Relações com aqueles que não conhecemos
Como explicar, em pleno Mundial de futebol, as emoções intensas em torno de jogadores como se estivéssemos a defender o nosso melhor amigo ou a atacar o nosso maior inimigo? Como explicar a paixão irracional pelo ator/atriz que vimos na tela na nossa adolescência? Como justificar a conexão que sentimos com a personagem de um livro? Como definir aquele sentimento de intimidade que sentimos com aquela figura que vemos todos os dias na televisão, como explicar o porquê de até desejarmos poder ser amigos e ir beber um café?
Podia ser simples habituação, exposição prolongada ao estímulo, mas a explicação não fica só por aí. A verdade é que tanta emoção só pode existir quando há relação. E, apesar de não serem nossos amigos, conhecidos nem vizinhos, a intensidade com que sentimos todos os pormenores não mente: nós estamos em relações com pessoas que não conhecemos (e muitas vezes nunca vamos conhecer). Apenas não são relações “normais”, são as chamadas “relações parassociais”.Parassocial foi a “palavra do ano 2025” escolhida pelo Dicionário de Cambridge, mas talvez tenha passado despercebida. O conceito de “relação parassocial” foi criado em 1956 pelos sociólogos Donald Horton e Richard Wohl para designar as relações unilaterais que estabelecemos com figuras públicas e personagens inacessíveis. Efectivamente, sempre houve relações parassociais, na medida em que o ser humano sempre foi capaz de sentir admiração, inveja e uma grande panóplia de sentimos por pessoas com as quais na realidade não tem qualquer convivência. No entanto, a constância de conteúdo nas redes sociais cria uma maior ilusão de proximidade com as figuras públicas, que parece que se multiplicam de fora dos ecrãs para dentro das nossas casas.O motivo pelo qual atribuímos significado a estas relações reside no facto de sermos criaturas sociais. Somos capazes de ver relações sociais em todo o lado, quer sejam reais ou não, como salienta Simone Schnall, Professora de Psicologia Social na Universidade de Cambridge. A partir dos olhares, dos comportamentos, das palavras e dos gestos da pessoa do outro lado da tela, criamos uma imagem fictícia e interpretamos à nossa maneira as pequenas pistas que recebemos.
As relações, no geral, já estão sujeitas a erros de percepção, mas nas relações parassociais, a probabilidade de erro sobe. Nunca temos o contraponto, nunca temos a possibilidade de interagir com o outro para que ele possa desmentir a ideia que criámos a partir dele. É por isso que tantas vezes são relações facilmente idealizadas, seja pela positiva ou pela negativa. No limite, no contexto destas relações, as figuras públicas deixam de ser pessoas individuais para passarem a ser uma projecção feita a partir da informação que nós conseguimos recolher e que escolhemos interpretar.Talvez seja por isso que é mais fácil endeusar ou desendeusar pessoas que não conhecemos. O amor e o ódio são sempre incompletos, não sobrevivem a toda a informação. Já dizia Ivan Karamázov, em conversa com o irmão Aliocha, “só os longínquos se amam. (…) Mal essa pessoa mostra a cara, o amor está perdido”.Se podemos retirar daqui algum ensinamento? Talvez a consciência de que a maioria das opiniões que temos sobre pessoas que não conhecemos são concebidas com base em interpretações da nossa própria realidade.
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