CIÊNCIA

Eu Explico… como é viver com daltonismo?


Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Começa agora o “Eu Explico”, o teu podcast onde todas as segundas-feiras nos focamos num tema em específico. Eu sou o Vasco Galhardo, o Host, e esta semana convidei o David Bandeira, que é estudante, para nos vir explicar como é viver com daltonismo. Olá, David, e obrigado por te juntares a mim hoje.
Obrigado eu. Olá.
David, em primeiro lugar, e porque há pessoas que podem não saber, diz-me o que é o daltonismo.
O daltonismo é a dificuldade de perceber cores. Muitas das vezes as pessoas associam à ausência total de cores, também existe, mas é mais sobre a dificuldade de distinguir cores, como é o meu caso, que eu tenho muitas dificuldades em distinguir tons de cor.
Há vários níveis, é isso?
Há vários. Há quatro tipos de daltonismo, pelo menos conhecidos e comprovados pelos médicos, que é o deuteranopia, o tritanopia, o protanopia e o acromatopsia, que são os quatro tipos que existem. Um mais focado em cores, por exemplo, os vermelhos, o outro azuis, o outro amarelos e o outro que é a ausência total de cores.
E em qual é que tu te…?
Eu incluo-me no protanopia e o tritanopia. Tenho os dois, que é uma combinação um pouco rara, mas que também existe. O mais comum é as pessoas terem o deuteranopia, que é a distinção de verde e vermelho, que é o mais comum que existe, tanto a nível global como nacional.
Muito bem, e quando é que tu descobriste que eras daltónico?
Eu descobri no nono ano, quando fiz um daqueles exames de rotina da oftalmologia e quando me deparei com aqueles testes que são os testes de daltonismo, é uma bola com várias cores e tem números lá dentro. Um daltónico não consegue ver esses números e muitas das vezes erra os números. E eu estava a errar tudo, não acertava nenhum número e a médica depois disse que eu era daltónico. O problema foi que foi à terceira vez que eu fiz esse teste que me disseram que eu era daltónico.
Só à terceira vez?
Só à terceira vez é que eu descobri que era daltónico.
E porque achas que foi um erro médico?
Eu assumo que foi os médicos que achavam que eu já sabia que era daltónico e não diziam. O primeiro médico não disse nada, a segunda também não disse nada, foi só mesmo à terceira vez que a médica virou-se e até num tom de gozo, do tipo: “Não queres ir pra Força Aérea?”, porque estas vertentes têm sempre essas restrições. E eu disse que não, e ela disse: “Então não te distraias com isso nenhum, és daltónico”. E eu fiquei surpreso, porque nunca na vida pensava que era daltónico.
Uma pessoa daltónica não pode ir pra Força Aérea, por exemplo?
Que eu saiba, a Força Aérea não, mas no entanto o Exército, e segundo o conhecimento que eu tenho, eles têm mesmo batalhões com pessoas daltónicas. Por quê? Porque um daltónico consegue ver camuflagem. Porque como têm dificuldade de ver os tons de cor, muitas das vezes a camuflagem padrão não se aplica a um daltónico. Então o Exército aproveita esse recurso de militares daltónicos e coloca-os em certos ramos para isso. A Força Aérea, eu creio que só mesmo os pilotos. De resto, nas outras vertentes não há problema nenhum.
Estavas a dizer que descobriste no nono ano, é tarde.
É tarde, mas há pessoas que descobrem muito mais tarde.
Mas tu achas que tens desde sempre?
Não, o daltonismo é desde sempre. O daltonismo é uma condição genética.
Genética, ok. Nasces com…
Sim, ou seja, é mais comum nos homens do que nas mulheres, no entanto, pode também ser nas mulheres, há mulheres também daltónicas. No entanto, é uma condição genética que nasce connosco. O problema é que há pessoas que descobrem muito tarde. Eu tenho conhecimento pessoal de pessoas que descobriram com 30 anos, 40 anos.
Tu antes então nunca tinhas percebido, nunca tinhas reparado em conversa com amigos, é daquela cor e eles dizerem que não era dessa cor?
Havia alguns sinais.
Ok.
