Porque é que os ricos americanos escolheram Portugal?
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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Por que os ricos americanos escolheram Portugal?
“I have lived and traveled all over the world and currently live in Portugal, and I just had the most ‘we don’t live in Kansas anymore’ moment I have ever had.”
Estamos a ouvir Stacy Annis, uma escritora americana que vive em Portugal há sete anos. Ela fala nas redes sociais do clima de paz e tranquilidade, da segurança de um país onde o presidente pode andar por entre a multidão e quase nem se dá pelo corpo de seguranças.
“And it was all so peaceful, and it was calm. Yeah, we’re not in Kansas anymore.”
É provavelmente o maior atrativo de um país onde o número de residentes oriundos dos Estados Unidos aumentou muito nos últimos dois anos. E não é apenas o americano médio. Nos Estados Unidos, há cada vez mais gente com capacidade e com vontade de investir milhões numa casa em Portugal. Os norte-americanos são agora os principais clientes das imobiliárias de luxo. E nós hoje vamos perceber por quê. Eu vou falar com a jornalista da seção de lifestyle do Observador, a Sâmia Fiates, que visitou várias casas, mesmo à medida destes clientes, e vou perguntar-lhe quem são os novos residentes, por que escolheram Portugal, quanto é que estão dispostos a pagar e o que é que não dispensam na casa de luxo portuguesa. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de segunda-feira, 29 de junho. Olá, Sâmia, bem-vinda.
Olá, Pedro, obrigada.
Então vamos já começar por responder aqui a esta pergunta. Nós estamos a falar dos ricos norte-americanos. Quem é que são estas pessoas que estão a procurar casas em Portugal?
O perfil é muito variado. São famílias com filhos pequenos ou pessoas também já numa idade mais sênior que procuram viver a sua reforma de forma mais tranquila, um estilo de vida mais próximo da natureza, procuram os campos de golfe também. No caso das famílias, valorizam muito também a oferta de escolas internacionais. Então esse perfil é um perfil de pessoas que procuram Portugal como uma nova casa, como uma segunda casa ou uma nova casa. Mas há ainda o perfil mais de investidores, pessoas que trabalham como nômades digitais, trabalham à distância e podem viajar o mundo e querem ter uma base em Portugal. E olham também para as casas como um investimento, não só como um espaço onde eles podem aproveitar esse estilo de vida de Portugal, mas também desfrutar da questão dos rendimentos que esse imóvel pode lhes dar.
Pode produzir e, nos últimos anos, até tem sido bastante rentável. Nós usamos aqui esta expressão, ricos. Quanto é que essas pessoas estão disponíveis para pagar por uma casa em Portugal?
Também o range é muito variado. Nós visitamos imóveis que vão entre os 3 e os 7 milhões de euros, mas o range vai muito acima e também começa um pouquinho abaixo. Os dados apontam para os americanos gastarem o dobro do que os portugueses ou cidadãos que têm residência fiscal em Portugal. Então o valor médio ronda ali os 470 mil euros, mas, como eu disse, quando nós estamos a falar de segmento de luxo, esse valor sobe para milhões.
Qual é, tipo, os valores mais altos que estamos a falar?
Claro que o céu é o limite.
Pois, claro.
Dos profissionais com quem nós falamos, que trabalham em agências imobiliárias que trabalham nos Estados Unidos, há imóveis acima dos 15 milhões, 20 milhões, mas imóveis com características muito exclusivas, seja uma localização super privilegiada ou que tenha aquilo que mais nenhum imóvel tem. E aí é quando um cliente não quer fazer nenhum tipo de concessão e está disposto a gastar um valor como esse.
De 20 milhões, claro, que não é pra toda gente. Falaste aí das agências que trabalham nos Estados Unidos, porque este mercado, no segmento de luxo aqui em Portugal, é bastante significativo.
Sim, nesse momento, pelo menos os dados da Sotheby’s Portugal indicam que os norte-americanos são o principal público dentro do segmento de luxo entre clientes internacionais. Representa 44% dos clientes do segmento de luxo.
Daí o investimento nesse mercado. Nós já vamos ouvindo falar há alguns anos dos norte-americanos olharem com interesse pra Portugal, mas isto já dura, de facto, há alguns anos. Portanto, não parece ser uma moda apenas, parece ser uma coisa já que veio pra ficar.
