Não, este jogo não foi por Diogo – foi com o Diogo
▲Golo da reviravolta de Gonçalo Ramos nos descontos decidiu vitória frente à Croácia mas Portugal ainda iria sofrer aos 90+13'... por uma decisão do VAR (que anulou mesmo o possível 2-2)
FIFA via Getty Images
Ia sempre ser um jogo especial. Não era preciso esperar pelo minuto 21 para se saber que, nesse instante, e por 60 segundos, os balões brancos que estariam entre os adeptos portugueses presentes no BMO Field, em Toronto, iriam recordar 365 dias que ainda hoje é complicado de acreditar que pudessem ter acontecido. Há um ano, Diogo Jota e o irmão, André Silva, perdiam a vida num acidente de viação em Espanha que correu mundo mas marcou particularmente o balneário da Seleção. Em condições normais, até pelas características que tinha, Jota deveria estar no ecrã do estádio como titular. Ao invés, e no final do hino, aparecia a imagem para recordar alguém que foi muito maior do que conseguiu fazer em campo. Por Portugal, pelo Liverpool, pelo Wolverhampton, pelo FC Porto, pelo futebol em geral. A primeira “final” da Seleção no Mundial-2026, o Mundial que deveria ser de Jota depois da ausência no Qatar, tinha um valor acima de qualquer jogo.
Dia 22 do Mundial-2026. João Neves volta ao meio-campo e Rafael Leão entra para o ataque, com Rúben Neves e João Félix no bancoAntes, e um pouco à semelhança do que tem sido não só a competição mas também a passagem pela Seleção, quando muitos olhavam para um copo meio vazio, Roberto Martínez apontava para um copo meio cheio na antecâmara da partida. Vitinha, que dentro da fiabilidade à prova de bala no passe tem estado mais discreto do que é habitual, assumia a questão de frente: “Recebemos as críticas de braços abertos, nós não queremos palmadinhas nas costas”. Já o técnico continuava, de forma coerente ao que tem sido o discurso ainda antes do Mundial, a apontar para um “segundo Mundial” que começava diante da Croácia. Com uma nuance: se os empates com RD Congo e Colômbia colocaram Portugal no segundo lugar do grupo K, agora não havia margem de erro com um caminho mais complicado na teoria. Essa era a bagagem do “primeiro Mundial”.
“Vamos começar um Mundial, o segundo Mundial. Foi importante uma boa preparação, que foram os três jogos da fase de grupos. Há aspetos a melhorar, fizemos algumas coisas mal, outras bem… O importante é que agora já temos 21 jogadores de campo que já jogaram e que estão prontos, inclusive o Gonçalo Guedes e o Gonçalo Inácio. Sobre o Bernardo [Silva] não podíamos arriscar porque já tinha visto um amarelo e podia falhar o jogo de amanhã [quinta-feira]. Os minutos não são importantes, o importante é que agora começa o segundo Mundial e todos estão preparados para dar o seu contributo, a titular ou do banco”, comentara o técnico espanhol, voltando a passar ao lado daquilo que era uma desconfiança em torno da equipa nacional.“Isso é uma opinião subjetiva… Acho que os adeptos estão com a nossa Seleção e o que posso prometer aos portugueses é uma grande atitude. O balneário tem autocrítica e é isso que está a fazer no Mundial. O que falta? Ter autocrítica é essencial e os jogadores não procuram desculpas. Nas seleções precisas de soluções e atitude para evoluir. Precisamos de começar o segundo Mundial e o balneário está unido. Agora temos de ganhar. Há muitos jogadores com muitas características diferentes e todos estão preparados. Penso que somos humildes para não nos considerar favoritos, porque favoritos são os que já venceram o Mundial e têm esse fator psicológico”, voltou a apontar Roberto Martínez, numa ideia que também já tinha partilhado antes e que acaba por ser diferente de outras da Federação, a começar pelo presidente, Pedro Proença.“Estar numa Seleção é isso. É uma questão de números, há 26 jogadores e cinco substituições. O importante é ter atitude para vestir esta camisola. Todos querem jogar e isso é a mentalidade do atleta. É a mentalidade ganhadora mas posso dizer que o balneário está satisfeito e todos estão preparados. Já usámos 21 jogadores e não há muitas seleções que o tenham feito. Boa ou má prestação? Nós terminámos o primeiro Mundial e só quando terminar o segundo Mundial posso avaliar. Até agora posso avaliar a atitude da equipa, que foi espetacular. Como disse um escritor espanhol ‘O caminho faz-se caminhando…’. Amanhã [quinta-feira] começa um novo caminho”, salientara, na antecâmara de um jogo que, além do peso nostálgico por Diogo Jota, ganhou uma outra dimensão com as palavras da irmã de Cristiano Ronaldo antes da partida.