O primeiro sinal foi quando escolhi a cor pra o meu quarto, que era uma cor que pros meus pais era uma, pra mim era outra, e foi assim o primeiro grande sinal. E outro sinal foram nas aulas de Educação Visual, naquelas aulas de pintar. Muitas das vezes eu pintava com a cor errada e depois diziam que essa era a cor errada.
E tu teimavas a dizer que…
Eu não teimava, porque eu sempre achei estranho, e também foi outro sinal, foi naqueles lápis de cor, naqueles 12 lápis de cor, eu achava estranho porque é que haviam dois que eram iguais, porque é que tinham dois repetidos. Mas eu nunca insisti nisso.
Nunca questionaste.
Eu achei que se calhar era uma coisa normal, meterem dois, se calhar foi erro de fábrica e nunca argumentava contra isso.
Que cores então é que tens mais dificuldade em distinguir?
Os azuis. Os azuis e os tons de cor em si.
O observador é aqui azul. O que é que tu vês?
Não, eu vejo azul.
Ah, vês azul, não consegues é…
Qual é a minha dificuldade? É se me colocarem dois tipos de azul totalmente distintos, eu digo que é o mesmo azul. O meu problema é mesmo essa distinção de tons de azul. O que acontece muito é nas roupas. É uma dificuldade que os daltónicos sofrem. É nas roupas, porque nós vemos uma cor e muitas vezes não é essa cor.
Sim. E diz-me uma coisa, qual é que é o maior mito sobre o daltonismo?
O maior mito, talvez, que os daltónicos não veem cores. Muita gente acha isso. Muita gente acha que um daltónico-
Vê preto e branco só.
Vê preto e branco.
Também são cores, mas…
Ou então não sabe as cores. Por exemplo, eu quando disse à minha turma que eu era daltónico, havia sempre aquelas perguntas um pouco parvas, que era: “Qual é a cor? Qual é esta cor?” Ou “Que cores é que vês?” E o mito é esse, é a malta não perceber que um daltónico vê cores, não vê as mesmas cores ou se calhar o mesmo tom de cor que a pessoa vê, mas vemos cores.
E em que situações do dia a dia o daltonismo mais te afeta?
Ora bem, a mim, na escolha de roupa. Quando descobri que era daltónico, eu mudei o meu closet da roupa para cores neutras. Neste momento, o meu closet só tem roupas pretas e brancas.
Pra não teres de estar sempre a perguntar, se calhar, qual é que é.
Depois também pra não correr o risco de ir pra rua com uma roupa toda-
Espampanante.
Pronto, lá está. É tudo neutro, tirando as camisas de futebol.
Ah, claro.
E eu tenho uma história muito engraçada, porque eu comprei uma camisa de futebol que eu achava que era uma cor e depois era outra. E eu achava que era uma camisa e depois era outra. E eu ri-me na altura, porque eu achava que era uma cor, depois diziam: “Não é essa cor”. E eu: “Então, mas eu acabei de gastar dinheiro numa camisa que não é a cor que eu queria”. Pronto. Portanto, eu sinto muita dificuldade é na roupa e depois na construção também da forma como nos vestimos, porque eu por acaso não tenho muita dificuldade, como é cores neutras, é fácil de combinar, mas se eu tiver cores coloridas, muitas das vezes, quando eu tive que comprar o meu fato para o baile de finalistas e também para o Parlamento de Jovens, eu queria um fato de uma cor e os meus pais disseram que era roxo E é o fato que eu acabei por ter azul, mas eu vejo roxo.
Ok.
Portanto, eu sinto muita dificuldade a início. Eu creio que os daltônicos sentem muita dificuldade a início, é na escolha de roupa.
Estavas a falar do azul, quer dizer então que tu percebes os sinais de semáforos?
Eu percebo os semáforos.
Ok, porque há de haver pessoas que se calhar não conseguem distinguir essas cores, é muito perigoso poderem guiar.
Sim, é perigoso. No entanto, há sempre a facilidade do cima parar, meio abrandar, baixo avançar. Mas sim, há pessoas que não conseguem distinguir essas cores nos semáforos.
Sim. E diz-me uma coisa, as aplicações e as tecnologias atuais ajudam?
