Nuvens de fogo: o fenômeno que transforma incêndios em tempestades
Durante os grandes incêndios que atingiram a França, os bombeiros enfrentaram um problema difícil de controlar: nuvens gigantes formadas pelo próprio calor das chamas. Essas tempestades podem criar ventos intensos, espalhar brasas e até gerar novos focos de fogo.Continua após a publicidadeChamadas de nuvens pirocumulonimbos, essas formações já são conhecidas em regiões como Portugal, Califórnia e Austrália. Na França, porém, ainda são consideradas uma ocorrência relativamente recente.
Bombeiros enfrentam um desafio diferente: incêndios que criam suas próprias condições de vento e clima. – Imagem: Bruno M Photographie/ShutterstockComo uma nuvem de fogo se forma?Tudo começa com o calor liberado por um grande incêndio. À medida que o ar quente sobe, ele carrega vapor de água para a atmosfera, dando origem inicialmente a uma pequena nuvem branca, semelhante a um cúmulo comum.Com a intensificação do calor, essa estrutura cresce rapidamente e passa a concentrar milhares de toneladas de água suspensa. Quando as condições ficam favoráveis, surge uma nuvem cumulonimbo com formato semelhante ao de uma bigorna.Nesse estágio, a formação pode produzir correntes de ar extremamente fortes, com ventos ascendentes superiores a 150 quilômetros por hora. A chuva até aparece, mas muitas vezes evapora antes de chegar ao solo. Mesmo assim, ela consegue resfriar a atmosfera e provocar correntes descendentes capazes de alterar o comportamento do incêndio.Segundo o pesquisador francês Jean-Baptiste Filippi, especialista em incêndios florestais, esse tipo de situação exige novas formas de combate ao fogo.As nuvens pirocumulonimbos são mais comuns em áreas acostumadas com grandes queimadas, como Austrália, Califórnia e Portugal. Na França, um dos registros ocorreu em Landiras, ao sul de Bordeaux, em 2022.O problema é que esses eventos transformam o próprio incêndio em uma espécie de sistema climático local, com ventos e movimentos de ar capazes de acelerar a propagação das chamas.“Portanto, precisamos aprender a lidar com incêndios que criam seu próprio vento — isso é algo relativamente novo”, afirmou Filippi.Entre as principais características das nuvens de fogo estão:
Formação provocada pelo calor extremo de grandes incêndios;
Criação de ventos que podem mudar o avanço das chamas;
Possibilidade de gerar raios capazes de iniciar novos focos;
Transporte de brasas para áreas próximas ou distantes.
A aparência lembra uma tempestade comum, mas a origem é outra: o calor intenso de grandes queimadas. – Imagem: Rosangela Perry/ShutterstockPor que prever essas nuvens é tão difícil?Os meteorologistas conseguem identificar condições favoráveis para tempestades, mas existe um grande obstáculo: essas formações aparecem diretamente sobre os incêndios.Leia mais:Para saber exatamente onde uma nuvem de fogo surgirá, seria necessário prever com antecedência o ponto exato em que o incêndio estará ativo. Na prática, isso é impossível.Nos incêndios da região francesa de Gironde, os ventos mudaram diversas vezes de direção, passando por norte, oeste, sul e leste. Essa instabilidade contribuiu para um avanço mais rápido das chamas.Continua após a publicidadeAlém disso, a coluna de convecção criada pelo fogo levantou brasas e levou partículas para outras áreas, ampliando o alcance do incêndio.Para Filippi, o aquecimento global tem papel importante nesse cenário, já que ondas de calor mais frequentes favorecem condições extremas. A combinação entre solo seco, altas temperaturas e tempestades sobre áreas queimadas aumenta os desafios para controlar grandes incêndios.
Valdir Antonelli
Valdir Antonelli é jornalista com especialização em marketing digital e consumo.
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