1.569 Dias de Guerra na Ucrânia
São 1.569 dias de guerra. Este número é simbólico, porque significa que este conflito já dura há mais tempo que a 1ª Guerra Mundial. Ao longo deste tempo, assistimos a um dos acontecimentos geopolíticos mais importantes do século XXI. A invasão russa da Ucrânia alterou profundamente a arquitetura de segurança europeia, acelerou transformações militares que já estavam em curso e expôs fragilidades políticas que durante demasiado tempo foram ignoradas. No entanto, uma das maiores lições desta guerra talvez não tenha vindo dos campos de batalha, mas das análises produzidas sobre eles.
Nos primeiros dias da invasão, uma parte significativa dos comentadores, jornalistas e especialistas em relações internacionais apresentou um conjunto de previsões que tinham um denominador comum: a inevitabilidade da vitória russa. Kiev cairia em poucos dias. O governo ucraniano entraria em colapso. Volodymyr Zelensky fugiria do país. A resistência organizada desapareceria rapidamente. Para muitos, a única dúvida relevante era quanto tempo demoraria a concretizar-se um desfecho que consideravam inevitável. A Ucrânia era artificial e não existiria realmente enquanto nação. Essas análises assentavam numa visão excessivamente simplista da guerra. A Rússia possuía mais soldados, mais tanques, mais aviões, mais artilharia, mais recursos energéticos e uma população significativamente superior à da Ucrânia. A conclusão parecia lógica. Bastaria comparar números para antecipar o resultado. Contudo, a guerra nunca foi uma ciência exata. Nunca foi um exercício de matemática elementar em que se subtrai a capacidade militar de um país à do outro para se obter um vencedor previsível. Qualquer entusiasta amador de história percebe isto, fruto dos múltiplos exemplos nos milhares de anos de história de guerra.A guerra é uma das atividades humanas mais complexas que existem. Envolve liderança, moral, motivação nacional, logística, geografia, qualidade dos comandantes, capacidade industrial, inovação tecnológica, cultura estratégica, preparação dos combatentes e inúmeros outros fatores impossíveis de quantificar de forma rigorosa. Quem observou apenas os números falhou na compreensão daquilo que realmente determina o sucesso ou o fracasso de uma campanha militar.Mais surpreendente ainda foi verificar como muitos destes analistas ignoraram a própria História. A Rússia é, sem dúvida, uma potência militar formidável quando combate pela sua sobrevivência dentro das suas fronteiras. A derrota de Napoleão e a derrota da Alemanha nazi constituem exemplos claros da extraordinária capacidade russa para absorver perdas, mobilizar recursos e transformar a profundidade geográfica numa vantagem estratégica. Porém, a história militar russa está longe de ser uma sucessão contínua de vitórias inevitáveis. Quando procurou expandir o seu poder para além das suas fronteiras, a Rússia encontrou frequentemente obstáculos muito mais difíceis do que os seus líderes antecipavam. Sofreu uma derrota humilhante contra o Japão em 1905. Foi incapaz de derrotar decisivamente a Finlândia durante a Guerra de Inverno, apesar da esmagadora superioridade material. Afundou-se durante uma década no Afeganistão, enfrentando um adversário incomparavelmente mais fraco em termos convencionais. Em diferentes períodos históricos encontrou resistências ferozes por parte de povos muito menores, mas profundamente motivados para defender a sua independência. A ideia de uma máquina militar russa invencível sempre esteve mais próxima da propaganda do que da realidade.
