Tecnologia no Mundial garante a verdade desportiva
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Em tempo de Mundial de Futebol, à sexta-feira recebo o ex-árbitro Pedro Henriques para um Sem Falta especial, que faz uma espécie de resumo da semana dos principais casos. Pedro, muito bem-vindo, boa tarde.
Boa tarde.
Vamos então a uma análise destes últimos jogos e uma boa notícia, já com Portugal nos oitavos.
Exatamente, essa é a boa notícia. Vamos resumir como fazemos nesta parte dos casos, embora continuemos ainda com muitos jogos e com muitos casos, eu vou destacar, em termos de resumo, duas situações que resumem vários casos. Uma delas, voltamos à lei para este ano, porque sabemos que, por exemplo, a UEFA não vai seguir essa lei para este ano, já a tornou pública. Portanto, isto é única e exclusivamente aqui do Campeonato do Mundo e da organização feita pela FIFA.
Não vai acontecer na Europa, então, nas Ligas dos Campeões, Liga Europa e campeonatos também da Europa, certo ou não?
Certo. Portanto, tudo que é plano internacional de organização da UEFA não vai acontecer. Tudo o que é FIFA, para já, está no Campeonato do Mundo, depois vamos ver se eles voltam atrás ou se vão manter. Isto por quê? Porque nós tivemos quatro situações neste torneio com o Miguel Almirón, que foi expulso quando estava a tapar a boca em conversa com o Santi Gimenez, e o Nkunku, que também foi expulso quando estava a tapar a boca em conversa com o Santi Gimenez. Para dizer o quê? Para dizer que foram bem expulsos, porque aquilo que a lei diz, que não podes pôr tapar a boca quando estás a falar, primeiro é para falar com o adversário, não é quando falas com o teu próprio colega ou inclusivamente quando estás a falar com o árbitro. A regra é muito específica para adversário e em situação de conflito. O que isso significa? O jogador até pode estar amistoso e estar a ofendê-lo. Claro que sim, isso é o risco que se corre. Mas a situação é muito simples e os árbitros interpretam desta maneira: acabou de haver uma infração marcada, não marcada, jogador que empurra daqui, empurra de acolá. Entrou-se em situação de conflituidade. Automaticamente o empurro ou ajuntamento, qualquer jogador que nesse momento, ou após esse momento, tapa a boca, se dirige a conversar com o seu adversário, cartão vermelho. Tudo o resto está excluído e fora aqui deste contexto. E o que eu me estou a referir? Estou-me a referir a outras situações que ocorreram, como o Bellingham a falar com o Ayew e o próprio Cristiano Ronaldo a falar com o Mbemba. Por quê? Foram situações em que não houve qualquer conflito, são situações de início de jogo, situações às vezes do final do jogo, em que está tudo bem. Os jogadores estão-se a cumprimentar apenas, simplesmente, ou estão em situação que não tem nada a ver com o conflito.
É por uma questão de descrição e não de insulto, não é?
Exatamente. E portanto, nestas circunstâncias, não há cartão vermelho. Claro que os internautas, a malta que gosta agoirar a coisa e sobretudo lançar granelo, que é aquela malta que nunca fez nada na vida, que não teve sucesso em absolutamente nada, gostam depois de lançar este granelo dizendo que tudo o que os outros fazem está sempre malfeito, vêm para as redes sociais e não só dizer: “Por que o Bellingham e o Cristiano Ronaldo não foram expulsos quando nem em termos de gestos fizeram a mesma coisa?” Porque não é o gesto que está em questão, é o gesto num contexto em relação ao adversário, e aqui todos os quatro a falar com adversários, e pós uma situação de conflito, que gerou-se ali uma situação e automaticamente há o conflito. Em outras situações do jogo, não é para ser punido. E portanto, para fazer este esclarecimento de uma vez por todas. Finalmente, segunda situação, que tem a ver com o Messi, que devia ter sido realmente expulso, já falámos isto aqui no Argentina x Argelia por tal pisão por trás sobre o Mendy, e não foi, e o Balogun foi expulso no jogo dos Estados Unidos da América por uma solada. E solada é pouco para dizer aquele entorse que ele provocou, que fez com que o pé fosse lá do Marjanovic. O que acontece? Voltamos à velha questão, e aqui o que preocupa é que até são jogadores internacionais, estrangeiros, que estão nas televisões, e não estou a falar cá em Portugal. Os estrangeiros dizem assim: “Se o Messi não foi expulso, este também não pode ser expulso”. Não, isso não é assim que funciona. Se tu és multado porque passaste um sinal vermelho, está certo. Não podes argumentar perante a polícia que não podes ser multado por passar sinal vermelho, porque entretanto três colegas teus passaram há um bocadinho o sinal vermelho e não foram multados. Isso não é justificação.
