Alienação Parental: quando o casamento chegou ao limite (II)
No artigo anterior, “Alienação Parental Antes do Divórcio: Os Sinais que José Não Reconheceu (I)”, acompanhámos o testemunho do José sobre os primeiros sinais de alienação parental que hoje reconhece terem surgido ainda durante o casamento. A história que nos relatou num podcast mostrou-nos que este processo nem sempre começa depois da separação. Muitas vezes, instala-se de forma discreta, através de pequenos gestos, decisões e limitações que vão reduzindo, pouco a pouco, o espaço de um dos pais na vida dos filhos. O José contou como foi sendo afastado de tarefas do dia a dia relacionadas com os cuidados das filhas, sem que, na altura, se apercebesse do que estava a acontecer. Interpretava essas mudanças como uma forma de organização familiar ou como decisões tomadas em benefício das crianças. Só mais tarde percebeu que aqueles comportamentos faziam parte de um processo mais profundo de exclusão do seu papel enquanto pai. Neste segundo artigo, a história entra numa nova fase. Já não falamos apenas dos primeiros sinais, mas do momento em que o desgaste da relação se tornou insustentável e conduziu ao fim do casamento.
Quando o limite é atingidoPerguntei a José quanto tempo tinha durado o casamento e o que o levou a tomar a decisão de se separar. A resposta foi imediata e resumiu o estado em que se encontrava: “A separação dá-se porque eu cheguei ao limite…”. É uma frase que fica em suspenso, mas que diz muito. Mostra que a separação não resultou de um único acontecimento, mas de um processo prolongado de desgaste. Durante muito tempo, José tentou compreender, justificar e encontrar explicações para aquilo que estava a viver. No entanto, chegou um momento em que percebeu que já não conseguia continuar daquela forma.Um alerta que vinha de longeAo recordar a sua história, o José explicou que a alienação parental não lhe era completamente desconhecida. Muito antes de viver esta realidade enquanto pai, já tinha assistido, dentro da própria família, às consequências devastadoras que o afastamento entre um pai e uma filha pode provocar. Na altura, não conhecia os mecanismos que conduzem a esse desfecho, mas conhecia profundamente o sofrimento que dele resulta.
É essa memória que partilha: “Infelizmente, tenho um primo, da geração do meu pai, que passou por uma situação semelhante. Foi há muitos anos. Na altura, optou por não seguir uma via judicial e tentou sempre resolver tudo de forma amigável. Se foi ou não a melhor estratégia, isso é discutível e cada pessoa terá a sua opinião. O que sei é que, hoje, tem uma filha, que é minha prima e tem a minha idade, com quem não mantém qualquer contacto. Eu próprio não tenho o contacto dela, nem sequer o número de telefone. Apesar disso, temos amigos e familiares em comum que acabam por se cruzar com ela. Pelo que vou sabendo, existe uma recusa muito clara em relação ao pai. É como se ele nunca tivesse existido na vida dela. Não quer saber dele e nunca quis. Conheço um pouco dessa história e isso serviu-me de alerta. Naquela altura, eu ainda não estava desperto para os comportamentos ou estratégias que permitem identificar uma situação de alienação parental. Não sabia reconhecer os sinais. Mas estava perfeitamente consciente daquilo a que esse processo podia conduzir: à perda completa da relação entre um pai e um filho”. O testemunho do José permite compreender uma realidade que surge frequentemente na prática clínica. Muitas pessoas conseguem reconhecer o impacto devastador da alienação parental quando observam o afastamento completo entre um pai e um filho. No entanto, raramente identificam os pequenos comportamentos, aparentemente insignificantes, que vão construindo esse afastamento ao longo do tempo. Como o próprio José refere, conhecia “a consequência de uma alienação”, mas não sabia reconhecer os sinais que a antecedem. E é precisamente essa dificuldade que faz com que muitos pais e mães apenas compreendam o que viveram quando o processo já se encontra instalado e as suas consequências são muito mais difíceis de reparar.O conflito deixou de ser apenas conjugalO José recordou que, à medida que o casamento se aproximava do fim, os conflitos deixaram de estar centrados apenas na relação conjugal e passaram a incidir, cada vez mais, sobre o exercício da parentalidade. Na sua perspetiva, sempre que procurava assumir um papel ativo nos cuidados das filhas ou organizar momentos em que pudesse estar sozinho com elas, encontrava uma forte resistência. Foi assim que nos descreveu essa vivência: “Foi exatamente isso que senti. Senti que, naquela altura, tinha uma cônjuge que me impedia de estar com os meus filhos. Sempre que procurava afirmar o meu papel de pai e dizia, por exemplo: ‘Amanhã tu vais trabalhar, eu estou de folga, por isso as crianças ficam comigo. Vou levá-las ao parque, ou fazer qualquer programa com elas. Depois posso levá-las a almoçar contigo…’, a reação era de uma enorme agressividade. Havia agressividade verbal e, por vezes, também física, sempre que eu tentava fazer valer o meu direito de estar com os meus filhos”.Segundo o testemunho de José, o conflito deixara de se limitar às divergências naturais que podem existir entre um casal. Passara a centrar-se também na possibilidade de exercer livremente o seu papel de pai. O desejo de passar tempo sozinho com as filhas, de cuidar delas ou de decidir atividades simples do quotidiano era, na sua experiência, frequentemente motivo de tensão. Independentemente da forma como cada elemento do casal possa interpretar os acontecimentos vividos, este relato evidencia a perceção de que o exercício da parentalidade é progressivamente condicionado. Na sua perspetiva, esta dinâmica contribuiu para um crescente sentimento de impotência e desgaste emocional, preparando o contexto para a decisão que viria a tomar pouco tempo depois.
