida.
Tem muito impacto nessa área. O que mudou, afinal, na nutrição nestes sete anos? Muita coisa?
Muita coisa. A maior mudança, eu acho que hoje falamos da alimentação de forma muito mais positiva, porque durante muito tempo ela estava só associada à restrição, ao peso, à culpa, a dietas.
Dieta.
E que hoje em dia, felizmente, passamos a olhar de uma forma completamente diferente. Começamos a olhar como uma aliada, para ter mais energia, ou a digestão ser melhor, ou dormir melhor, ou ter menos vontade de doces, mas pela positiva. Que é: eu já sei que vou querer comer um doce, deixa-me lá ver como é que eu me organizo para que tenha menos vontade, para que isso seja mais equilibrado. A palavra equilibrado, a palavra bom senso, eu acho que está muito mais associada à nutrição hoje em dia, mas também, por exemplo, mais massa muscular, ou melhor intestino, ou melhor microbiota, porque tem se vindo a falar muito sobre isto. E portanto, melhor relação com o corpo. E eu acho que isso é muito mais motivador, porque nós alterarmos as nossas rotinas é tão difícil. Portanto, temos que encontrar aqui uma motivação forte, que não seja castradora. O que me leva a querer mudar aquilo que eu já faço há 10 anos, tem que ser uma coisa em benefício próprio. E por isso, quando digo a uma pessoa: “Olha, não coma isso, porque engorda”. Isso não faz sentido. Temos que pôr o foco noutra coisa que não o medo. É comer mais proteína no pequeno-almoço, porque não vai ter tanta fome para petiscar à noite ou ao final do dia. E a pessoa percebe o benefício e é muito mais fácil de incorporar.
De alguma forma, a nutrição passou do “não se pode” para uma nutrição de “isto ajuda-me”.
Isso, exatamente. Hoje queremos perceber melhor o nosso comportamento alimentar. É perceber como é que me pode ajudar, como é que pode ser útil se eu até petiscar quando estou ansiosa. Hoje em dia as pessoas percebem muito mais isto. Antigamente diziam: “Eu engordo com o ar”. Obviamente que não é, as pessoas entendem que não é, mas qualquer coisa está a passar no comportamento alimentar dessa pessoa para que ela não esteja a conseguir ver resultados quando pretende emagrecer.
Ainda há dias falamos daquela frase do: “Eu preciso é de fechar a boca”. Nem sempre é assim também.
Sem dúvida. Aliás, muitas vezes é preciso comer mais, só que mais daquilo que interessa para que o nosso corpo reaja. Porque o nosso corpo também, se nós damos a menos, e eu acho que as pessoas hoje em dia já entendem isso, ele simplesmente entra em modo pausa e não vai conseguir emagrecer mais. Não é quanto menos, melhor, sem dúvida. E portanto, há aqui perguntas muito mais interessantes das pessoas próprias fazerem a elas próprias, como por exemplo: por que eu tenho uma quebra de energia à tarde? O que eu posso fazer para mudar isto? Por que eu estou cheia de fome de manhã? Isso são tudo coisas muito mais úteis do que “isto engorda-me”, porque até sabemos que todos os alimentos têm calorias envolvidas, faz parte, alimenta-nos, mas não é isso que engorda. Muitas vezes é o comportamento, são as misturas, é a falta de fibra, é a falta de proteína. É pôr mais e não retirar. A nutrição ficou, desculpa, Nelson, mas é que ficou muito mais científica, mas também muito mais próxima da vida real, porque muitos estudos, por exemplo, estou me a lembrar de um que falámos sobre o benefício do azeite, as duas colheres de sopa de azeite, o potencial que tem em termos de saúde cardiovascular. Antigamente, falava-se só de: “Ah, gorduras engordam, então evitemos. Ou troca a manteiga pelo azeite”, mas não tínhamos dosagens, não sabíamos o impacto que tinha numa população, num estudo. Portanto, também está mais científico e eu acho que isso também dá mais credibilidade para as pessoas ouvirem estes conselhos e quererem realmente utilizá-los.
E o público aprendeu alguma coisa nestes sete anos? Mudou o nosso público também?
O nosso mudou imenso, mas eu diria que o público em geral está mais informado. Mudou imenso, eu vejo isso nas perguntas, porque há muitas pessoas que já me fazem perguntas em que escrevem lá glicemias e jejuns, e já entendem.
E vai começar a aparecer psyllium também. Já deve ter aparecido, até.
Já. Sem dúvida. E eu acho isso muito positivo, porque há sete anos, muitos destes temas não estavam tão presentes na conversa do dia a dia. E mostra que as pessoas querem cuidar melhor de si, querem perceber mais, mas também, por outro lado, há mais ruído. Ou seja, há muita informação na internet, nos vídeos curtos, muitas regras absolutas, tipo nunca coma isto ou este suplemento resolve, e isso confunde muito. E portanto, o público mudou em duas direções: sabe mais, mas também precisa de mais filtro, porque senão, isso vai ser um desastre.
Isso é porque as perguntas dos ouvintes também têm mudado com o tempo, presumo.
Sim, sem dúvida. Querem saber o porquê. E às vezes esses vídeos muito assertivos, em que explicam qualquer coisa, e se a pessoa não conseguir filtrar será que aquela explicação é mesmo válida, às vezes pode levar ao engano. E portanto, por isso é que eu acho que há aqui muita responsabilidade em explicar bem e com base científica.
Muito bem, estamos então de parabéns. Sete anos de “Aprender a Comer”. Continue a participar também enviando as suas sugestões de temas a abordarmos aqui. marianachaves@observador.pt e nós continuamos por cá para esclarecer dúvidas de nutrição. Obrigado por estes sete anos, Mariana.
Obrigada, Nelson, também.