Até o Pochettino criticou esse cartão vermelho, pelos vistos sem razão.
Não, sem razão é uma falta grosseira. E vamos outra vez mais. E depois quando ouço pessoas que não sequer lêem as leis e dizem que não há intenção. Meus amigos, de uma vez por todas, a tradução do livro de inglês, que é para não estar a dizer que a tradução foi mal feita para português, vão ao original do inglês, a palavra intenção saiu das leis de jogo. O que conta é o movimento, o gesto deliberado. A intenção não está aqui para nada. Há um jogador que no ato da corrida entra de sola, pitons, pisa, calca, neste caso o tornozelo, faz um entorse, corre risco de segurança integrada física, põe em risco a segurança integrada física do adversário, falta grosseira, que é em disputa de bola, se for sem bola o contato é violento, cartão vermelho. E portanto, não venham dizer que o Balogun não devia ter sido expulso porque o Messi não foi expulso. Digam é que o Balogun foi bem expulso e o Messi, infelizmente, em termos de lei, obviamente, não foi expulso. E eram estas as duas situações que eu queria aqui referenciar.
Muito bem, ficou explícito. Vamos à tradução de uma das leis deste mundial, Pedro.
Tem a ver com o fora de jogo, porque ontem naquele lance final, que todos nós já percebemos, em que entrou em jogo o sensor, não é só a questão da tecnologia que está associada a esta nova bola. Andamos não sei quantos anos a pedir que o olho humano fosse substituído, porque erra muito, por tecnologia e agora que temos uma tecnologia que é completamente infalível, que não há parte manual, andamos a criticar a tecnologia. E também pelo próprio fora de jogo. É só para recordar que, primeiro, o Pašalić é quem está em fora de jogo no momento em que o Matanović toca a bola de cabeça, e já vamos falar rapidamente sobre esse ter tocado ou não ter tocado, e como o Matanović faz o desvio de cabeça, e vamos assumir que fez mesmo o desvio, porque a tecnologia mostra isso. A bola, entretanto, bate no Renato Veiga, no central português, que se baixa e leva com a bola na zona da nuca. Eu queria relembrar às pessoas que aquela situação em que a bola é tocada ou jogada e vem de um adversário para alguém que está em fora de jogo e isso valida a sua posição, é quando esse adversário, e aqui o adversário é o Renato Veiga, joga a bola deliberadamente. E as pessoas não sabem, mas eu explico uma vez mais, que depois de França ter ganho a Liga das Nações, com um gol em fora de jogo do Mbappé, mas que na altura o espanhol quando corta a bola, toca a bola nas orelhas, com a gente dizendo a bola e a bola vai para o Mbappé que faz gol. Na altura, aquilo ainda era considerado jogar a bola deliberadamente. E foi a partir daí, por causa desse lance, que foi alterada esta lei e diz claramente: para que o jogador toque deliberadamente a bola e com isso acabe por validar a posição do jogador que estava em fora de jogo, porque a bola vem do adversário, é preciso que ele esteja de pé, sozinho, sem disputa de bola com ninguém, veja a bola partir com todas as condições para jogar a bola.
Não pode ser um ressalto, que é o que acontece ali.
