País dos dinossauros? Brasil desvenda segredo de fóssil de 113 milhões de anos
Por muito tempo, os paleontólogos acreditaram que fósseis excepcionalmente preservados só poderiam se formar em ambientes praticamente sem vida microscópica. A lógica parecia simples: quanto menos bactérias, menor a decomposição e maiores as chances de estruturas delicadas resistirem ao tempo.Continua após a publicidadeUm estudo publicado este mês na revista científica iScience desafia justamente essa ideia. Pesquisadores brasileiros e estrangeiros identificaram um mecanismo de fossilização até então desconhecido que ajudou a preservar um pterossauro encontrado na Formação Romualdo, na Bacia do Araripe (CE), por cerca de 113 milhões de anos.Mais do que manter intacta a estrutura tridimensional do animal, o processo permitiu conservar biomoléculas extremamente frágeis, incluindo vestígios de esteroides. Isso é considerado raro até mesmo entre os fósseis mais importantes do planeta.A descoberta não apenas amplia o entendimento sobre como fósseis excepcionais se formam, mas reforça um papel que o Brasil vem conquistando nas últimas décadas: o de protagonista na paleontologia mundial.O Olhar Digital conversou com Renan Bantim, doutor em Geociências pela Universidade Federal de Pernambuco (com tese sobre pterossauros do Brasil), pesquisador na Universidade Regional do Cariri e curador associado ao Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, para entender a importância do trabalho e da Bacia do Araripe no cenário da paleontologia.Um fóssil que ainda tinha muito a revelarO exemplar analisado pertence a um pterossauro da família Anhangueridae, grupo de répteis alados que dominava os céus durante o período Cretáceo. Apesar de frequentemente associados aos dinossauros, os pterossauros pertencem a um grupo evolutivo diferente.“Os pterossauros são répteis, assim como os dinossauros e os répteis marinhos, mas cada um pertence a um grupo distinto. Eles foram organismos que desenvolveram adaptações para o voo ativo, mas não são dinossauros”, explicou Bantim.Embora o artigo tenha sido publicado apenas agora, a história dessa pesquisa começou há mais de uma década.A asa do pterossauro foi escavada em 2012 durante um projeto financiado pelo CNPq na Bacia do Araripe. Na época, o fóssil foi descrito do ponto de vista anatômico e passou a integrar o acervo do Museu de Paleontologia de Santana do Cariri, onde permaneceu exposto ao público por anos.
Tudo mudou em 2023, quando pesquisadores brasileiros e australianos iniciaram uma colaboração científica para aplicar técnicas que nunca haviam sido utilizadas em fósseis da Formação Romualdo.“Esse fóssil ficou anos em exposição como um exemplar muito bem preservado. Quando começamos essa colaboração internacional, pequenas amostras foram enviadas para análises na Austrália. Foi aí que apareceram resultados extraordinários que nós simplesmente não conhecíamos”, contou Bantim.Segundo o pesquisador, apenas pequenos fragmentos foram utilizados nos experimentos. O fóssil permaneceu no Brasil durante todo o processo.
Pterossauros são répteis alados – Imagem: Daniel Eskridge/ShutterstockO papel inesperado das bactériasPara investigar o interior do osso, a equipe utilizou microtomografia, microscopia eletrônica, geoquímica isotópica e espectrometria de massa. O conjunto de análises permitiu reconstruir, praticamente passo a passo, o processo de fossilização.Continua após a publicidadeOs resultados mostraram que bactérias oxidantes de enxofre desempenharam um papel decisivo logo após a morte do animal. Em vez de simplesmente acelerar a decomposição, esses microrganismos alteraram a química ao redor da carcaça e desencadearam uma sequência de mineralizações capaz de encapsular tecidos antes que eles desaparecessem completamente.“Pela primeira vez conseguimos identificar que alguns microrganismos ajudaram nesse processo de fossilização. Eles promoveram uma espécie de encapsulamento dessas estruturas orgânicas, permitindo que fossem preservadas ao longo de milhões de anos”, explica Bantim.Esse resultado contraria uma visão que predominou durante décadas na paleontologia.