EL ABRAZO ENTRE LAS LEYENDAS
Luka Modric y Cristiano Ronaldo se saludaron antes del partido de Portugal ante Croacia, en el que uno quedará eliminado del #MundialEnDSPORTS.#FIFAWorldCup pic.twitter.com/RbHlAsnKWz
— DSPORTS (@DSports) July 3, 2026
Cristiano Ronaldo will be the first player to play in a FIFA World Cup knockout match after his 41st birthday.
Croatia’s starting XI has an average age of 30y, 100d, the oldest for a non-group match at the World Cup since Croatia themselves in 1998 (3rd-place match – 30y 126d). pic.twitter.com/uMXhnaTZLD
— Opta Analyst (@OptaAnalyst) July 2, 2026“É a última dança de dois jogadores, tanto para os nossos adversários [Croácia] como para Portugal. O mais importante é a gente desfrutar destes vinte e tal anos que a gente viveu, que a gente venceu tantas vezes, que a gente chegou tão longe. Cristiano? Está ótimo, acho que está menos nervoso do que nós. Europeu de 2028? Pela informação que tenho, podem-se despedir. Acredito que não é ainda hoje que se vão despedir, mas está para breve. Acredito muito que esta é a despedida, por isso, aproveitem porque vai ser difícil encontrar alguém como ele. A informação que tenho, de fonte segura, acredito que é a Last Dance”, confidenciou aos jornalistas Kátia Aveiro, irmã do capitão, à porta do hotel. Para já, o único final foi mesmo o de Luka Modric, capitão de uma Croácia que protagonizou um jogo de loucos em Toronto onde Portugal acabou por ser feliz pela forma como chegou à vitória. Ronaldo marcou, Diogo Costa foi a chave, Gonçalo Ramos vestiu a capa de herói. No final, aquilo que fica é que não foi um jogo por Diogo Jota mas sim com Diogo Jota.
Aos 41 anos, Cristiano Ronaldo tornou-se no jogador mais velho de sempre a disputar um jogo da fase a eliminar de um Campeonato do Mundo. ????⚽ pic.twitter.com/Hevs98KcYQ
— Playmaker (@playmaker_PT) July 2, 2026Os minutos iniciais mostraram parte da versão siamesa entre Portugal e Croácia, percebendo-se que eram duas equipas que queriam jogar em posse e com tração à frente mas que diferiam depois noutros aspetos como a forma de chegar à baliza contrária ou os locais onde começavam as primeiras zonas de pressão. O primeiro remate, fraco, até pertenceu a Budimir, numa jogada onde os balcânicos exploraram as costas de João Cancelo para mudarem depois o centro do jogo para o corredor central (3′). Na resposta, a Seleção foi perguntar a Rafael Leão se estava no jogo e o avançado do AC Milan gritou presente: grande arrancada pela esquerda a deixar Stanisic para trás, cruzamento atrasado para o remate na passada de Bruno Fernandes e grande intervenção de Livakovic, que viu ainda a recarga do médio do Manchester United bater num defesa contrário (4′). Houve depois mais um remate de João Cancelo por cima numa segunda bola à entrada da área (7′) e um cruzamento de Pedro Neto que por pouco não encontrou Ronaldo (10′). Portugal estava melhor.
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— sport tv (@sporttvportugal) July 2, 2026
Bruno Fernandes tão perto do golo ????
