CIÊNCIA

Inteligência artificial no SNS: inovação que exige debate

A entrada da Sword Health no Serviço Nacional de Saúde (SNS), através de um modelo de fisioterapia remota apoiado por inteligência artificial (IA), foi recebida por muitos como um sinal de modernização e uma resposta necessária às dificuldades de acesso aos cuidados de reabilitação. As promessas são ambiciosas, redução dos tempos de espera, maior eficiência na utilização de recursos e diminuição dos custos para o Estado.
Num SNS pressionado pelo envelhecimento da população, pelo aumento das doenças crónicas e pela escassez de profissionais em várias áreas, é natural que a inovação tecnológica seja encarada com expectativa. Os tempos de espera para cuidados de fisioterapia continuam a ser excessivos e muitos utentes veem a sua condição funcional agravar-se enquanto aguardam resposta.A tecnologia pode, e deve, fazer parte da solução. As ferramentas digitais têm potencial para melhorar o acesso aos cuidados, facilitar a monitorização à distância, aumentar a adesão aos tratamentos e apoiar a tomada de decisão clínica. A inteligência artificial pode identificar padrões, otimizar processos e libertar recursos para situações mais complexas.Mas uma coisa é utilizar a tecnologia como instrumento de apoio ao exercício profissional. Outra, profundamente diferente, é permitir que a própria prestação de cuidados seja progressivamente redefinida por plataformas tecnológicas e por modelos organizacionais concebidos fora das estruturas tradicionais de prestação de cuidados de saúde.
Estamos, por isso, perante algo mais do que um simples projeto tecnológico. O que está em causa é uma alteração estrutural na forma como o Estado imagina o acesso aos cuidados de saúde e na forma como concebe a relação entre inovação, profissionais e cidadãos.A fisioterapia não pode ser reduzida a uma prescrição médica, a uma aplicação móvel, a um dispositivo enviado para casa ou a uma sequência de exercícios corrigidos por algoritmos. A fisioterapia é avaliação funcional, raciocínio clínico, tomada de decisão, planeamento, reavaliação contínua e adaptação permanente ao contexto individual. É relação terapêutica, gestão do risco, educação para a saúde e responsabilidade profissional.À medida que a inteligência artificial assume um papel crescente na organização e monitorização dos cuidados, torna-se essencial clarificar onde termina a responsabilidade dos algoritmos e onde começa a responsabilidade clínica dos profissionais, garantindo que o julgamento clínico e a tomada de decisão permanecem inequivocamente sob responsabilidade dos fisioterapeutas.Há, porém, uma questão que praticamente não entrou no debate público: o lugar do modelo biopsicossocial, hoje amplamente reconhecido pela evidência científica como central no tratamento de muitas condições clínicas. A dor e a recuperação funcional não podem ser reduzidas à execução de exercícios monitorizados por algoritmos. Fatores psicológicos, emocionais e sociais influenciam decisivamente os resultados clínicos. O modelo biopsicossocial exige escuta, relação terapêutica, compreensão do contexto de vida e adaptação contínua da intervenção às necessidades, crenças e expectativas de cada pessoa. Exige, em suma, julgamento clínico e uma abordagem verdadeiramente centrada na pessoa.
Outra preocupação prende-se com a possível desumanização dos cuidados de saúde. A relação terapêutica estabelecida entre fisioterapeuta e utente é frequentemente um fator determinante para o sucesso da reabilitação, promovendo confiança, motivação e adesão ao tratamento. Um modelo excessivamente centrado na tecnologia pode reduzir a dimensão relacional do cuidado e transformar a intervenção num processo mais automatizado e menos individualizado.A discussão em torno da fisioterapia remota apoiada por inteligência artificial não deve centrar-se numa falsa dicotomia entre ser a favor ou contra a tecnologia. A verdadeira questão é saber em que condições essa tecnologia é integrada e se respeita aquilo que a fisioterapia contemporânea entende como cuidados de qualidade.É, por isso, essencial garantir que estes cuidados são prestados e supervisionados por fisioterapeutas devidamente habilitados, assegurando padrões exigentes de qualidade, segurança clínica, proteção de dados e articulação com respostas presenciais sempre que seja necessário. A tecnologia pode aumentar o acesso aos cuidados, mas não pode substituir o julgamento clínico nem criar a ilusão de que todos os utentes são adequados a um modelo de intervenção remota.A inovação é necessária e desejável. O SNS precisa de novas respostas para problemas antigos. Mas a modernização não pode significar a redução da fisioterapia a algoritmos, métricas de adesão e exercícios monitorizados à distância. O futuro da saúde digital só representará verdadeiro progresso se conseguir preservar aquilo que a evidência científica continua a demonstrar: que a recuperação funcional depende de uma abordagem biopsicossocial, de uma relação terapêutica significativa e do raciocínio clínico de fisioterapeutas qualificados colocados no centro do processo de cuidados.
Antes de celebrarmos a chegada da inteligência artificial ao SNS, é essencial garantir transparência, avaliação independente e um debate público sério sobre o lugar que queremos atribuir à tecnologia e aos profissionais de saúde no futuro do sistema de cuidados.

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