CIÊNCIA

Um prego em Toronto, Eusébio e uma agradável descoberta

As letras das canções são como os números, podemos sempre torcê-las a nosso favor, ou, neste caso, para encaixar na narrativa. Em 1988, Leonard Cohen (canadiano) editou o seu oitavo álbum e chamou-lhe “I’m Your Man”. A declaração de amor em forma de canção deu o nome a um disco em que nos ofereceu outras verdadeiras joias como “First We Take Manhattan”, “Ain’t No Cure for Love”, “Everybody Knows” e “Take This Waltz”. Mas foi “I’m Your Man” que começou a rodar na minha cabeça quando ouvi o relato do Miguel Cordeiro sobre o primeiro dia em Toronto.
O enviado especial do Observador chegou às 15h de 29 de junho. São mais de 5 700 km de distância em relação a Lisboa. A capital financeira do Canadá é uma metrópole cheia de arranha-céus e avenidas largas, um cenário muito diferente das nossas cidades. É também a casa de muitos milhares de portugueses, de emigrantes que vêm na seleção nacional um pedaço da casa, do coração que aqui deixaram ao atravessar o Atlântico. E o Miguel nem teve tempo para se sentir sozinho nestes dias no Canadá depois da primeira paragem, na Casa do Benfica.
O Miguel Cordeiro estava em Toronto para acompanhar o Portugal 2 — Croácia 1, mas também para contar uma história incrível sobre Eusébio. O mítico jogador português, em 1976, liderou uma “seleção” croata até à glória na América. Sim, Eusébio jogou num clube croata no Canadá e até cantava o hino.
O plano para contar esta história, com 50 anos, passava pela Casa do Benfica, em Toronto. Uma vez lá, Miguel Cordeiro nunca mais falaria inglês nesse dia, teria direito a um prego num almoço tardio e a vários “eu levo-o lá”. Jorge Ribeiro, ex-presidente da filial encarnada em Toronto, não largou mais o jornalista da Rádio Observador. “Está com tempo, não está? Então, vou levá-lo e fazer uma visita à cidade.” Um roteiro pelas casas, lojas e empresas portuguesas na cidade. Uma viagem também pelos receios e anseios de uma importante comunidade portuguesa, que terminou com uma descoberta surpreendente.
“Então, mas eu estou a falar… Eu nem vi para onde é que estou a falar. Estou a falar para onde?”, perguntou Jorge Ribeiro. “Ah, Rádio Observador? Então, mas é a que ouço todos os dias. A minha mulher em casa só quer ver a CMTV, mas eu, assim que saio, só ouço a Rádio Observador e ouço o dia todo.” O acolhimento foi tão caloroso que o nosso jornalista acabaria como entrevistado pela FPTV, a televisão portuguesa no Canadá. Por tudo isto começou a rodar na minha cabeça o “I’m Your Man”. No fundo, o Miguel Cordeiro foi o portador de uma declaração de amor a Portugal. Foi o mensageiro de uma saudade que se entranha e cresce todos os dias e que só quem está longe entende na sua plenitude. Meu caro Jorge Ribeiro, nem imagina como nos deixa orgulhosos por saber que nos ouve e nos lê, mas, sobretudo, por nos fazer sentir que ajudamos a minimizar um pouco a tão portuguesa saudade. Obrigado, Jorge.
PS: Para não perder nenhum detalhe da prova e dos bastidores, sugiro ouvir o Miguel Cordeiro no podcast “Diário do Mundial” e ler os exclusivos, como a entrevista a Mauro Eustáquio, o irmão de Stephen Eustáquio. Stephen é filho de portugueses e marcou o golo que levou o Canadá aos oitavos de final da prova. Este sábado há Canadá vs Marrocos às 18h. E na segunda-feira, o Miguel Cordeiro estará em Dallas, Texas, para o Portugal vs Espanha. Uma eliminatória ibérica para seguir em pormenor no Observador e com relato na Rádio Observador. Sim, claro que já está a rodar na minha cabeça o genérico de uma certa série de televisão dos anos 80 — a saga da família Ewing.

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