Acredita Portugal ????????#sporttvportugal #MUNDIALnaSPORTTV #MundialFIFA2026 #portugal pic.twitter.com/F0W4YeX6zb
— sport tv (@sporttvportugal) July 2, 2026No papel, e por muita qualidade que a Croácia pudesse ter (ou não estivesse um senhor quarentão chamado Luka Modric), Portugal tinha descoberto o caminho para ser feliz pelo que fazia em posse pelos dois corredores laterais e sem bola pelo meio. Faltava criar e desequilibrar mais no último terço, sendo que a bola parada deixou mais uma ameaça com um desvio de cabeça de Renato Veiga por cima após canto de Nuno Mendes. Chegava o tempo da paragem para hidratação, com Roberto Martínez a falar com Vitinha e Rúben Dias acompanhado de um pequeno quadro, o técnico Austin MacPhee a trocar ideias com Renato Veiga e vários jogadores em pequenas conversas com um semblante confiante de quem sente que as coisas estão a correr bem. Quando o desequilíbrio chegou, ainda faltava mais uma coisa. Aquela coisa. A coisa que nem Bruno Fernandes, nem Ronaldo conseguiram depois de um bom cruzamento de Cancelo da direita (30′), com Livakovic a ter também uma defesa mais complicada após um passe tenso de Bruno Fernandes na área (33′).
25m [ ???????? Portugal 0-0 Croácia ???????? ]
Boa entrada de Portugal, com 7 remates e 0.85 xG, já a justificar o golo mas com 3 flagrantes desperdiçadas#FIFAWorldCup #PORCRO pic.twitter.com/gpcvNYkgka
— GoalPoint (@_Goalpoint) July 2, 2026Kovacic ainda teve uma arrancada que podia trazer perigo mas, mesmo quando as zonas de pressão que iam bloqueando o meio não resultavam, as dobras, neste caso de Nuno Mendes, mantinham a nota elevada para Portugal nas transições defensivas e na capacidade de reagir à perda. A certa altura, a própria Croácia tinha as linhas mais baixas do que é normal, sempre juntas para tentarem tirar ao máximo Bruno Fernandes e Vitinha do jogo de construção, o que fazia com que Portugal fizesse um compasso de espera para perceber por onde conseguiria desequilibrar a densidade de camisolas azuis nos últimos 30 metros numa fase com menos incidências da partida mas onde se destacava a atitude competitiva de todos os jogadores, sobretudo dos alas, no compromisso de apoiar os laterais a defender. Rafael Leão, já nos descontos da primeira parte, ainda teve mais uma tentativa na área de primeira mas saiu muito por cima e sem perigo. Portugal voltava a sair com um nulo para o intervalo mas num jogo que nada tinha a ver com o da Colômbia.
35m [ ???????? Portugal 0-0 Croácia ???????? ]
Portugal já criou (e desperdiçou) 5⃣ ocasiões flagrantesNa fase de grupos criou apenas 9, em 3 jogos#FIFAWorldCup #PORCRO pic.twitter.com/b1AMJdrEDO
— GoalPoint (@_Goalpoint) July 2, 2026
INTERVALO ⏱️[ ???????? Portugal 0-0 Croácia ???????? ]
???? Afinal foram 4 ocasiões flagrantes perdidas por:Bruno Fernandes (2)Renato VeigaJoão Neves
Nota: a Opta atribuiu uma inicialmente a CR7 num raspão mas retirou após revisão (bem) pois não podia ser considerada uma tentativa de… pic.twitter.com/bXzCmh1IGg
— GoalPoint (@_Goalpoint) July 3, 2026
INTERVALO ⏱️[ ???????? Portugal 0-0 Croácia ???????? ]
???? Boa entrada de Portugal mas com muito desperdício no último toque (4 flagrantes perdidas)
???? Pausa para hidratação fez “play” no “sleep mode” português, que voltou ao ritmo de outros jogos
???? Ratings “tugas” em destaque:???? Nuno… pic.twitter.com/4kNlv9JeQf
— GoalPoint (@_Goalpoint) July 2, 2026Igor Matanovic foi aposta logo ao intervalo de Zlatko Dalic, trocando de referência ofensiva com Budimir, e os resultados não demoraram pelas características do novo avançado, que segurou bem de costas no apoio e iniciou uma jogada que terminou com uma grande defesa com pé de Diogo Costa a remate de Kovacic (48′). O jogo estava mais dividido na segunda parte, sem que Portugal aproveitasse depois uma maior exposição dos balcânicos para meter transições rápidas que pudessem criar desequilíbrios e com a Croácia a tomar conta dos momentos do jogo. A partir daí, a mínima distração, que foram muitas ao mesmo tempo, resultou em golo: jogadores portugueses ficaram a pedir um lançamento que era ao contrário, Rafael Leão não fez a subida com Stanisic deixando Nuno Mendes 2×1, João Cancelo teve uma má abordagem ao lance e Perisic, ao segundo poste, rematou rasteiro para o 1-0 sem que Diogo Costa conseguisse fazer nada (53′).