O episódio que mudou tudoNa entrevista, o José identificou um momento que, na sua perspetiva, marcou definitivamente o fim do casamento. Embora o desgaste emocional se tivesse vindo a acumular ao longo de vários meses, foi um episódio relacionado com a intenção de levar as filhas a visitar os avós paternos, no Algarve, que o fez perceber que tinha chegado ao seu limite. Até esse momento, procurara encontrar explicações para os conflitos, acreditando que ainda seria possível preservar a relação conjugal e a estabilidade familiar. Contudo, aquele episódio representou, para si, a confirmação de que a situação tinha ultrapassado todos os limites que considerava aceitáveis. Foi assim que recordou esse dia: “O episódio que fez despoletar em mim a decisão de pensar: ‘Chega, isto acabou’, aconteceu quando lhe disse que queria ir visitar os meus pais, no Algarve. Disse-lhe: ‘Tudo bem, mas levo as crianças comigo.’ Ela respondeu: ‘Não, a mais nova ainda mama, por isso não a vais levar.’ Em relação à Matilde, que era a mais velha, também me disse: ‘Não a leves.’ Mas eu respondi: ‘Levo, sim. A mais velha vai comigo ao Algarve visitar os meus pais. Vamos na sexta-feira e regressamos no domingo. Tu só não vais se não quiseres, mas ela vai comigo.’ Foi nesse momento que fui agredido fisicamente. Foi uma situação verdadeiramente lamentável. E foi aí que percebi que aquilo já não podia ser considerado normal, que todos os limites tinham sido ultrapassados. Lembro-me de ficar completamente inerte. Não reagi. Tive autocontrolo e discernimento, fruto da educação e da formação que tenho. Naquele momento pensei que não podia fazer nada. Fala-se muito, e justamente, da violência doméstica exercida pelos homens sobre as mulheres, mas a verdade é que também existem situações em que a agressão ocorre no sentido contrário. Nesse instante percebi que tinha chegado ao fim. Pensei: ‘Isto terminou. Isto não é vida.’ Eu já vivia profundamente insatisfeito há muitos meses, mas aquele episódio foi, sem dúvida, a gota de água”. Este episódio representa, no testemunho do José, muito mais do que um conflito ocorrido num determinado dia. É o momento em que, olhando retrospetivamente para a sua história, identifica a confirmação de um processo de desgaste que se vinha instalando de forma progressiva. Na sua perspetiva, a decisão de terminar o casamento não surgiu de forma impulsiva nem resultou de um acontecimento isolado. Foi antes a consequência de um conjunto de experiências que, acumuladas ao longo do tempo, o levaram a concluir que a relação deixara de proporcionar um ambiente de respeito, segurança e estabilidade para a vida familiar.O relato do José convida também a refletir sobre uma realidade que continua a ser pouco visível e insuficientemente discutida. A violência nas relações de intimidade pode assumir diferentes formas e afetar qualquer pessoa, independentemente do sexo. Embora a maioria das vítimas de violência doméstica sejam mulheres, existem também homens que experienciam situações de violência física, psicológica ou emocional e que enfrentam dificuldades em reconhecer aquilo que vivem, em pedir ajuda ou em partilhar a sua experiência, por receio de não serem compreendidos, acreditados ou valorizados. Independentemente da forma como cada interveniente possa interpretar os acontecimentos vividos no contexto da relação conjugal, o testemunho do José ilustra a forma como experienciou esse episódio e o significado que lhe atribui. Nas suas palavras, aquele foi o momento em que percebeu que permanecer naquela relação deixara de ser compatível com o seu bem-estar e com a forma como entendia exercer a sua parentalidade. Foi, como o próprio resume, “a gota de água”, o momento em que decidiu que já não podia continuar.
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