Da mesma forma, muitos observadores ignoraram a história da própria Ucrânia. A identidade nacional ucraniana não surgiu em 1991 com o colapso da União Soviética. É o produto de séculos de resistência, sobrevivência e adaptação. Poucos povos europeus enfrentaram tantos desafios existenciais ao longo da sua história moderna. Invasões, ocupações estrangeiras, repressão política, guerras devastadoras, deportações em massa e a memória traumática do Holodomor, moldaram profundamente a consciência nacional ucraniana. A invasão de 2022 não encontrou uma sociedade artificial ou uma identidade nacional frágil. Encontrou um povo que conhecia demasiado bem os custos da submissão e que estava disposto a lutar para evitar regressar a um passado que rejeitava. Foi precisamente essa dimensão humana que escapou a muitos dos que se apressaram a decretar o fim da Ucrânia. Confundiram potencial militar com capacidade efetiva para vencer uma guerra. Confundiram dimensão com eficácia. Confundiram quantidade com qualidade. Acima de tudo, esqueceram que os conflitos são travados por seres humanos e não por tabelas estatísticas.Entre as muitas surpresas produzidas por esta guerra, uma das mais evidentes foi o surgimento de Volodymyr Zelensky como uma das figuras políticas mais relevantes da atualidade. Independentemente das preferências ideológicas de cada observador, é difícil negar que Zelensky deu uma lição de liderança a grande parte da classe política europeia. Quando muitos esperavam que abandonasse Kiev, permaneceu na capital. Quando lhe foram oferecidas soluções de evacuação, recusou. Quando a derrota parecia possível, assumiu pessoalmente a responsabilidade de mobilizar a população e manter a coesão nacional.A liderança em tempos de paz é relativamente simples. A verdadeira liderança revela-se quando os riscos são reais, quando as decisões têm consequências imediatas e quando o fracasso pode significar o desaparecimento de um país. Zelensky compreendeu rapidamente que a sua presença física em Kiev tinha um valor estratégico impossível de substituir. Mais importante ainda, compreendeu que a unidade nacional não surge espontaneamente. Tem de ser construída, cultivada e constantemente reforçada.A Ucrânia é um país diverso, com diferenças regionais, culturais, linguísticas e históricas significativas. No entanto, Zelensky conseguiu construir uma narrativa nacional suficientemente forte para unir milhões de pessoas em torno de um objetivo comum. Procurou demonstrar que havia algo mais importante do que essas diferenças. A defesa da soberania nacional, a defesa da liberdade política e o direito dos ucranianos escolherem o seu próprio destino.
Esse destino foi apresentado de forma consistente ao longo dos anos. Uma Ucrânia integrada no espaço político europeu. Uma democracia liberal. Um sistema institucional mais transparente. Uma ruptura gradual com as estruturas autoritárias e corruptivas herdadas do período soviético. Os sucessivos processos eleitorais, os níveis de mobilização social e o apoio demonstrado ao longo da guerra mostram que essa visão possui uma legitimidade significativa junto da sociedade ucraniana. A narrativa frequentemente repetida por Moscovo de que a Ucrânia seria uma criação artificial controlada por elites desligadas da população não resistiu ao teste da realidade.Esta guerra revelou também algo mais profundo acerca do sistema internacional contemporâneo. Demonstrou a importância das alianças e das redes de cooperação num mundo cada vez mais interdependente. Nesse contexto, uma das consequências mais significativas da era Donald Trump foi a erosão da confiança nas estruturas multilaterais lideradas pelos Estados Unidos da América (EUA). Durante décadas, o poder americano não resultou apenas da dimensão da sua economia ou da capacidade das suas forças armadas. Resultou da extraordinária rede de alianças construída após a 2ª Guerra Mundial. Foi essa arquitetura política, económica e militar que permitiu aos EUA alcançar uma posição de liderança sem paralelo na história contemporânea. Quando essa rede começou a ser colocada em causa, as consequências tornaram-se inevitáveis. Os aliados questionaram a previsibilidade de Washington. Os adversários passaram a acreditar que o Ocidente estava mais dividido do que realmente estava. Num mundo profundamente conectado, as alianças não são um detalhe secundário, são um multiplicador de poder. Nenhum país, por mais poderoso que seja, consegue enfrentar sozinho todos os desafios estratégicos que emergem simultaneamente na Europa, no Médio Oriente e na Ásia. A retórica de Trump, frequentemente marcada por impulsos populistas, desinformação e ausência de objetivos estratégicos coerentes, acabou por beneficiar vários dos principais adversários dos EUA. A China encontrou espaço adicional para expandir a sua