Sim, é algo que já vem ali desde depois da pandemia. Muitos profissionais com quem nós falamos citaram isso, que a pandemia foi também um marco pra procura dos norte-americanos por Portugal. E agora falando um pouquinho daquilo que eles valorizam. Eles valorizam muito a segurança que Portugal oferece. E é o que todos os profissionais com quem nós falamos citam como primeiro aspecto.
Primeira razão pra vir pra Portugal é a segurança.
Que é uma segurança que os clientes consideram que o dinheiro não compra, que podem andar na rua, levar seus filhos pra escola, sem a preocupação que têm nos seus países de origem. E depois está associado a um custo de vida muito abaixo do custo de vida que essas pessoas têm nos seus países de origem, e agora falando nos Estados Unidos. Além disso, também olham pra Portugal como um bom destino pra investimento a médio e longo prazo. Então associam essas duas coisas, o estilo de vida.
Engraçado que estamos a falar de pessoas que têm rendimentos bastante elevados, mas também gostam de ir a um restaurante e pagar menos do que aquilo que estavam à espera.
Exatamente. E além disso, também valorizam o fato de não haver esse status que eles consideram que é muito visado nos seus países. Essa ideia de que pode-se sentir o cheiro do dinheiro.
E aqui, apesar de tudo isso, é menos valorizado.
É o que dizem.
Pronto, é engraçado olhar também pra como é que os outros olham pra nós. Tu falaste sobretudo naquele segmento dos 15, 20 milhões, de pessoas que não fazem concessões e querem coisas verdadeiramente exclusivas. Mas os clientes deste segmento vêm à procura disso apenas, vêm à procura do luxo, vêm à procura da modernidade ou vêm à procura de outras coisas também?
Não, na verdade, é um misto também e vai depender do perfil. Mas muitos dos profissionais com quem nós falamos citaram essas características históricas como também um atrativo. Azulejos, o piso em taco ou parquet, o pé direito alto e a claridade que Lisboa oferece, que as cidades portuguesas oferecem, então muitas janelas e muita luz natural.
Gostam de coisas que digam: “Esta é a minha casa em Portugal.”
Exato. Querem poder dizer que vivem ou que têm uma casa em Portugal. Apesar de que os imóveis que nós visitamos também apresentam um design bastante moderno e minimalista, alguns deles, especialmente na zona de Cascais e no Estoril, que são zonas que têm edifícios construídos mais recentemente e apresentam um design muito mais minimalista, muito mais moderno, mas que também está muito próximo desse lado mais local, ou porque estão localizados mesmo no centro de Cascais, ou porque têm vista ali para os castelinhos do Estoril.
Muito bem. E essas são as zonas principais, Lisboa, Cascais, Estoril, é por aí?
Exatamente. Também vai depender do perfil. Tem pessoas mais jovens, principalmente, ou investidores sozinhos, que preferem os centros históricos, e aí vamos falar no centro histórico de Lisboa. E aí vão encontrar imóveis mais antigos, talvez até com alguma dificuldade para estacionar o carro, mas que abrem mão disso para ter a localização. E depois nós temos as famílias ou até os reformados que vão preferir talvez Cascais ou Estoril, porque está mais perto da natureza, mais perto dos campos de golfe, mais perto das escolas internacionais e também vão ter o acesso a uma casa maior, com áreas mais amplas, que também é uma característica muito valorizada pelos norte-americanos.
O Porto, por exemplo, não entra ainda neste campeonato.
Sim, o Porto, o Algarve e também ultimamente tem crescido a procura na Ilha da Madeira, que são destinos que têm crescido nos últimos tempos. Nós não visitamos imóveis nessas zonas. E os preços são ligeiramente mais baixos, mas ainda assim têm crescido e tem aumentado a procura.
Começam a ser procurados. Então vamos tentar viajar para dentro. Eu sei que tudo isto, como aliás temos referido ao longo desta conversa, depende do perfil de cada pessoa, de cada família, de cada investidor. Mas o que é que um comprador de uma casa de luxo, de nacionalidade norte-americana, quer mesmo ter na sua casa em Portugal?
Em primeiro lugar, tem que ter três ou quatro quartos, pelo menos, e eles precisam ser suítes. Todos os imóveis que nós visitamos tinham três ou quatro suítes.
Muito claro.
