Como a ESA e a NASA querem encontrar vida extraterrestre
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Há mais de meio século que a Humanidade começou a depositar as suas fichas fora da Terra. Começámos na Lua, expandimos para Marte e, atualmente, já temos dispositivos a monitorizar as diferentes luas de cada um dos oito integrantes do Sistema Solar. A busca por indícios de vida extraterrestre dura há várias décadas, mas os resultados têm sido constantes. Apesar de não conseguirem afirmar com certeza que existe ou existiu vida na vizinhança da Terra, também não conseguem excluir a hipótese contrária.
“Somos uma espécie de detetives. Tentamos recolher pistas de Marte, de outros planetas e corpos celestes, mas a verdade é que avançamos às escuras”, descreve ao Observador Victoria da Poian, uma das responsáveis da NASA por algumas das missões desenhadas para procurar atividade biológica longe do nosso planeta. A questão que se coloca, quando é destacada para um programa deste tipo, é sempre a mesma: “Nem sequer percebemos bem o que se passa na Terra, como vamos fazê-lo noutros planetas?” E mesmo que não exista uma resposta definitiva a esta pergunta, o objetivo é “recolher o máximo de dados possível”, para depois “cruzar diferentes perspectivas”.Existe um objetivo bem claro em todas as missões deste tipo, independentemente da agência espacial que está a conduzir o esforço de busca por evidências biológicas noutros planetas. Nunca se materializou, havendo apenas suspeitas de locais com “potencial” para terem albergado alguma forma de vida, mas os especialistas da NASA ou da ESA, como é o caso de Victoria da Poian, têm de “manter a mente aberta” caso encontrem algum sinal que confirme as hipóteses — mesmo que seja algo que não exista em Terra. “Em astrobiologia, distinguimos entre a vida como a conhecemos e a vida como não a conhecemos”, explica.Mas mesmo que não conheçam as diferentes formas de vida extraterrestre que podem vir a ser descobertas, acreditam que “os blocos de construção da vida” sejam os mesmos em todo o Sistema Solar. “O ponto de partida é o mesmo, embora possa ter evoluído de forma diferente. É como um smoothie: quer usemos banana, morango ou kiwi, os ingredientes originais continuam lá, mesmo que sob outra forma”, acrescenta a especialista ouvida pelo Observador. Victoria da Poian admite que existe uma forte probabilidade de qualquer atividade biológica registada em Marte, por exemplo, que tenha como base os elementos CHNOPS (carbono, hidrogénio, azoto, oxigénio, fósforo e enxofre), tal como na Terra.
A especialista está a preparar os equipamentos e a tecnologia que estará presente no rover Rosalind Franklin no final de 2028. Este robô, que homenageia a química britânica que teve um papel essencial na descoberta das estruturas do ADN, será o primeiro do seu género a ser lançado para Marte, com o propósito único de descobrir formas de vida passada no planeta vermelho. O programa é da ESA, mas é no Goddard Space Center da NASA que está a ser desenvolvida uma das componentes mais importantes da missão. E a engenheira francesa é uma das responsáveis.A sigla é semelhante a um dos museus mais conhecidos de Nova Iorque, mas este MOMA é um “laboratório altamente sofisticado de química orgânica”. “Funciona como um detetive químico: recolhe uma amostra e gera um espetro de massa dos compostos ali presentes. Depois, os especialistas conseguem identificar se há hematite, por exemplo, que tipo de reações químicas estão a ocorrer e se aquele processo tem origem biológica ou geológica”, explica Victoria da Poian. Este será o dispositivo capaz de reconhecer, a dois metros de profundidade, se existe ou existiu atividade biológica em Marte. Mas o trabalho da especialista não está limitado pela cintura de asteróides.
NASA has given approval to begin implementing its project to support @ESA’s Rosalind Franklin mission. Scheduled to launch in 2028, this Mars rover will be the first to search for signs of past or present life under the Red Planet’s surface. pic.twitter.com/SXrLGrJoLz
— NASA Mars (@NASAMars) April 16, 2026O Rosalind Franklin está inserido no programa ExoMars da Agência Espacial Europeia, que começou há uma década com o lançamento do Trace Gas Orbiter, uma espécie de satélite na órbita de Marte, desenhado com o objetivo de melhor compreender as emissões gasosas da atmosfera marciana, mais particularmente o metano, de modo a perceber se existe algum tipo de atividade biológica naquele planeta. O papel da NASA, para além do desenvolvimento do MOMA, foi organizar a logística do lançamento. Tudo o resto é da ESA.
Na verdade, a NASA só participa nesta segunda fase do programa. Lançado em 2016, o Trace Gas Orbiter foi concebido numa parceria entre os europeus e a Roscosmos, a agência espacial russa — bem como o módulo que deveria ter chegado à superfície marciana de forma controlada, mas que perdeu comunicações com Terra um minuto após ter começado o processo de amartagem. Mas o rover é o grande destaque deste programa que deverá ser lançado nos próximos dois anos.Marte não é um planeta estranho à presença de robôs. A história do Curiosity é conhecida. Um dispositivo do tamanho de um carro que foi desenhado para recolher amostras do planeta vermelho durante menos de dois anos terrestres, que continua a rondar as crateras marcianas mais de 14 anos depois. Para além deste, ainda existe o Perseverance, também operado pela NASA, e com o mesmo objetivo de encontrar vestígios de microorganismos na superfície. A verdadeira inovação do Rosalind Franklin é o MOMA (Mars Organic Molecule Analyser, em inglês), que é tanto um upgrade do “laboratório” instalado em cada um dos dois rovers da NASA, como também vai permitir chegar a sítios onde a humanidade nunca teve a oportunidade de analisar.“A grande revolução é a inclusão de uma broca capaz de perfurar a superfície de Marte até dois metros de profundidade”, explica Victoria da Poian, uma das responsáveis pelo equipamento que está a ser montado no rover da ESA. Esta nova capacidade vai permitir algo inédito: aceder a amostras subterrâneas. “Como Marte não tem atmosfera, a superfície é fortemente fustigada pela radiação; a esta profundidade, o material estará protegido e muito melhor preservado, o que nos dará muito mais respostas”, acrescenta a especialista.










