O PSD está a expor o Chega como populista? — ouvintes
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“Fora do Baralho” no episódio dominical dedicado às perguntas dos ouvintes. É muito fácil enviar perguntas ou comentários, basta enviar um e-mail para foradobaralho@observador.pt e um membro do painel, à vez, vai respondendo aqui neste episódio extra de domingo. Hoje cabe ao Jorge Fernandes responder. Olá, Jorge, bem-vindo.
Olá, Ricardo.
Hoje respondemos à pergunta de Pedro Gouveia, que nos enviou um e-mail. É um pouco extenso, mas eu vou tentar resumir. A pergunta do Pedro Gouveia diz que tem ouvido vários comentadores políticos criticar o PSD por negociar sempre primeiro com o Chega, deixando o PS para segundo. No momento da decisão, diz o Pedro Gouveia, o Chega acaba muitas vezes por votar contra. Assim, ao negociar primeiro com o Chega, evitando que o partido fique à margem, o PSD não estará, no fundo, a expor o Chega, diz o Pedro Gouveia, a ser um partido populista, sem propostas estruturadas para o futuro do país, que um voto nesse partido não altera realmente a vida das pessoas, e ainda pergunta o Pedro: não será esta a estratégia mais eficaz do que negociar de imediato com o PS? No fundo, o Pedro Gouveia pergunta, Jorge, se o PSD não está aqui a seguir uma boa estratégia ao tentar negociar primeiro o Chega.
Antes de mais, quero agradecer ao nosso ouvinte, Pedro Gouveia, por não só nos ouvir, mas também dar-se ao trabalho de nos enviar perguntas. Eu discordo do nosso ouvinte. Discordo em duas dimensões. Em primeiro lugar, é que a posição interna, a posição ideológica, a falta de confiança política, a falta de estrutura do Chega e a falta da própria confiança na palavra dada de alguém, isto não tem nada que ver com o PSD, ou com o PS, ou com qualquer outro partido. Isto é uma característica interna do próprio Chega. Se nós pararmos um bocadinho e formos analisar aquilo que foram os programas ideológicos do Chega desde que surgiu em 2019, e atenção, mesmo com uma certa dose que podemos dar, apesar de tudo, de manobra por um partido, é perfeitamente natural quando está a aparecer, poderá ainda estar a definir a sua agenda ideológica, mas o Chega, não estamos a falar de pequenos ajustes dentro de uma agenda ideológica relativamente coerente. O Chega já foi tudo e o seu contrário. Portanto, com raríssimas exceções, o Chega já teve nos seus programas ideológicos, estamos a falar de programas ideológicos escritos pelo partido, não do que nós no exterior achamos sobre o partido, mas declarações oficiais do partido em documentos programáticos, o Chega já foi tudo e o seu contrário. Já foi hiperliberal, protecionista, socialista. Sob esse ponto de vista, a coerência do Chega ou a própria segurança política que o Chega dá aos outros atores, é natural que os outros partidos fiquem desconfiados, porque é um bocadinho incerto exatamente qual é que será a posição do Chega sobre cada posição política em cada momento. Este é o primeiro ponto. O segundo ponto, eu pessoalmente acho que o PSD está a fazer uma estratégia que é errada para o PSD. Eu já disse isso outro dia numa história do dia, até convido o ouvinte a procurar essa história do dia que eu fiz com o Pedro Benevides esta semana. Eu acho que o Chega está numa posição que é exatamente a posição onde queria estar e onde deve estar. Isto é, neste momento, para o Chega, a posição perfeita para o PSD é precisamente que o PSD se encoste ao Partido Socialista e que permita ao Chega cavalgar na onda da ideia de que eles são todos iguais. Na verdade, PSD e PS é tudo a mesma coisa e o PS até é o parceiro preferencial do PSD e nós, o Chega, é que somos a direita verdadeira. Quem é de direita tem que votar no Chega e só resta o Chega como alternativa de direita. Ao desguarnecer o seu flanco direito, na verdade, o PSD está exatamente a entregar ao Chega, para usar uma expressão popular, o ouro ao bandido, está a permitir ao Chega crescer e afirmar-se à direita. É verdade que Ventura, com estas situações que teve, nomeadamente na questão do código laboral, que supostamente havia um acordo, depois o acordo foi desfeito à última hora em pleno plenário. É verdade que Ventura pagou um preço reputacional ao mostrar ao PSD e a todo o país que é um ator irresponsável, que é alguém com quem não se pode contar, que é alguém que desdiz a palavra que já acertou com alguém.