influência internacional. E Vladimir Putin ganhou margem para acreditar que o Ocidente carecia da unidade necessária para responder a uma agressão em larga escala e aumentou a sua margem de sobrevivência. O regime dos Aiatolás no Irão sentiu-se menos pressionado e ganhou uma reforçada confiança. Ao mesmo tempo, a política americana deu uma liberdade crescente ao governo de Benjamin Netanyahu para prosseguir políticas expansionistas que continuam a gerar profundas controvérsias diplomáticas e até morais. Paradoxalmente, esta mesma incerteza estratégica produziu um efeito inesperado. Muitos dos aliados tradicionais dos Estados Unidos começaram finalmente a assumir responsabilidades que durante décadas haviam delegado em Washington. A Europa aumentou os investimentos em defesa. Novas iniciativas de cooperação militar ganharam força. A consciência estratégica europeia, durante muito tempo adormecida, começou lentamente a despertar, não por convicção ideológica, mas por necessidade.A guerra na Ucrânia revelou igualmente a aceleração do declínio estrutural da Rússia. Esta afirmação não deve ser confundida com a ideia simplista de um colapso iminente. A Rússia continua a ser uma potência relevante, possui vastos recursos naturais, mantém capacidades militares significativas e conserva uma capacidade de resistência considerável. Contudo, a tendência de longo prazo é difícil de ignorar. A economia russa continua excessivamente dependente das exportações de matérias-primas. Os problemas demográficos agravam-se de forma constante. A fuga de talento e capital humano intensificou-se. As limitações tecnológicas tornaram-se mais evidentes. As forças armadas sofreram perdas que levarão muitos anos a recuperar. Mas mais importante ainda, Moscovo tornou-se progressivamente mais dependente de parceiros externos. A relação com a China tornou-se cada vez mais assimétrica. Pequim beneficia de acesso privilegiado a recursos russos e de uma posição negocial cada vez mais favorável. Ao mesmo tempo, o recurso crescente à Coreia do Norte para obtenção de munições, equipamento militar e até apoio humano constitui um símbolo poderoso da transformação em curso. Um país que durante décadas procurou apresentar-se como herdeiro de uma superpotência global vê-se agora obrigado a recorrer a um Estado pária para sustentar parte do seu esforço de guerra.Ainda assim, seria um erro substituir um determinismo por outro. Se muitos analistas erraram em 2022 ao prever o colapso imediato da Ucrânia, outros poderão errar agora ao antecipar uma derrota inevitável da Rússia. A prudência continua a ser uma das qualidades mais importantes na análise geopolítica. A História raramente segue trajetórias lineares. Os conflitos prolongados produzem frequentemente resultados inesperados. A única certeza é que ninguém sabe exatamente como esta guerra terminará. O que sabemos é que a Ucrânia sobreviveu. Sabemos que a Rússia falhou nos seus objetivos estratégicos iniciais. Sabemos que a Europa mudou profundamente. Sabemos que a NATO saiu mais forte do que muitos previam. Sabemos que o sistema internacional entrou numa nova fase de competição entre grandes potências. E sabemos que as lições destes 1.569 dias continuarão a ser estudadas durante décadas.
Talvez a mais importante dessas lições seja dirigida aos líderes europeus. Durante demasiado tempo, a Europa acreditou que os problemas podiam ser adiados indefinidamente. Que a guerra convencional pertencia ao passado. Que a segurança era uma responsabilidade de terceiros. Que os desafios estratégicos podiam ser geridos através de declarações diplomáticas e reuniões de cimeira. A Ucrânia demonstrou o contrário. Demonstrou que a preparação importa, que a liderança importa, que a coragem política importa. Demonstrou que as ameaças não desaparecem simplesmente porque escolhemos ignorá-las. Demonstrou que os custos de agir tarde são sempre superiores aos custos de agir cedo.Hoje, o exército ucraniano é provavelmente uma das forças armadas mais experientes e preparadas da Europa. Não porque procurou essa condição, mas porque foi forçado a conquistá-la. A Europa faria bem em estudar cuidadosamente essa experiência. Não apenas do ponto de vista militar, mas também político e institucional.Os dias em que era possível adiar indefinidamente os problemas parecem ter terminado. Os desafios que se aproximam, da competição estratégica com a China à instabilidade no Médio Oriente, passando pela pressão migratória, pela transformação tecnológica e pela necessidade de reindustrialização, exigirão uma nova geração de líderes. Líderes capazes de tomar decisões difíceis e de construção de consensos. Principalmente, líderes capazes de explicar aos seus povos que existem momentos históricos em que a inação deixa de ser uma opção.
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