Fundo de Juan Carlos I doou milhões a ONG
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A organização não governamental (ONG) britânica British Council Refugee (BCR), que apoia refugiados políticos, recebeu nos últimos dois anos novas doações no valor de três milhões de libras (cerca de 3,5 milhões de euros) provenientes do The JRM 2004 Trust, um fundo fiduciário com sede na ilha de Jersey e historicamente associado a uma fortuna oculta ligada ao rei emérito de Espanha, Juan Carlos I. A informação é avançada pelo jornal El País esta segunda-feira.
Com estas duas novas tranches — transferidas em 2025 e 2026, no valor de 1,5 milhões de libras cada —, a organização sediada em Londres já acumulou um total de 6,6 milhões de libras (7,6 milhões de euros). Esta verba provém do património deixado em testamento pelo historiador e financeiro Joaquín Romero Maura, falecido em 2022, segundo avançou o diário espanhol. A própria direção da BCR confirmou que levou seis meses a avaliar o historial dos fundos antes de aceitar a herança.A origem deste dinheiro remonta a uma fortuna avaliada em cerca de 15 milhões de euros que nunca foi justificada publicamente e que escapou ao fisco espanhol durante décadas. De acordo com documentos financeiros revelados em várias investigações, o capital esteve inicialmente camuflado em offshores nas Ilhas Virgens Britânicas e em Jersey desde meados dos anos 90. A operação contou com a mediação de Manuel de Prado y Colón de Carvajal, apontado durante anos como um dos principais gestores da fortuna privada de Juan Carlos I.Em 2004, quando Juan Carlos I ainda era o chefe de Estado espanhol, a titularidade destes fundos foi transferida para Joaquín Romero Maura, historiador, professor na Universidade de Oxford e homem de total confiança tanto de Prado y Colón de Carvajal como dos meandros financeiros de Londres. Segundo os registos internos dos bancos que geriam a fortuna, Romero Maura justificou mais tarde aos departamentos de compliance (auditoria interna) que o então monarca lhe tinha entregado os ativos como recompensa por “serviços prestados” e pelo receio de que a ocultação do património fosse descoberta, prejudicando a Coroa, escreve o El País.
O modus operandi assemelha-se a outra polémica que envolveu Juan Carlos I: em 2012, o rei emérito transferiu 65 milhões de euros para Corinna Larsen, verba que tinha recebido em 2008 do Ministério das Finanças da Arábia Saudita e que estava depositada numa fundação panamenha com conta no banco suíço Gonet & Cie.A diferença é que Romero Maura nunca devolveu o dinheiro. Como revela o El País, a documentação da estrutura fiduciária revela que o historiador sempre teve a intenção de doar a fortuna a instituições de solidariedade social após a sua morte. Esta decisão terá enfurecido o rei emérito, que, segundo fontes próximas do processo, manifestou recentemente em privado o seu profundo descontentamento com a gestão de Romero Maura sobre fundos que o antigo soberano continua a considerar seus.As transferências para a BCR arrancaram em 2023 com um primeiro pagamento de 2,3 milhões de libras (2,65 milhões de euros). Em 2024, a ONG recebeu mais 1,3 milhões de libras (1,5 milhões de euros), montante a que se somaram as duas tranches de 2025 e 2026, fixando o total nos atuais 6,6 milhões de libras.Joaquín Romero Maura, que morreu em Saragoça aos 82 anos vítima de doença, era viúvo e não deixou herdeiros diretos. Especialista em história contemporânea espanhola, o académico de Oxford manteve uma ligação pessoal e profissional umbilical a Manuel Prado y Colón de Carvajal. Em encontros privados na Arábia Saudita, o próprio Juan Carlos I costumava quebrar o protocolo e apresentar Prado aos interlocutores de forma direta: “This is my banker” (“Este é o meu banqueiro”).