Exatamente, Jorge. Como é que depois também fica o Chega, e ouvimos comentadores mais ligados ao centro-direita a dizer isso mesmo, como é que fica o Chega depois de chumbar uma reforma laboral? Isso no eleitorado mais de centro-direita que dá maior importância à questão ideológica, pode ser pernicioso também para o Chega ou não?
Não concordo. Vou-te dizer porquê. Porque nós, quando eu digo nós, é comentadores, jornalistas, políticos, nós que pensamos em política 24 horas por dia, lembrar-nos-emos por muito tempo disto que o Chega fez. Daqui a um ano, quando o eleitorado médio, que sabemos por muitos estudos, há até uma expressão muito famosa na ciência política, que é um “lábaro cognitivo”. Portanto, são pessoas que não têm incentivos suficientes para estar a prestar grande atenção à política da maneira que nós prestamos no dia a dia, a olhar para o Chega. As pessoas lembrar-se-ão vagamente que Ventura deu o dito por não dito, mas sob esse ponto de vista, eu acho que o Chega tem custos reputacionais, mas que esses custos reputacionais são muito mais de curto prazo do que de longo prazo. Portanto, os benefícios que o Chega vai ter pelo facto de o PSD se assustar e encostar-se mais ao Partido Socialista, e aliás, isso confirmou-se uns dias depois, quando foi a prestação social única, o PSD preferiu fazer um acordo com o Partido Socialista e numa jogada até algo surpreendente, porque todas as pessoas davam aquilo como mais ou menos garantido que iria haver um acordo entre o PSD e o Chega, mas o PSD assustou-se e preferiu ter um acordo que se calhar até tem menos benefícios, se quisermos, para o próprio PSD do ponto de vista ideológico, mas o PS é um parceiro que dá mais garantias de que prometendo uma coisa, a fará. E portanto, o Chega a curto prazo, sem dúvida, pagou reputacionalmente no eleitor médio este custo. Mas Ventura, convém relembrar, a ideia de que Ventura é alguém com pouca palavra, que diz o que for preciso em cada momento para ganhar votos, não é uma coisa nova, simplesmente agora foi refletida de uma maneira muito clara em pleno plenário. Mas esta ideia de Ventura como alguém um bocadinho inconstante e com posições, digamos, se hoje eu tenho esta posição, se não gostarem, tenho outra, é uma coisa relativamente comum e isso não tem impedido Ventura de crescer eleitoralmente. E portanto, para fechar, eu acho que curto prazo, custos reputacionais para o Chega, longo prazo, benefícios para o Chega, porque o PSD vai fazer precisamente o movimento que o Chega pretende, que é encostar-se ao PS, encostar-se ao centro e deixar o flanco direito para o Chega conseguir tentar mobilizar o eleitorado de centro-direita, direita, para de alguma maneira conseguir fazer o sorpasso do PSD, que é aquilo que o Chega pretende desde o início.
Obrigado, Jorge. Obrigado também ao Pedro Gouveia, que nos enviou esta pergunta para o e-mail foradobaralho@observador.pt. Muito fácil fazer perguntas ou enviar comentários, também a desafiar os membros do painel do “Fora do Baralho”. Hoje, neste domingo, a resposta coube ao Jorge Fernandes. Um abraço, Jorge. Bom fim de semana. Também bom fim de semana para os nossos ouvintes. “Fora do Baralho” estará de regresso às sextas-feiras na rádio, com repetição ao sábado e episódio extra ao domingo.










