Em defesa do português
Há uma certa elite, provavelmente bem-intencionada, que só tarde se deu conta de que a história foi violenta, o colonialismo atravessou continentes e séculos e as palavras carregam um peso decisivo. A partir daí conclui, com uma condescendência pueril, que talvez seja boa ideia mudar o nome da língua portuguesa para “língua geral”, com o objetivo ridículo de tranquilizar as suas consciências e “ficar bem” nos salões da vanguarda.
É uma má ideia. Politicamente fraca, porque confunde justiça histórica com cosmética identitária. Culturalmente destrutiva, porque esvazia Portugal da sua própria língua em nome de um universalismo de plástico com alergia a realidades históricas complexas. Historicamente irresponsável, porque trata a história como embaraço e não como um legado a compreender e assumir.Ao bom estilo do wokismo militante, desfaz-se do nome, dilui-se a origem, renuncia-se à espessura cultural acumulada em séculos de uso da língua, tentando higienizar lexicalmente o “português, convertendo a má ideia do nome “língua geral” em “kumbaya” multicultural.A língua portuguesa é valor maior de Portugal. Brincar com o nome da língua, em nome de causas mal digeridas, é brincar com todos os falantes de português.
Esta proposta parte do equívoco de que os problemas históricos se resolvem por decoração vocabular. Apagar o “português” do nome da língua é amputar a origem histórica de sua comunidade linguística ancestral e dispensar Portugal da responsabilidade que tem sobre o património que a sua própria história criou.Não deixa de haver uma certa ironia no termo “língua geral”. Não estamos perante uma invenção neutra da história. “Língua geral” remete para o nheengatu, para línguas de contacto produzidas precisamente em contextos coloniais. Em nome da descolonização da língua, resgata-se um conceito marcado pelo selo colonial. É o caso típico da boa vontade ignorante.Acresce que esta pulsão de renomear a nossa língua revela um certo desprezo, mais ou menos inconsciente, pela inteligência dos falantes. Supõe-se que brasileiros, angolanos, moçambicanos ou cabo-verdianos só conseguirão sentir-se plenamente senhores da língua se esta deixar de se chamar “portuguesa”. Como se não conseguissem perceber que uma língua pode ter uma origem determinada e, ao mesmo tempo, ser apropriada e reinventada por muitos. É uma visão paternalista, que trata comunidades adultas como se fossem crianças traumatizadas à espera de uma palavra mágica que as cure.Pode haver quem ache que esta fantasia terminológica é um sinal de progresso. Na prática, é apenas o wokismo no seu pior, porque divide em nome de um cosmopolitismo indigente que faz por confundir conceitos.
Defender o nome “língua portuguesa” não é defender uma pretensa propriedade exclusiva sobre o idioma. Não há donos da língua. Mas há uma origem, uma responsabilidade e uma continuidade histórica que não se pode apagar. A melhor forma de honrar quem escreve, canta e pensa em português no Brasil, em África ou na diáspora não é rebatizar a língua, é cuidar dela, protegê-la como património comum, assegurando a sua vitalidade. Tratando-a com seriedade e não a entregar ao cadafalso da ligeireza ideológica de quem acredita que a história se resolve com um golpe de semântica.A “língua geral”, como proposta para rebatizar a Língua Portuguesa, merece uma recusa firme. Se queremos uma comunidade lusófona adulta, não é apagando a palavra “português” que a construiremos, é assumindo, sem medo, o peso da história e o valor da língua que a transporta.Pedir a Portugal que apague o nome da sua língua é exigir que um povo com praticamente 900 anos renuncie voluntariamente ao fio histórico que o liga, sem interrupção, da formação do galego-português medieval às independências atlânticas, das reformas liberais às literaturas africanas contemporâneas, ou seja, que transforme séculos de história concreta num vago exercício de penitência lexical.
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