Durante muito tempo se acreditou que a fossilização excepcional só acontecia em ambientes sem bactérias. Agora conseguimos demonstrar que, pelo menos nesse caso da Formação Romualdo, alguns microrganismos tiveram justamente o efeito contrário: ajudaram na preservação.
Renan BantimContinua após a publicidadeO processo ocorreu em diferentes etapas. Primeiro, minerais ricos em fosfato estabilizaram rapidamente os tecidos. Em seguida, sucessivas camadas de carbonato envolveram essas estruturas, criando uma espécie de cápsula mineral que as protegeu das alterações químicas ocorridas ao longo de mais de 100 milhões de anos.
Estudo recriou processo de fossilização do exemplar de pterossauro – Imagem: Kliti Grice/iScienceMoléculas de um animal que viveu há 113 milhões de anosUm dos aspectos mais impressionantes do estudo foi a identificação de biomarcadores moleculares preservados no fóssil. Entre eles estavam esteroides, compostos orgânicos extremamente delicados e raramente encontrados em registros tão antigos.As análises isotópicas também sugerem que o animal possuía uma dieta baseada principalmente em peixes e cefalópodes, compatível com o ambiente costeiro existente na região durante o Cretáceo.Continua após a publicidadeBantim ressaltou, porém, que a presença dessas moléculas não significa que tecidos originais permaneceram intactos.
Quando falamos em tecidos moles fossilizados, não estamos dizendo que existe músculo ou sangue preservado como em um animal recém-morto. O que permanece é a forma dessas estruturas, completamente substituídas por minerais durante a fossilização. Mesmo assim, esse tipo de preservação é extremamente raro.
Renan BantimAté hoje, apenas poucos depósitos fossilíferos ao redor do mundo apresentavam um nível semelhante de preservação microscópica. Com o novo trabalho, a Formação Romualdo passa a integrar esse grupo seleto.
Estudo foi uma colaboração entre pesquisadores do Brasil, Austrália, Alemanha e Estados Unidos – Imagem: Kliti Grice/iScienceAlém deste fóssil: por que a Bacia do Araripe é tão especial?O pterossauro foi encontrado na Formação Romualdo, uma das unidades geológicas da Bacia do Araripe, considerada um dos sítios paleontológicos mais importantes do planeta.Continua após a publicidadeLocalizada entre os estados do Ceará, Pernambuco e Piauí, a bacia começou a se formar há cerca de 110 milhões de anos, durante a separação entre a América do Sul e a África, processo que deu origem ao Oceano Atlântico. A intensa movimentação tectônica criou uma grande depressão que passou a acumular sedimentos e, junto deles, animais e plantas que habitavam a região.
Quando essas camadas de rocha estavam sendo depositadas, toda a flora e a fauna que viviam ali também tiveram a possibilidade de se preservar. Foi um conjunto de condições geológicas muito especiais que permitiu a formação do que conhecemos hoje como a Bacia do Araripe.
Renan BantimEntre as quase dez formações geológicas da bacia, duas ganharam notoriedade internacional.O pesquisador explicou que a Formação Crato é conhecida pela preservação extremamente detalhada de insetos, peixes, plantas e outros organismos em duas dimensões. Já a Formação Romualdo, onde foi encontrado o pterossauro analisado no estudo, é famosa por preservar fósseis tridimensionais, muitas vezes com detalhes anatômicos considerados excepcionais.Foi justamente essa qualidade de preservação que transformou o Araripe em um dos locais mais estudados do mundo quando o assunto é o Cretáceo.O estudo recém-publicado também ajuda a explicar por que fósseis da região costumam apresentar um nível de preservação tão incomum. Até hoje, diversos exemplares encontrados no Araripe já revelaram tecidos moles, fibras musculares, vasos sanguíneos mineralizados e outras estruturas raramente preservadas em fósseis. Um dos casos mais emblemáticos é o do Santanaraptor, descrito na década de 1990 pelo paleontólogo Alexander Kellner, que também participou do novo estudo.“Naquele momento, foi feito o primeiro registro de tecido mole em um dinossauro encontrado aqui na Formação Romualdo. O trabalho mostrou fibras musculares e vasos sanguíneos preservados, algo extremamente raro”, lembrou Bantim.Agora, quase três décadas depois, o novo estudo acrescenta uma peça importante a esse quebra-cabeça: não apenas confirma que estruturas delicadas podem sobreviver por milhões de anos, como também revela o mecanismo químico que tornou isso possível.Segundo os pesquisadores, compreender esse processo pode abrir caminho para novas investigações em fósseis encontrados tanto no Brasil quanto em outras partes do mundo.