Ajudam. Existe um sistema que por acaso é este verde, que é o ColorADD, que é um sistema que foi criado por um professor da Universidade do Minho, que troca as cores por símbolos. Ou seja, uma cor está correspondente a um símbolo. E depois os tons de cor são somas. Por exemplo, se o azul for uma barra, então o tom de claro azul é uma barra com uma bola à volta. E se for escuro, a bola é preenchida com a barra no meio. É um sistema muito bom pra quem é daltônico pra conseguir identificar a cor. Temos também aplicações, existe aplicações, que por exemplo, transforma a nossa câmera como um daltônico do tipo X, vê o mundo.
Isso é muito interessante. Tu usas essa aplicação?
Eu não, eu não uso a aplicação, mas conheço quem use. Também há óculos que revertem esse-
Ah, já temos óculos?
Já existe óculos que revertem o daltonismo. No entanto, no meu caso, como é pouco, ou seja, não é tão grave, não há necessidade, mas há pessoas que usam.
Mas ainda bem, não é? Que há essas possibilidades.
Sim, já há grandes avanços e na área do daltonismo eu percebi disso, porque eu fui a um evento protagonizado por umas alunas universitárias, que era explorar o mundo do daltonismo para quem não é daltônico, que eu achei superinteressante. Eles tinham exposições com fotografias normais e como um daltônico as vê. E lá eu tive em contato com duas pessoas daltônicas também, numa espécie de conversa aberta, e uma delas era uma pessoa que agora está no Brasil, veio cá pra Portugal, e ele descobriu que era daltônico na universidade e ele tem feito uma luta para os daltônicos, porque ele relatou um caso que marcou muito, que foi na altura das cheias em Portalegre. Os avisos da televisão vermelhos e isso eram todos iguais pra um daltônico.
Ah, pois.
Então o que eles fizeram? Eles conseguiram fazer uma parceria com a Câmara, neste caso com o governo deles, e colocaram o ColorADD nas televisões, para um daltônico saber quando é que o risco estava elevado ou estava normal pra si, porque as cores eram tão parecidas que uma pessoa não via. Portanto, essa adaptação e a criação desses códigos e a utilização destes códigos, eu no outro dia fui à Feira do Livro, estão lá nas bancas. Se repararmos, a Feira do Livro é dividida por quatro zonas, cores. E nas cores, se as pessoas repararem, estava lá um sinal, que é o ColorADD. É esse sistema que ajuda-nos a nós perceber qual é a cor verídica. Portanto, eu acho que as tecnologias e a questão dos óculos ajudam imenso os daltônicos.
Tu tens ideia quantos daltônicos existem no mundo? Por acaso não fui pesquisar esses números.
Em Portugal é cerca de 10% da população.
10%?
E no mundo também. É 10%, de acordo com o INE, com o Instituto Nacional de Estatística, cerca de nove vírgula tal por cento, acho que são 8,1% de homens e o resto mulheres, são daltônicas em Portugal.
Se calhar o número é muito maior, porque estavas a dizer, há pessoas que ainda não foram diagnosticadas.
E eu acredito que o número seja muito maior porque há muitas pessoas que não são diagnosticadas. Eu creio, e as pessoas dizem: “Descobriste tarde”. Eu não, eu descobri cedo. Há pessoas que só descobrem numa fase muito avançada da vida. Portanto, eu acho que o primeiro alerta e o perigo é a identificação de um daltônico. Porque se uma pessoa vai a uma consulta e acontece o que me aconteceu a mim, faz o exame e o médico não diz nada, a pessoa não sabe se é daltônica.
Ainda bem que tu insististe, não é? Porque se calhar continuavas sem saber, estavas a dizer que foi só à terceira vez.
Sim, eu insisti, por acaso foi numa questão de rotina, pra saber se tinha que aumentar a graduação, mas ainda bem, porque senão me traria muitas complicações no futuro.
O ano passado tu tiveste uma situação num exame nacional, conta-nos o que é que aconteceu.