Exatamente. Tudo o resto é considerado ressalto. Quando vai em carrinho, quando vai em take, e sobretudo este, que ele se baixou e levou com a bola, este então é ainda mais fácil. Bateu de ressalto e por ser de ressalto, mantém a posição. E finalmente dizer que realmente a olho nu parece que o Matanović não toca na bola, mas trata-se de uma coisa chamada IMU, que é uma unidade de medição inercial, já sabemos que os ingleses metem ao contrário a sigla, portanto traduzido para inglês, posicionada e estabilizada mesmo no centro geométrico do interior da bola, deteta instantaneamente a velocidade, a trajetória da bola e sobretudo aquilo que aconteceu, que é o exato momento em que a bola sofre um toque. E percebe-se quem é que sofre o toque. Já estão a dizer que aquele toque foi do português. Não, é daquele jogador, consegue-se ver. Além disso, relembrar que está a ser usada uma tecnologia avançada fora de jogo, o semiautomático 半 自 动 , que é impulsionada por inteligência artificial, avatars 3D dos jogadores, bola inteligente com os tais sensores. Os estádios são equipados com 16 câmaras de alta velocidade instaladas na cobertura. As câmaras seguem a bola, monitorizam 29 pontos do corpo de cada jogador e dão imagens de 50 a 500 vezes por segundo, o que não há qualquer erro humano. Portanto, aqui não há erro humano, é a tecnologia pura e dura e o fora de jogo. Primeiro, porque estava fora de jogo, segundo, porque o Matanović tocou mesmo na bola. A tecnologia é muito cara, com aquele desenho que aparece no computador em forma de eletrocardiograma, uma linha lisa e depois quando toca, o pique. Portanto, não há volta a dar. Todas as linhas que a malta está a desenhar em cima do telemóvel, na internet, vocês é que estão errados. Vão para a escola, aprendam geometria descritiva e depois talvez até consigam desenhar melhor com o algoritmo. É só isso que eu tenho para dizer.
Vamos à nota da semana, Pedro.
A minha nota da semana, primeiro porque neste momento que estamos a falar, faz precisamente um ano que o Diogo Jota e o André faleceram num trágico acidente e percebeu-se isso tudo. Ontem teve muito Diogo Jota no jogo que nós ontem tivemos, todas as homenagens que foram feitas, inclusive pela própria seleção.
Minuto 21 também.
Exatamente. Neste caso, não vou dar nota 20, vou dar nota 21, também simbolicamente, nesta perspectiva de realmente homenagem a alguém que vivia e sentia muito a seleção. E ontem, inclusive, jogaram com o equipamento com que o Diogo Jota fez o último jogo pela seleção, em termos de cores, obviamente, e que até marcou um gol. E também uma nota 20 para aquilo que para mim é muito importante neste momento, porque o futebol, claro que tem que ter a parte humana, nunca vai sair a parte humana, mas no que diz respeito à tomada de decisão do árbitro, a gente quer a verdade desportiva. E quanto maior e melhor forem as tecnologias para auxiliar na tomada de decisão, melhor. E, portanto, nota 20 para aquilo que é o VAR, que ontem esteve espetacular em três momentos que mudavam completamente o jogo, o pênalti assinalado a favor de Portugal, o penúltimo gol anulado à Croácia e este último gol.
Há o gol do Ronaldo também, que é quase milimétrico, mas a tecnologia também ajuda facilmente.
Mas os dois primeiros gols anulados à Croácia e ao Cristiano Ronaldo, ao minuto 56 e ao minuto 60, foram os assistentes que deram o fora de jogo. O VAR limitou-se a validar. Agora, aquilo que é de realce é que no minuto 65 o pênalti foi dado pelo VAR, ao minuto 80 o fora de jogo do Petar Čelik no momento em que é passada, é o VAR que dá, porque o árbitro validou, e ao minuto 90 mais 12, é uma vez mais o VAR que dá. E, portanto, parabéns e nota 20 ao VAR. Não é por ter sido Portugal a ganhar. Fosse ao contrário, é a mesma coisa. Nota 20 ao VAR, às tecnologias e a este sensor IMU, unidade de medição inercial, que realmente é um upgrade que se fosse noutra competição nós não tínhamos e estava-nos aqui a falar de outro resultado, com certeza.
Pedro Henriques, o audioárbitro, especialista em arbitragem da Rádio Observador, com esta edição extra dedicada ao Mundial de Futebol, sempre à sexta-feira aqui no “Sem Falta” da Rádio Observador. E vamos continuar a contar com ele também no acompanhamento que fazemos desta competição. Um abraço, Pedro.
Um abraço, obrigado.