Formação Romualdo, na Bacia do Araripe, tem histórico de descoberta de fósseis – Imagem: Fabin et al., 2018/ Anais da Academia Brasileira de Ciências/Wikimedia CommonsBrasil está deixando de ser apenas fornecedor de fósseisEmbora o Araripe seja conhecido pela ciência há mais de um século, durante décadas boa parte das pesquisas mais importantes sobre seus fósseis foi realizada fora do Brasil.Bantim explicou que, especialmente entre as décadas de 1980 e 1990, era comum que pesquisadores estrangeiros levassem exemplares encontrados na região para estudo em museus e universidades de outros países.
Os fósseis saíam daqui e a informação científica era produzida lá fora. Hoje esse cenário mudou. Temos pesquisadores na região, universidades, laboratórios e um museu que permite que esses fósseis sejam estudados aqui mesmo e formem dissertações, teses e trabalhos científicos desenvolvidos por pesquisadores brasileiros.
Renan BantimIsso não significa que a colaboração internacional tenha deixado de existir. Pelo contrário: o próprio estudo publicado na iScience envolveu pesquisadores de instituições do Brasil, Austrália, Alemanha e Estados Unidos. A diferença, segundo Bantim, é que agora essas parcerias acontecem de forma mais equilibrada.“Nós temos o patrimônio paleontológico, que são os fósseis da Bacia do Araripe, e trabalhamos em colaboração com instituições que possuem laboratórios extremamente avançados. O fóssil permanece no Brasil, enquanto o conhecimento é produzido em conjunto”, contou.Foi justamente essa parceria que permitiu realizar análises sofisticadas, como espectrometria de massa e geoquímica orgânica, ainda indisponíveis em muitos centros brasileiros.Apesar do avanço, Bantim acredita que o Brasil ainda está distante de explorar todo o potencial científico de seu patrimônio fossilífero. Para ele, o maior obstáculo já não é encontrar fósseis, mas a infraestrutura suficiente para estudá-los.
Esse trabalho só foi possível porque tivemos acesso a um laboratório de ponta na Austrália. Se tivéssemos uma estrutura semelhante aqui, com equipamentos desse nível e pesquisadores treinados para utilizá-los, poderíamos desenvolver muito mais pesquisas no próprio Brasil.
Renan BantimSegundo ele, o país já possui alguns dos ingredientes fundamentais para se tornar uma potência internacional na área.
O Brasil já tem os fósseis, que são extremamente importantes. Temos regiões fossilíferas reconhecidas mundialmente e pesquisadores qualificados. O que ainda precisamos é ampliar os investimentos em infraestrutura científica e equipar melhor universidades e laboratórios.
Renan BantimEsse potencial vai muito além da Bacia do Araripe. O país abriga alguns dos dinossauros mais antigos já encontrados no mundo, descobertos no Rio Grande do Sul, além de sítios paleontológicos importantes na Paraíba, Minas Gerais, Maranhão e outras regiões. Nos últimos anos, novas descobertas também reforçaram a relevância do patrimônio brasileiro, como a identificação da maior pegada de dinossauro já encontrada no país, na Paraíba, e pesquisas que revelaram a relação entre povos pré-coloniais e pegadas fossilizadas na mesma região.Mesmo assim, especialistas afirmam que grande parte desse patrimônio ainda permanece pouco explorada.“Existe muito material para ser estudado, muitos locais para serem prospectados e muitas descobertas que ainda podem ser feitas”, afirmou Bantim.
Vitoria Lopes Gomez
Vitoria Lopes Gomez é jornalista formada pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) e redatora do Olhar Digital.
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