Sim, foi no exame nacional de Geografia A. Foi uma situação um pouco caricata, porque eu assim que descobri que eu era daltônico, eu informei minha escola como protocolo, pra saber se era preciso alguma coisa. E eles disseram que seria preciso pra os exames, porque caso saísse figuras coloridas, eles tinham que avisar. Qual foi o problema? É que desde desse ano, ou seja, desde 2024, eu fiz o exame em 2025, o guia de adaptações do Júri Nacional de Exames, que é o que define o que cada aluno tem de adaptações, por exemplo, a dislexia ou isso, mudou. E o que é que mudou? Em 2024, era necessária a apresentação do atestado médico a comprovar que o aluno era daltônico pra ter as medidas de adaptação. Em 2025, deixou de haver. Por quê? Porque o ColorADD passou a ser obrigatório em todos os exames. O que é que aconteceu? Eu quando fui fazer o exame de Geografia, eu reparei três coisas. A primeira é, o ColorADD estava lá.
Sim.
A segunda é, o ColorADD tinha um erro, ou seja, haviam duas cores distintas com o mesmo código de cor, embora eu só tenha descoberto isso muito mais tarde, mas descobri isso, haviam duas cores distintas com o mesmo código de cor.
Viste baralho outro, presumo, não é?
Na altura do exame, não, porque eu já lá chego e não consigo fazer os exercícios. Por quê? E aí chegamos ao terceiro ponto. O ColorADD apenas está presente na legenda. Ou seja, o que o ColorADD lá me diz? Diz-me que naquela figura estão presentes seis cores. E as seis cores são verde, azul, amarelo e vermelho, por exemplo, teoricamente falando. O problema é que eu dentro da figura eu não consigo distingui-las.
Pois.
Ou seja, eu não consigo ver onde é que elas estão. Por que isso é importante, sobretudo pra Geografia? Em Geografia, nós temos aqueles mapas, tanto os pluviométricos, como das alturas e isso. E eu tive um exercício, foi nos exercícios que eu me deparei, em que eu tinha um gráfico onde eu tinha as diferentes temperaturas nas várias regiões do país. E eu tinha que, com base na análise do gráfico, dizer por que naquela região tinha aquela temperatura, qual era o problema. Eu não conseguia saber qual era aquela temperatura, porque não conseguia fazer a correspondência da figura para a legenda. Isso causou um grande problema. O problema foi que foram três gráficos desses e foram cerca de cinco perguntas que eu não fiz.
Isso foi informado aos professores?
Isso depois foi tudo informado.
Mas durante o exame?
Sim, ou seja, nós antes do exame já sabíamos e o que fizemos? Contactámos o secretariado, que é a entidade responsável por falar, e o secretariado antes tentou falar com o agrupamento, porque isto é por escalões, ou seja, é secretariado, agrupamento, júri e depois mais acima ainda, acho que o júri é mesmo o último. E tentaram contactar antes da prova O agrupamento a única coisa que disse foi: “Nós não sabemos, porque as provas estão seladas, mas a única coisa que sabemos é que, de facto, o colorado vai lá estar, se houver gráficos coloridos.” Quando eu me deparei com aquele gráfico, eu informei de imediato o professor vigilante, e o professor vigilante chamou o secretariado. E o secretariado aí tomou conta do assunto, eles contactaram com o agrupamento a informar a situação, a descrever a situação, e o agrupamento respondeu-lhes de uma forma do tipo, insinuando que a escola não ensinou o aluno a interpretar o código de cores.
Isso durante o exame?
Isso durante o exame, sim. E insinuou que a escola não sabia ensinar e que o aluno não tinha capacidade para interpretar o código de cor.
E tu no meio disso estavas sem fazer o exame, à espera de alguma novidade?
Fui avançando, fui fazendo as perguntas, não ia estar parado.
Não, claro.
Eu fui avançando e fiz as perguntas que consegui. Depois a minha escola contactou novamente o agrupamento dizendo que não era esse o caso, era um caso mais grave ainda, e o agrupamento disse para aguardar e que iam contactar o júri. Com isto, o júri depois respondeu dizendo que não sabiam o que fazer naquela situação, porque nunca lhes tinha acontecido. O que é que acontece?
Caso único.
