Écône: o cisma da elite que se esqueceu do rebanho
No dia 1 de julho, em Écône, a Fraternidade Sacerdotal São Pio X consumou aquilo que Roma tentou evitar até ao último instante: a consagração de quatro novos bispos sem mandato pontifício, abrindo um Cisma com a Igreja Católica.
A excomunhão automática, ditada pelo direito canónico não é surpresa para ninguém, sendo apenas a materialização de uma rutura anunciada com meses de antecedência, carta após carta, apelo após apelo. Apesar de tudo é de lamentar.Creio que a disputa não é sobre a missa tridentina e o tradicionalismo questionável, cuja licitude, no entanto, ninguém contesta, mas sobre autoridade e necessidade de poder. Pode praticar-se o rito antigo, defender-se o latim e o véu, sem com isso negar a Roma, o Papa e o poder de dizer quem pode ser bispo.A Fraternidade Sacerdotal São Pio X escolheu negar precisamente isso: ao assumir a vontade de poder mundano, acabou por negar a própria fonte da fé e da graça que diz defender cegamente. Além de ser um ato contraditório, revela a verdadeira natureza do extremismo e fundamentalismo, que assola todos os campos da sociedade, sem exceção. No caso concreto religioso, quando o centro de preocupação deixa de ser o povo de Deus, o rebanho disperso, muitas vezes confuso, que a Igreja existe para servir, e passa a ser a preservação, em exclusivo, de uma alegada pureza e superioridade doutrinal que só a si própria se dirige e serve, talvez essa estrutura, por mais bispos que consagre, já não faça falta à Igreja. Faz falta, isso sim, a uma elite que se quer alimentar e promover a si mesma, fechada sobre a sua própria certeza, indiferente a saber se ainda serve alguém além de quem já está convencido.
Impressionou-me, entretanto, a assimetria de tom, que quase nos cria inconscientemente uma distinção entre bons e maus. Leão XIV escreveu, na véspera, uma carta de uma ternura quase desarmante, falando de “rasgar a túnica inconsútil de Cristo” e suplicando, do fundo do coração, que a Fraternidade recuasse. Não é o tom de um Vaticano vingativo, mas o tom de quem sabe que vai perder uma parte do rebanho e ainda assim insiste em falar-lhe como filho. É um apelo à tolerância, à comunhão e à unidade, porque a Igreja Católica, na sua pretensão mais pura e profunda, não é uma coleção de doutrinas de pensamento em competição. É um corpo vivo, com uma cabeça visível. Defender a Igreja Católica, hoje, não é defender uma instituição perfeita, mas é defender a ideia, difícil e exigente, de que a comunhão, a inclusão e a tolerância valem mais do que ter razão.Vale mais porque é essa comunhão, mais que a certeza “infalível” doutrinal de cada grupo isolado, que impede a fé de se tornar propriedade privada de quem se considera mais fiel do que os outros. Uma Igreja que tolera dentro de si o rito antigo e o rito reformado, o fiel que reza em latim e o que reza noutro idioma, o teólogo conservador e o progressista, tornam a fé em si mais forte, ao contrário de qualquer pretensão doutrinalmente impecável, mas isolada do resto do corpo.A força da Igreja nunca esteve na uniformidade, mas na unidade, ou seja, na capacidade de manter unidos os que discordam entre si.É por isso que a lição de Écône não devia servir somente para envergonhar a Fraternidade em causa. Devia servir de aviso a todos os que, dentro da própria Igreja, progressistas ou conservadores, sinodais ou tradicionalistas, confundem convicção com superioridade, e passam a tratar quem discorda como adversário, em vez de como irmão.
Fica, ainda assim, o mérito de Leão XIV numa tentativa de que a comunhão não seja um ideal bonito nos discursos papais e se torne, de facto, a coluna vertebral de uma Igreja que ainda quer ser católica e sobretudo universal.Tenhamos hoje presente que quem coloca a sua própria certeza acima de tudo e decide unilateralmente que a obediência é negociável quando lhe convém, afasta-se da própria essência daquilo que diz defender. Pode invocar a tradição, pode invocar a necessidade, pode até ter razão em pontos concretos da sua crítica à Igreja Católica em si, mas ao romper a comunhão, deixa de ser, em sentido pleno, Igreja.A tradição sem comunhão não é fidelidade: é cisma puro e duro. E não é possível defender a Igreja contra a Igreja.
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