Perisic marca e a Croácia está na frente. #sporttvportugal #MUNDIALnaSPORTTV #MundialFIFA2026 #croacia pic.twitter.com/4Jm5Wp5ZpX
— sport tv (@sporttvportugal) July 3, 2026Portugal acusou o golo e quebrou naquilo que tão bem fizera: as transições defensivas. O jogo foi partindo por completo, com Matanovic a marcar mas a ver o lance anulado por fora de jogo no início da jogada (56′), Rafael Leão atirou com estrondo à trave numa jogada que merecia melhor sorte (57′), Diogo Costa voltou a ter uma defesa decisiva a remate de Sucic (58′), Ronaldo marcou num lance incrível entre a receção de bola e o desvio por cima de Livakovic (61′), Rafael Leão desviou ao lado num canto de Nuno Mendes (64′). Questão: o VAR também interveio nesse lance, vendo uma falta clara sobre Renato Veiga na área. Roberto Martínez já tinha feito quatro alterações em simultâneo, com as entradas de Nelson Semedo, Bernardo Silva, Francisco Conceição e Gonçalo Ramos para as saídas de João Cancelo, Vitinha, Bruno Fernandes e Pedro Neto, mas tinha uma oportunidade flagrante para chegar ao empate. Ronaldo não falhou de penálti (68′).
Cristiano Ronaldo a ver o golo anulado ????#sporttvportugal #MUNDIALnaSPORTTV #MundialFIFA2026 #portugal pic.twitter.com/cJkEZw0Aww
— sport tv (@sporttvportugal) July 3, 2026
????????Cristiano Ronaldo marcou o primeir golo numa fase a eliminar de um ????Mundial.
Demorou menos 154 minutos do que ????????Lionel Messi:637 minutos vs Croácia (2026)791 minutos vs Austrália (2022) pic.twitter.com/7skSo6fKCU
— Playmaker (@playmaker_PT) July 3, 2026Quando se pensava que Portugal iria para cima, foi-se através abaixo. Os croatas não vacilaram com o abalo emocional do empate e perceberam que era partindo o jogo que podiam retirar dividendos até pela vantagem que passara a ter no meio-campo. Até haver esse acerto, com a entrada de Rúben Neves, valeu Diogo Costa: Kovacic acertou no poste num remate que ainda foi desviado pelo guarda-redes do FC Porto (75′), Matanovic fez o que quis de Nuno Mendes antes de atirar para nova intervenção do número 1 nacional (76′), Sucic ainda marcou numa bola colocada na profundidade mas estava fora de jogo (79′). Só mesmo com a entrada de Rúben Neves para a primeira saída de Cristiano Ronaldo neste Mundial a equipa nacional voltou a equilibrar com e sem bola, tendo um desvio de cabeça com perigo de Renato Veiga após canto da direita de Nuno Mendes (86′), mesmo com mais um susto num remate de Pasalic a rasar o poste (89′). Estava a chegar o momento do jogo: Rafael Leão trabalhou bem na esquerda e cruzou para a área, Gonçalo Ramos saltou mais alto do que Pongracic e Gvardiol e conseguiu desviar sem hipóteses para a reviravolta (90+4′).
Parecia ser o capítulo final de um encontro de loucos que conheceria ainda mais drama nos instantes finais dos dez minutos de compensação: em mais um erro de concentração na forma como a Croácia conseguiu colocar a bola na área, os balcânicos ainda conseguiram empatar mas o lance acabou por ser anulado depois de um desvio ao de leve no início da jogada que acabou por invalidar tudo o resto (90+13′). Mesmo sem qualquer paragem devido às condições climatéricas como chegou a ser temido, o jogo arrastou-se durante mais 20 minutos quase como se tivesse prolongamento mas a vitória já não fugiu mesmo a Portugal, que vai agora defrontar a Espanha nos oitavos de final do Campeonato do Mundo na próxima segunda-feira.