O exame tem duração de duas horas mais 30. Fiquei lá três horas, porque enquanto eu não tivesse uma resposta, eu não podia avançar no exame e eu fiquei lá. Depois, no final, o secretariado lá me disse a resposta do júri nacional de exames e até chegou a um ponto que a coordenação da escola foi envolvida e disseram: “É assim, o que nós vamos fazer, vamos fazer um relatório diário de ocorrência, que é quando algo acontece na prova, a dizer que não conseguiste responder a estas perguntas e vamos enviar pra ali. Depois, quando receberes a nota, recomendamos te fazer uma exposição de motivos às entidades competentes, para ver se isto vai a algum lado.”
Foi o que fizeste?
Foi o que eu fiz. Eu quando recebi a nota, eu reparei que acabei por ser prejudicado em 4,5 valores, porque eu não fiz as perguntas.
É bastante.
E depois há outra coisa que é, de acordo com a Direção-Geral de Educação, uma pessoa não pode alegar situação de doença durante a prova para pedir reapreciação. Ou seja, eu não conseguia pedir reapreciação com base no sinal tônico, dizendo que eu não consegui responder àquelas perguntas, por favor, não me contem nessas perguntas. Não, não podia fazer isso. Assim que eu recebi, a minha escola, e aí foram cinco estrelas, mandaram-me logo os contactos todos e nós no dia, creio que foi no dia logo a seguir, contactámos imediatamente as instituições, nomeadamente o IAVE, o Júri Nacional de Exames, a Direção-Geral de Educação, o Ministério da Educação e o agrupamento. E dessas, tivemos uma resposta logo dois dias depois do IAVE, dizendo que o problema não era deles e que reencaminhariam para quem de direito, neste caso, para o Júri Nacional de Exames. E depois tivemos o caso do Júri Nacional de Exames nos responder mais tarde, em setembro, o contacto foi feito em agosto, em setembro responderam-nos, dizendo que eles cumpriram com todas as medidas de adaptação, não viram nenhum caso que tenha sido violado na minha situação e que por isso a culpa era de quem tenha feito os exames, nomeadamente o IAVE. E ficámos numa dessas.
É o passa-culpas.
É o passa-culpas. Eu depois, ainda mais tarde, tentei contactar com a Inspeção-Geral de Educação e eles tiveram que me explicar o procedimento todo da escolha de exames. E foi aí que eu percebi, os exames estão feitos para quem tem deuteranopia, ou seja, exclui automaticamente os outros três tipos de daltonismo.
Poxa, não pode ser.
Não pode ser, porque eles dizem que os gráficos passam por uma máquina com deuteranopia e foi aí que eu percebi. O que é que acontece? Eu, inquieto com a resposta que me deram e com as respostas que me foram dando, eu fiquei com aquela cabeça do: “Nunca nos aconteceu.”
Então, basicamente, a tua nota ia ficar aquela?
Sim, e ficou.
E ficou?
E ficou. Ao fim disto tudo, ficou. E eu pensei assim: “Eu não posso ser caso único.” O que é que eu fiz? Fui para as redes sociais expor a situação.
Muito bem.
E eu quando vejo que os meus vídeos, e assim eu nunca tinha usado redes sociais, eu vejo os meus vídeos a terem visualizações e visualizações. Estamos a falar de 20 mil visualizações, pra pessoas é pouco, pra mim é imenso. Pra mim mil visualizações já é imenso, mil pessoas vendo aquele vídeo. E eu surpreendo-me mais quando eu vou abrir os comentários e vejo: “Ah, isso também me aconteceu a mim. Ah, isso também me aconteceu a mim.”
É o poder das redes sociais.
“Em 2022 eu fui prejudicado em Biologia”, e eu: “Então, afinal não é só Geografia, é Biologia.” Eu comecei a ver pessoas sendo prejudicadas. E então, eu falei com uns amigos meus que eu tinha feito no Parlamento de Jovens, e eu descobri uma coisa que eu podia fazer, que era uma petição, que é um direito democrático, previsto pela Constituição, que é uma petição. E eu sim, falei com os meus pais, houve uma grande discussão sobre isso, porque eu era menor de idade, na altura eu tinha 16 anos. E eu assim: “Vou fazer uma petição, porque isto tem que mudar. Vou partilhar a petição nas redes sociais e seja o que for.”
