CIÊNCIA

O que o Campeonato do Mundo faz pela nossa saúde mental

Nervos em franja. Com um frio na barriga. Nervoso miudinho. Com os nervos à flor da pele. Em pulgas.
Portugal entra hoje em campo para defrontar a Espanha nos oitavos de final do Campeonato do Mundo de futebol e algumas expressões cientificamente pouco credíveis mas muito reais para quem as sente traduzem bem o que já se passa por esta hora. E, à medida que o momento do apito inicial se aproxima, as sensações aumentam.
Quando soarem os primeiros acordes do hino nacional reproduzido no estádio Estádio AT&T, em Arlington, no Texas, às 14h00 horas locais (20h00 de Lisboa), chegará oficialmente a pele de galinha. Sentida em casa, sozinhos (porque ver em grupo dá azar, acredita muita gente), na casa de amigos, num ecrã gigante numa fan zone, num café, presos no carro no meio do trânsito (a ouvir a Rádio Observador) ou em qualquer outro sítio.
Muitos dirão que estão ansiosos. Ou com ansiedade (são coisas diferentes). E, claro, se o resultado não for o que todos gostaríamos, surgirá inevitavelmente a palavra “deprimido” para traduzir a tristeza. Já para não falar da “relação bipolar” que reconhecemos que temos com a seleção nacional ou dos “jogos esquizofrénicos” que a equipa por vezes realiza.
Chegará o dia em que deixaremos de usar expressões destas para o que quer que seja que não tenha a ver com doença mental e diagnósticos confirmados. Até lá, incorremos nos erros de sempre que ajudam a perpetuar o estigma.
Dito isto, o futebol e a seleção nacional fazem-nos bem. Sabemos que o desporto é bom para a nossa saúde física e mental. Mas, para além da prática, o apoio também tem vantagens. Quando “consumidos” com racionalidade e bom senso, longe dos excessos, “os fenómenos que agregam e nos dão a sensação de pertença trazem bem estar e potenciam a saúde mental”, diz a psiquiatra Inês Homem de Melo, a quem perguntei se é comum haver uma relação direta entre eventos desportivos de massa e doença mental.
“O doente mental está habitualmente mais preocupado com os seus problemas e não tanto com o futebol ou outros eventos”, respondeu a especialista. “Mas se o futebol o fizer ter vontade de estar com amigos e celebrar, isso é bom. Um fenómeno cultural que leva a uma vivência comunitária ajuda a libertar ocitocina.”
A psiquiatra falava da hormona habitualmente associada ao bem estar, produzida no hipotálamo e segregada por uma glândula – pituitária – mais pequena do que uma unha do dedo mindinho. Quando duas pessoas se abraçam podem ter uma descarga de ocitocina. Quando se beijam podem ter uma descarga de ocitocina. Quando têm sexo (sobretudo se estiveram apaixonados) podem ter uma descarga de oxitocina. Quando uma mulher amamenta tem uma descarga de oxitocina.
E hoje, quando Cristiano Ronaldo, João Neves, Bruno Fernandes ou João Félix marcarem à Espanha (e talvez isto já seja a hormona em circulação aqui), é possível que dois estranhos que nunca se viram na vida se agarrem e desatem aos pulos… enquanto têm descargas de oxitocina.
Deixemos por agora de lado fenómenos psiquiátricos mais complexos, como aqueles que ativam os circuitos de recompensa do cérebro perante uma aposta desportiva. “Sempre que há um evento desportivo muito badalado, como é o caso do Campeonato do Mundo, a propensão para o jogo aumenta”, diz a psiquiatra, com experiência em acompanhamento de comportamentos aditivos e dependências no Centro de Respostas Integradas (CRI) do Porto Ocidental. “É como ter o prazer do jogo mas acrescentando-lhe sal e pimenta. Com tudo o que isso tem de negativo”
E deixemos de lado estes comportamentos porque o tema é demasiado sério e controverso para uma newsletter sobre os efeitos positivos do fenómeno do futebol (e da seleção nacional) na nossa saúde mental.
Num estudo recente (2022)  coordenado pela psicóloga Helen Keyes, professora na Anglia Ruskin University (Cambridge), no Reino Unido, os investigadores concluíram que assistir a eventos desportivos, presencialmente ou não, pode ter um impacto positivo no nosso bem-estar e no combate à solidão. E mesmo quando os nossos jogadores perdem (cenário que vamos afastar por agora), os adeptos ainda assim conseguem retirar efeitos positivos do ato social de se unirem em torno de um objetivo comum: o apoio à equipa. Um outro estudo (2020), da Universidade de Navarra, concluiu também que assistir a jogos na televisão influencia a sensação de prazer.
Os académicos parecem estar de acordo num ponto: as pessoas que estão verdadeiramente envolvidas no apoio coletivo a uma equipa ou um praticante de uma modalidade desportiva têm maiores níveis de autoestima e menor propensão à solidão e isolamento. A sensação de apoio em grupo perante uma adversidade (a derrota) pode ajudar estas pessoas a ultrapasar mais facilemente outras  adversidades.
Já tínhamos abordado a saúde mental e desporto no Mental, a secção do Observador totalmente dedicada à saúde mental. Mais precisamente o futebol. Neste vídeo com Ana Bispo Ramires, a psicóloga especialista em alta performance fala de um caso que a marcou particularmente: o do então jovem guarda-redes Rui Patrício (defensor da baliza nacional durante vários anos), que um dia a procurou para potenciar as suas próprias capacidades. O depoimento recolhido pela jornalista Sofia Teixeira e pelo realizador Nuno Neves não fala de situações concretas na seleção nacional ou no Sporting, mas antes de um desejo do atleta em conhecer-se melhor a si próprio e superar-se — e da forma como isso marcou a terapeuta.
Os vídeos da série “Do Outro Lado – Histórias de quem trata a Saúde Mental” fazem justamente isso: não se centram nos pacientes dos psicólogos ou psiquiatra, mas antes na forma como aquelas pessoas e aqueles casos foram determinantes para o profissional de saúde, tendo de alguma forma influenciado a profissão, as escolhas terapêuticas ou as abordagens a fazer. No último mês demos a conhecer “o caso da mulher que não queria ser salva”, com a psicóloga Inês Mega, e “o jovem que não sabia o que queria da vida”, com o psicólogo Pedro Aires Fernandes.
Falámos também de compulsão sexual – e da necessidade de olhar para o tema sem preconceitos – e, numa altura do ano em que muitas pessoas entram formalmente de férias, tentámos responder à pergunta que assalta tanta gente (e que deixa muitos outros perplexos): afinal, porque nos sentimos culpados por descansar? Uma dica: a estranha razão pode estar num “desajuste evolutivo” da espécie.
Destaque ainda para a mais recente entrevista da série “Labirinto, Conversas sobre Saúde Mental“: a diretora adjunta do Observador, Sara Antunes de Oliveira, conversou com Débora Monteiro sobre a depressão pós-parto por que a atriz passou depois do nascimento das filhas gémeas. Pode ler a entrevista aqui, ver aqui em vídeo ou ouvir aqui em podcast.
Deixo-lhe aqui um resumo dos trabalhos que publicámos no último mês no Mental, a secção do Observador totalmente dedicada à saúde mental:

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