TECNOLOGIA

EUA: eleitores dão recado à indústria de IA e ameaçam expansão de data centers

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A expansão da infraestrutura necessária para desenvolver inteligência artificial (IA) enfrenta novo obstáculo nos Estados Unidos: a resistência popular. Nas eleições de meio de mandato realizadas na terça-feira (3), eleitores rejeitaram a maioria das propostas locais relacionadas à construção de data centers e ajudaram a eleger candidatos que prometem impor limites ao setor. O resultado já provoca reações entre as gigantes de tecnologia, incluindo Meta e OpenAI.Continua após a publicidadeSegundo levantamento apresentado pelo The New York Times, 40 das 41 iniciativas locais relacionadas a data centers foram rejeitadas pelos eleitores. Mais da metade das votações ocorreu em Ohio (EUA), um dos principais mercados estadunidenses para esse tipo de instalação.A resistência também apareceu nas disputas estaduais. Candidatos democratas que defenderam restrições à construção de novos centros de processamento venceram eleições para governos estaduais e cargos legislativos no Texas (EUA), em Ohio e na Geórgia (EUA).O resultado representa mudança importante para as empresas de tecnologia, que, durante anos, encontraram apoio de autoridades locais interessadas em atrair investimentos, empregos e arrecadação. Agora, comunidades exigem mais garantias sobre os impactos dessas instalações, principalmente em relação ao consumo de eletricidade e água.A reação popular ocorre em meio à expansão acelerada da infraestrutura de IA. Data centers concentram milhares de servidores responsáveis pelo treinamento e funcionamento de modelos generativos, assistentes virtuais e outros serviços digitais. O crescimento dessa estrutura, entretanto, exige grandes quantidades de energia e recursos naturais.
A resistência política já preocupa empresas que planejam investir bilhões de dólares em infraestrutura de IA. Durante conferência de tecnologia organizada pelo The Wall Street Journal, na quarta-feira (4), a presidente da Meta, Dina Powell McCormick, reconheceu que construir novos data centers nos Estados Unidos será mais difícil após as eleições;

Segundo a executiva, os resultados eleitorais foram influenciados por diferentes fatores, mas a oposição aos centros de processamento apareceu com destaque em campanhas políticas e pesquisas de saída das urnas;

Powell McCormick afirmou que novos projetos deverão enfrentar processos de análise mais rigorosos e negociações mais difíceis com autoridades e comunidades locais. Por outro lado, a executiva acredita que a expansão de instalações existentes poderá encontrar menos resistência, especialmente quando os empreendimentos já demonstraram benefícios econômicos para a região;

Ela relatou, inclusive, que um governador eleito que havia feito oposição aos data centers durante a campanha demonstrou interesse em conversar com a empresa depois de assumir o cargo. A intenção seria evitar a perda de investimentos e empregos para outras localidades.


A Meta está ampliando sua infraestrutura para sustentar o desenvolvimento de agentes pessoais de IA, chamados Muse, que Mark Zuckerberg considera centrais para o futuro da companhia. A empresa prevê investir até US$ 145 bilhões (cerca de R$ 792 bilhões) em despesas de capital em 2026.Entre os projetos em andamento estão os data centers Hyperion, na Louisiana (EUA), e Prometheus, em Ohio, além de uma terceira instalação no Texas, desenvolvida em parceria com a BlackRock.Os novos obstáculos também podem levar as empresas a procurar oportunidades fora dos Estados Unidos. Powell McCormick afirmou que as grandes operadoras de data centers estão avaliando a possibilidade de construir instalações em outros países como forma de diversificar seus investimentos.A Meta também anunciou recentemente planos para levantar até US$ 97,5 bilhões (aproximadamente R$ 532 bilhões) por meio de novas emissões de ações. A iniciativa busca financiar parte de sua expansão em IA em momento de crescente preocupação do mercado com os gastos das gigantes de tecnologia.Continua após a publicidade
OpenAI e Meta são duas das empresas que estão de olho na nova configuração política dos EUA – Imagem: miss.cabul/Shutterstock
Leia mais:OpenAI apresenta proposta para reduzir resistência aos data centersEnquanto a Meta reconhece as dificuldades para ampliar suas instalações, a OpenAI apresentou proposta para estabelecer novas regras para a construção e operação de data centers nos Estados Unidos.Anunciado nesta quinta-feira (5), o plano inclui o chamado National Community Compact, compromisso que estabelece medidas para as comunidades que receberem futuras instalações próprias da empresa. A companhia também divulgou documento de propostas de políticas públicas, denominado Compute Campus Policy Blueprint.Continua após a publicidadeUma das principais recomendações é que grandes consumidores de eletricidade arquem integralmente com os custos adicionais que provocam na rede elétrica. A intenção é impedir que famílias e pequenos negócios tenham suas contas de luz aumentadas para financiar a infraestrutura necessária às empresas de IA.A proposta também prevê garantias financeiras para proteger consumidores caso um projeto seja reduzido, adiado ou cancelado depois de investimentos em infraestrutura elétrica.Outro ponto envolve a possibilidade de reduzir temporariamente o consumo de energia dos data centers durante períodos de alta demanda. Dessa maneira, as instalações poderiam aliviar a pressão sobre a rede elétrica quando o fornecimento estivesse mais limitado.A OpenAI também defende maior transparência sobre os impactos ambientais e econômicos dos empreendimentos. O documento propõe a divulgação pública de informações sobre consumo de água e eletricidade, ruídos, oportunidades de emprego e condições oferecidas às comunidades.Continua após a publicidadeA empresa ainda pretende priorizar sistemas de refrigeração com circuitos fechados ou baixo consumo de água, além de trabalhar com sindicatos locais para ampliar a contratação de trabalhadores da região.Outra mudança importante envolve os acordos de confidencialidade, conhecidos como NDAs. A OpenAI propõe limitar as situações em que desenvolvedores podem exigir que autoridades públicas assinem documentos que impeçam a divulgação de informações sobre negociações envolvendo data centers.A companhia também se comprometeu a investir em melhorias comunitárias escolhidas pelos próprios moradores das regiões que receberem suas instalações.Pressão popular pode mudar o futuro da IAA resistência aos data centers não está relacionada apenas à infraestrutura tecnológica. O movimento também reflete preocupações sobre os benefícios econômicos da IA e a distribuição dos custos necessários para desenvolvê-la.Continua após a publicidadeDurante anos, governos locais ofereceram incentivos fiscais e condições especiais para atrair empresas de tecnologia. Agora, parte dos eleitores exige que os empreendimentos contribuam mais diretamente com as regiões onde são instalados.No Texas, por exemplo, a governadora eleita Gina Hinojosa prometeu suspender imediatamente novas aprovações de data centers até que sejam estabelecidas proteções mais rigorosas para os moradores. Já o senador eleito James Talarico defendeu o fim de incentivos fiscais para desenvolvedores e a criação de mecanismos para que a população também participe dos ganhos econômicos da IA.A mudança de cenário pode afetar os investimentos bilionários planejados pelas gigantes de tecnologia. Além de enfrentar custos maiores, as empresas poderão precisar negociar condições mais rigorosas para conseguir aprovações e iniciar construções.Para a OpenAI, a Meta e outras companhias que disputam a liderança em IA, o desafio agora não envolve apenas desenvolver modelos mais avançados. Também será necessário convencer governos e comunidades de que a expansão da tecnologia pode trazer benefícios sem transferir seus custos para a população.

Rodrigo Mozelli

Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.

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