Muito bem.
E assim eu fiz. Esse vídeo ainda mais visualizações teve. Foi um vídeo que teve cento e tal mil visualizações no TikTok e isso. E tive mais comentários de malta a dizer: “Fazes bem, estamos na mesma situação, isso é ridículo.” Professores, inclusive, a dizerem que: “Como é que isso pode acontecer? Isso é impossível de acontecer.” E foi então que eu fiz a petição, eu reuni as assinaturas.
7500?
Não, eu consegui 631 assinaturas.
Ok.
O que pra mim era excelente, embora não seja as 7500 pra ir a plenário, mas ao menos já ia à comissão, porque já tinha mais de 100, já ia à comissão. E eu confesso que aí eu perdi-me um pouco no rumo, porque começaram as aulas desse segundo ano, deixei um pouco de lado. Mas depois nas férias do Natal, retomei essa situação, voltei a partilhar com amigos, eu partilhei pra tudo o que foi lado e consegui as assinaturas e eu decidi em janeiro: “Tenho 600, é bom, vou já submeter pra ver se isso resolve.” Submeti. Depois, numa ida de um deputado à minha escola, no âmbito do Parlamento de Jovens, eu descobri que podia pedir audiências aos grupos parlamentares e eu achei: “Isto é bom, assim eu vou falar com eles, eles percebem o meu caso.” E fiz isso, pedi audiência a todos os grupos parlamentares e responderam. Cinco grupos parlamentares responderam, eu reuni-me com eles e digamos que fiquei admirado, porque quando eu me reúno com eles e vou lá e vou naquela do se calhar eles não querem saber disto, não, tenho os deputados a dizerem-me que: “A sério, isto aconteceu? Olha, fazes muito bem fazer isto, nós vamos já trabalhar nisto.”
Ainda bem que avançaste.
E foi nessa altura que eu percebi que, de facto, o que eu estava a fazer já não tinha volta atrás. Tinha que continuar e continuei E depois percebi.
Há alguma novidade?
Há novidade. Depois fui à comissão, cheguei a falar na comissão e expor o meu lado. Antes dessa comissão, havia um projeto de resolução por parte do LIVRE e depois de eu ir a essa comissão, surgem espontaneamente mais quatro. Ou seja, eu tive cinco projetos de resolução e para me admirar foram dos cinco maiores grupos parlamentares que estão no Parlamento. Ou seja, o PS, o PSD, o Chega, a IL e o LIVRE fizeram projetos de resolução, todos mais ou menos iguais. Fizeram, eles discutiram. Foi um bocado triste pra mim, porque no dia em que discutiram foi no dia do plenário do Parlamento de Jovens e eu não pude ir assistir, os serviços não me deixaram. Mas eu depois fui ver a gravação e depois, nessa mesma sexta-feira, foi votado. Nessa sexta-feira, eu estava na escola, depois tinha ido pra casa, fui descansar um pouco e quando eu acordo, eu recebo uma mensagem de um deputado a dizer: “A votação é agora” e quando eu vou ver as mensagens, estava ele a dizer: “Projeto de resolução X, aprovado por unanimidade, projeto de resolução Y…” Ou seja, os quatro foram aprovados por unanimidade, o do Chega foi com abstenções, mas foram aprovados. Era o que eu quis mesmo, foram aprovados.
Muito bom.
E eu quando recebo essas mensagens, fico contente. Fico contente e é aquilo que eu destaco desta minha luta, que é: se uma pessoa for consistente e acreditar que algo está errado e que dá pra mudar, conseguimos mudar. Isto é prova disso.
Isto é bom pra inspirar outras pessoas também que podem conseguir mudar as coisas.
Se de fato tiverem essa motivação e o apoio que eu tive, que digo já, no início foi pouco. Poucas pessoas acreditavam que eu ia mudar algo e no final já toda gente dizia: “Ah, sempre acreditei”, como toda gente o faz. Mas, por outro lado, também mostrou-me um outro lado da política que eu não sabia. Nós vivemos muito numa conjuntura em que achamos que a política está afastada, sobretudo nós jovens. Como jovem, nós acreditamos que a política está afastada, porque muitos jovens não querem saber, veem coisas nas redes sociais e acreditam logo. E esta minha luta fez-me ver que não é bem assim.
