Moinhos de água em Sernancelhe, património quase esquecido
Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Olá e sejam muito bem-vindos à História das Histórias. Eu sou o João Paulo Secadura e estamos em plena semana em que é a última, a octogésima, em que contamos com as crónicas do Alberto Correia, este grande historiador e investigador, que foi 18 anos diretor do Museu Nacional Grão Vasco e que nos deu estas 400 crónicas, fruto das suas memórias, dos seus textos, dos seus levantamentos, dos seus estudos e que tanto nos guiou pelas maravilhas, pelas curiosidades, pelas lendas e histórias desta região centro. É com muita saudade que vai deixar de poder colaborar conosco. Tem outros desafios pela frente, pelo qual todos, tenho certeza, eu e todos os nossos ouvintes, desejamos a maior das sortes. E, por isso, Alberto, ontem falámos de fontes, hoje vamos falar dos moinhos de água, outro património que também é quase esquecido. Vamos a isso. Bem-vindo, Alberto.
Os moinhos de água, que outros não havia, não eram em Sernancelhe um espaço comunitário. Eram sempre propriedade privada, às vezes de consortes, que habitualmente entregavam a moleiro de ofício a gestão do engenho em troca de uma renda. O moinho era um lugar de referência no universo da aldeia, não tanto o moinho distante, mas o moleiro que percorre a aldeia recolhendo o grão e distribuindo a farinha do primordial alimento que ninguém dispensa: o pão. Os moinhos distinguiam-se bem na paisagem ribeirinha do Rio Távora, do Medreigo, das ribeiras da Tabosa ou Ferreirinho. Pequenas construções de planta retangular, com telhados de duas águas, que restos de farinha faziam branquear. Recebiam, através de um cubo, um aqueduto inclinado, a água da levada e voltavam a despejá-la depois de lhe captarem a energia que movimentava a mó. Segundo o critério classificativo do grande mestre que foi Ernesto Veiga de Oliveira, estes moinhos de Sernancelhe são do tipo dos moinhos de roda horizontal, de rodízio com penas. Isto é, o engenho motor, o rodízio, é uma roda horizontal de cerca de um metro de diâmetro, constituída por uma série muito numerosa de pás de madeira dispostas radialmente. A potência do jato d’água, que bate diretamente nas pás, constitui a energia hidráulica que produz superiormente o girar da mó. As memórias paroquiais de 1758 documentam, com verdade, a geografia e o número de engenhos que ao tempo garantiam o pão das casas fidalgas que havia, de dois mosteiros que se haviam instalado nos limites do município e de um recolhimento em Freixinho, que o governo da Jovem República encerrou em 1911, e que garantiam também o pão de cada dia das casas de lavoura, dos homens que alugavam seus braços e até dos pobres de pedir. Ainda se distinguem monumentos arqueológicos na paisagem, sem cobertura, desventrados. Salvaram-se algumas mós de que artistas do lugar fizeram obra de arte, obra-prima que ganhou foros de adorno em jardim municipal.
Muito bem, temos mais uma crônica comprida, salvaguardando a memória dos moinhos d’água em Sernancelhe. De facto, um património quase esquecido. E por isso é sempre bom ser o Alberto Correia, que está habituado a isso, que nos vem resgatar do olvido estes patrimónios e estas recordações antigas. Concretamente hoje, estes moinhos de água, que eram sempre particulares. Muito bem. Estamos por hoje conversados. Marcamos encontro amanhã. Até amanhã, Alberto. Bem-haja.
Até amanhã.