Depois, áreas amplas ou pelo menos uma sala e uma cozinha grandes. Vista pro mar ou vista pro rio, ou uma vista pra natureza, mas querem ter o privilégio de poder ter uma área para onde olhar. A localização é uma prioridade também. E depois nós entramos na parte dos equipamentos. Eles valorizam muito cozinhas equipadas com eletrodomésticos de alto padrão, frigorífico side by side com congelador.
À americana, como nós costumamos falar, o frigorífico americano.
Exato. E outros equipamentos de ponta. E ainda a lavanderia separada com máquina de lavar e de secar.
Aquela ideia de ter lá a máquina de lavar e de secar na cozinha não funciona.
Não. E até as casas históricas que nós visitamos conseguiram adaptar o espaço para criar essa lavanderia separada.
Já acompanham esse mercado americano.
Exatamente. Ar-condicionado também é uma coisa muito importante para os norte-americanos, precisa ter. E um extra, que é muito valorizado e todas as casas que nós visitamos também apresentavam, são sistemas automatizados, estilo smart home, em que eles possam controlar a abertura das janelas e os eletrodomésticos a partir de um único controle.
Isso faz sentido, já que se está a pagar esse dinheiro por uma casa, já agora que ela venha completamente modernizada. Nas casas que tu visitaste, houve algum detalhe que te tenha surpreendido particularmente?
Acho que no geral as casas são muito impressionantes, porque apresentam piscina privativa, apresentam vistas maravilhosas, mas à medida que nós estamos lá dentro, nós vamos percebendo algumas coisas que o dinheiro não pode comprar tudo. As localizações das casas muitas vezes impedem as pessoas de estacionar os carros próximos às casas.
Desconfortável.
Exato. E é difícil imaginar uma pessoa que tem tudo isso dentro de casa, ter que deixar o carro a tantos metros de distância. Outro detalhe, são casas que geralmente estão muito próximas de outras casas e que são outras casas, talvez de classe média, casas mais simples. Nós, numa cozinha de uma dessas casas, vimos um estendal, por exemplo, do outro lado da rua.
É para manter a cultura portuguesa, temos que ver desse lado.
Exato. Nesse ponto, eles têm acesso a uma experiência 100% local. Mas no geral, é algo que contrasta bastante com os preços que são praticados e o luxo que aquelas casas representam. Então sim, acho que esses são aspectos que me surpreenderam particularmente.
Claro que nos últimos anos, isto também tem a ver com esse tipo de políticas, houve políticas como os Vistos Gold, que pretendiam precisamente atrair determinados investidores, nomeadamente no setor imobiliário. As alterações que têm havido do ponto de vista da legislação, para quem trabalha nesse negócio, estão a deixar as pessoas ansiosas ou como é que estão a reagir a essas mudanças?
Os profissionais dessa área são muito cautelosos quando comentam esse tema. Acho que também não querem polemizar mais. A mudança na Lei da Nacionalidade, por exemplo, que aumenta de cinco para 10 o número de anos de residência legal pra conquistar a nacionalidade portuguesa, é algo que gera um sentimento agridoce, porque, por um lado, comentam que há uma certa quebra de confiança por parte daqueles investidores que investiram com o objetivo da residência e agora vão ter que esperar mais cinco anos. Mas, no geral, os estrangeiros, pelo menos a percepção que esses profissionais nos passam, é de que esses estrangeiros gostam das mudanças, porque são mudanças que ajudam a controlar a imigração e, de certa forma, manter a segurança do país.
Que é, como vimos, o fator mais valorizado pelos clientes norte-americanos.
Eles preferem ter mais segurança e assim também esperar mais cinco anos.
Muito bem, Samya, muito obrigado.
Obrigada, Pedro.
Eu conversei com a jornalista de lifestyle do Observador, a Samya Fiates, que no artigo que escreveu para o Observador também perguntou sobre o efeito que estas casas, estes preços e estes clientes podem ter no mercado de habitação em Portugal, há vários anos a sofrer uma crise de oferta e de preços proibitivos. Sem surpresa, quem vive deste negócio prefere destacar os números de um investimento crescente que permite reabilitar patrimônio e também ajuda a economia. E lembrar que neste segmento, as casas que se compram e vendem nunca seriam propriamente para o bolso da classe média em Portugal. Esta foi a história do dia, a sonoplastia do Tomás Ferreira, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.