Que bom.
Por quê? Fez-me ver que a política está próxima de nós. Isto por quê? De todos os contactos que eu tive, todos os e-mails que eu mandei, é claro que pros grupos parlamentares houve alguns que não foram respondidos. É normal, eles depois explicaram: “Nós recebemos às vezes mil e-mails diários, muitas vezes sem interesse nenhum, portanto, não conseguimos ver”. Mas quando eu contactei os deputados em si, tanto a nível de e-mail, como depois nas redes sociais, porque eu depois fiquei com as redes sociais e fui trocando mensagens pra saber o estado da minha petição, sempre tive resposta. Sempre me responderam e sempre me disseram assim: “Ah, assim que houver notícias…” Os próprios serviços da Assembleia da República, eu quando fui lá, deixei o meu contacto com eles e os próprios serviços da Assembleia da República, se calhar ficaram um bocado fartos de mim, porque eu estava sempre a mandar e-mails do: “Posso ir assistir?” Eles respondiam-me sempre: “Pode ir assistir, com base nessas condições, pode ir assistir”. Portanto, eu deixo esta mensagem aqui, que de fato a política está próxima de nós. E a resposta dos deputados a todos os meus pedidos, embora alguns devem achar que eu fosse um chato, responderam-me sempre e tiveram sempre o cuidado de me manter informado. Lá está, eu recebi a mensagem a dizer a votação, e depois fui ver a gravação e fui tirar um screenshot também pra depois informar nas redes sociais. Portanto, eu acho que esta minha luta ensinou-me duas lições: uma é que eu sou capaz e cada pessoa é capaz de mudar algo, se acreditar realmente nisso. E a outra é que, de fato, a política está bem mais próxima de nós do que nós pensamos.
Muito bem, parabéns por todo o teu esforço. Agora, pra terminar, imagina que nos está a ouvir uma pessoa que acabou de descobrir que é daltônico. Que mensagem é que gostarias de deixar?
A mensagem que eu gostaria de deixar é muito simples: avisa os teus amigos e quem convives. Por quê? Muitas das vezes nós, daltônicos, levamos com alguns comentários, muitas das vezes inapropriados, mas que sabemos que ou é na brincadeira, mas às vezes podem nos afetar, que é do tipo: “Então, mas não vês que essa cor é essa? Tu não sabes ver as mesmas cores”. Muitas vezes esses comentários em certas pessoas podem ser mais sensíveis. Por exemplo, a mim não há problema nenhum, as pessoas fazem, eu vejo isso na brincadeira.
Sim, mas nem toda a gente reage da mesma forma.
Nem toda a gente reage da mesma forma. Portanto, o conselho que eu dou é se descobrires que és daltônico.
Tenha uma empatia.
Avisa. Por quê? Porque primeiro os teus amigos podem ser tua ajuda. Imagina que faz as compras. Eu, por exemplo, não consigo comprar roupa sozinho, senão vou comprar cores que são totalmente diferentes das que eu estou a imaginar. Portanto, os teus amigos podem servir disso, podem te acompanhar nessas idas a comprar roupa. E por um lado, podes evitar essas questões do: “Então, mas não vês que essa cor é essa, tão simples?” Portanto, é isso. E depois, vive a tua vida. Daltônismo é uma condição que sim, afeta 10% da população, mas eu não acredito que seja uma condição que condicione tanto assim a vida. Eu consigo viver a minha vida normalmente.
E como tu disseste, as coisas estão a evoluir e ficar cada vez melhores pras pessoas que têm essa condição. Ainda bem. Pra isso é que a tecnologia existe.
Lá está. Eu acho que a sociedade está a se tornar cada vez mais acessível a estas condições. Portanto, é a mensagem que eu deixo.
Muito bem. Muito obrigado por teres vindo, David. Um abraço e até breve.
Obrigado eu pelo convite.
O “Eu Explico” volta na próxima segunda-feira com outro tema. Boa semana pra todos.

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