O inédito triunfo em plena ditadura e a afirmação de Kempes
▲Os argentinos bateram os Países Baixos após prolongamento na final do Monumental
Mirrorpix via Getty Images
Depois de muita insistência, o Campeonato do Mundo lá acabou por rumar à Argentina. Depois de 1930 (Uruguai), 1950 (Brasil) e 1962 (Chile), a quarta tentativa acabou por ser certeira para o país das pampas, que lá conseguiu convencer a FIFA a organizar a maior competição do mundo. Ainda assim, nem tudo foi um mar de rosas para a Argentina, que vivia um período conturbado de ditadura, o que acabou por se refletir no torneio em termos diplomáticos e, quiçá, desportivos. Dois anos antes do início do Mundial, a Argentina fora tomada por uma junta militar liderada por Jorge Rafael Videla, que assumiu a governação do país através da repressão política, de uma forte censura e de desaparecimentos premeditados de figuras importantes na sociedade local. O Mundial acabou por ser a única salvação de Videla, que usou o futebol para projetar uma imagem de estabilidade e normalidade no exterior, procurando abafar as denúncias de violações dos direitos humanos.
⚽️ Goles del Mundial de Argentina 1978 pic.twitter.com/yMUNHLXuUT
— Alberto Cosín (@albertocosin_) June 4, 2026Os custos da competição ultrapassaram os 700 milhões de euros, revelando um grande investimento de um país que se queria afirmar em termos políticos e, claro está, desportivos. A Argentina chegava ao Mundial envolta em diversos episódios negativos, já que, depois de ter perdido a final de 1930, nunca mais conseguiu ultrapassar os quartos de final, para lá de ter estado quase 20 anos sem vencer a Copa América. Com a pressão a acercar-se, mais do que nunca, da albiceleste, a vitória em campo acabou por não se ficar pelo campo desportivo, tornando-se também a vitória de uma cultura e do estilo ambicioso de César Luis Menotti, que quis fugir ao jogo físico e pragmático do futebol da época. A caminhada ficou marcada por um dos jogos mais polémicos da história do Campeonato do Mundo, já que a Argentina precisava de golear o Peru, na segunda fase de grupos, para chegar à final. Em campo, o resultado acabou por ser favorável (6-0), mas, fora dele, há quem diga que os peruanos foram aliciados a favorecer a equipa da casa. Contudo, nunca apareceram provas conclusivas.
Na final, a equipa liderada por Mario Kempes, que tinha ainda nomes como Daniel Passarella, Ubaldo Fillol, Osvaldo Ardiles ou Leopoldo Luque, superou os Países Baixos no prolongamento e conseguiu fazer história, num momento que coroou ainda uma das melhores gerações do país, que fica marcada por ter dado início à relação de sucesso que se seguiu entre a Argentina e o Campeonato do Mundo. Curiosamente, Diego Maradona não foi convocado, numa altura em que, aos 17 anos, já era uma estrela do Argentinos Juniors, porque Menotti considerava que o avançado não estava preparado para lidar com a pressão de um torneio de tamanha importância. Este foi o último Mundial com 16 seleções e, curiosamente, não contou com Uruguai e Inglaterra, dois ex-vencedores. França ainda ameaçou boicotar a fase final em protesto contra a morte de freiras francesas, alegadamente a mando da ditadura argentina, mas manteve-se em competição.
Un país que ganó y perdió al mismo tiempo.#Argentina78 llega el 27 de noviembre a #DisneyPlus. pic.twitter.com/kgv0jkdfOy
— Disney+ Latinoamérica (@disneyplusla) November 13, 2024Os Países Baixos chegaram à Argentina a viver ainda o epílogo da revolução do futebol total que começara há quatro anos mas, apesar de continuarem com uma grande geração, ficaram privados da sua maior figura: Johan Cruyff, que terá sido associado a um eventual protesto contra a ditadura argentina, o que o impedia de permanecer no país em segurança. Ainda assim, em entrevistas posteriores, a estrela do futebol explicou que o principal motivo se devia a um sequestro de que a sua família foi vítima em Barcelona, que o fez alterar as suas prioridades. Mesmo sem Cruyff, os neerlandeses estiveram a centímetros do título no tempo regulamentar da final, com Rob Rensenbrink a acertar no poste nos instantes finais.
Foi considerado o craque e o melhor marcador do Mundial e teve consequências diretas no título da Argentina, tendo bisado contra a Polónia, contra o Peru e na final contra os Países Baixos. Ainda assim, a história de Mario Kempes contraria a de outras estrelas da competição, já que o argentino nunca tinha marcado em Campeonatos do Mundo antes de 1978. Curiosamente, uma das figuras mais fabulosas dos Mundiais foi protagonizada por Kempes na Argentina, com o jogador a correr de braços abertos depois de ter marcado no prolongamento da final.










