Bugalho, um 'rotweiller' de ataque para poupar negociadores
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Sebastião Bugalho é o novo “rotweiller” político do PSD. A comunicação da AD passa agora a ser uma hidra de três cabeças: o Governo, o grupo parlamentar e o partido. Até aqui António Leitão Amaro assumia a comunicação política e técnica do Govenro nos briefings, mas o secretário-geral Hugo Soares tinha, sozinho, de desdobrar-se a falar em nome do grupo parlamentar e do partido. Agora, como explica ao Observador uma destacada fonte social-democrata, “quando for presciso tomar posições que sejam mais de combate, sobretudo essas, para não desgastar o Governo e proteger a relação no Parlamento, avança o Sebastião”.
Por ter de assumir várias frentes de batalha, Hugo Soares sofria um grande desgaste, até pessoal, e podia comprometer — em alguns momentos — as negociações parlamentares, quer com o Chega, quer com o PS. “Assim abrimos mais uma frente“, explica um alto dirigente do PSD. Sebastião Bugalho tem a vantagem, como explicou fonte conhecedora desta escolha ao Observador, de “estar mais livre do que qualquer um dos outros para atacar as oposições”. A entrada em cena de Bugalho permite assim preservar mais o Governo, incluindo o próprio Montenegro, mas também Hugo Soares.O líder parlamentar do PSD vai, cada vez mais, ter de assumir a dianteira das negociações para conseguir ir avançando com reformas, como aconteceu no caso da PSU. Muitas vezes terá de se resguardar para não perturbar intensas negociações como essas e dar argumentos a PS e Chega para roerem a corda.A intervenção de Bugalho é sempre feita em “total articulação” com a coordenação do Governo e o líder parlamentar. Não há dúvidas de que nenhuma intervenção do novo porta-voz será feita sem estar devidamente sincronizada com o Governo, a bancada, além de ter a validação quer de Montenegro, quer de Hugo Soares. Isto não significa que, no estilo e mesmo no conteúdo, Bugalho não tenha liberdade criativa para passar a mensagem à sua maneira.
A intervenção de Bugalho será sempre de ataque, havendo outras pessoas para as conciliações. Mesmo antes de ter o cargo, o eurodeputado utilizou o palco mediático de que dispõe — quase sempre por iniciativa própria, mas também a pedido — para defender o primeiro-ministro e o Governo em momentos de maior aperto. Veio em defesa de Montenegro numa entrevista durante o caso Spinumviva, fez o mesmo quando o Governo foi acusado de instrumentalizar a polícia no caso Odair Muniz, fê-lo novamente a propósito da Lei dos Estrangeiros e até surgiu a defender a ministra do Trabalho, que estava debaixo de fogo devido às alterações à legislação laboral e às suspeitas de fraude que levantou sobre mães que alegadamente amamentam até mais tarde para usufruir da redução de horário. Bugalho já era uma espécie de bombeiro canarinho ao serviço de sua majestade Montenegro. Agora, é oficialmente o arauto do reino laranja.A estreia de Sebastião Bugalho foi um autêntico tiro ao PS. Junto ao busto de Sá Carneiro e com as bandeiras de Portugal e da União Europeia atrás de si, o vice-presidente do partido escolheu a sede do PS para responsabilizar o Governo de Costa pelo aumento da população estrangeira e anunciou que os sociais-democratas vão chamar ao Parlamento ex-ministros do PS para responderem pela “política migratória desregrada”, incluindo o secretário-geral do PS e ex-ministro da Administração, José Luís Carneiro.Bugalho responsabilizou por completo o Governo de António Costa e quer que esse Executivo responda pelo aumento da população estrangeira de 7 para 14% e o consequente aumento dos residentes em Portugal. Bugalho anuncia, nessa mesma linha, que o PSD “por via do seu grupo parlamentar, irá promover um conjunto de audições, que obrigará os governantes do PS a responder a questões como: “O Governo então em funções agiu com conhecimento ou sem conhecimento do aumento populacional agora tornado público?; “Que políticas públicas desse Governo foram projetadas ou condicionadas por esse aumento populacional fruto da política migratória desregrada desse governo?”
A intervenção de Bugalho colocou à prova a articulação com o grupo parlamentar. O porta-voz do PSD teve de admitir que José Luís Carneiro seria um dos chamados, mas deixou claro que a quem competia fazer revelar os ex-ministros socialistas que seriam alvo do escrutínio parlamentar e a respetiva “calendarização será anunciada pelo líder parlamentar, Hugo Soares“.Sobre as críticas por acumular os dois cargos, Sebastião Bugalho diz que tem “notado, até com algum fair play democrático que as mesmas pessoas que diziam que eu seria um mau eurodeputado por estar sempre em Portugal, são as mesmas pessoas que dizem que eu vou ser um mau porta-voz porque estou sempre em Bruxelas”.O vice-presidente do PSD diz que “nos últimos dois anos” percorreu “mais de 73 mil quilómetros ao serviço do meu partido” e que “só nas autárquicas” esteve “presente em 98 concelhos e 117 iniciativas”, assim “como presente na volta da campanha das legislativas de 2025 e nas presidenciais de 2026”. E que, “apesar disso”, tem “uma taxa de presença no Parlamento Europeu superior a 94%, portanto já provei, mais do que uma vez, que compatibilizar o trabalho em Portugal com o trabalho europeu, não só é possível como desejável”.Sebastião Bugalho tem ouvido críticas por acumular o cargo de eurodeputado com o de porta-voz do PSD. Miguel Morgado que foi vice-presidente da bancada parlamentar do PSD quando esta era liderada pelo PSD, criticou o facto do eurodeputado acumular funções: “Se ele está em Estrasburgo e é porta-voz isso não compreendo. Tinha de sair lá do Parlamento Europeu e ser porta-voz. Agora ser porta-voz e estar no Parlamento Europeu revela o que de pior há na política.” Morgado, que foi professor de Bugalho na faculdade, diz que não percebe “como Luís Montenegro não impõe isso”.
Sebastião Bugalho responde a esta crítica com ironia. Logo na primeira conferência de imprensa disse que tem “notado, até com algum fair play democrático que as mesmas pessoas que diziam que eu seria um mau eurodeputado por estar sempre em Portugal, são as mesmas pessoas que dizem que eu vou ser um mau porta-voz porque estou sempre em Bruxelas”.E com números, alegando que tem uma presença de 94,7%. Além disso, Bugalho está disponível a voar para Portugal de um dia para o outro. E vice-versa. Até porque já o fez noutras ocasiões. Por exemplo, em 2025. Como o aniversário do partido coincide com a semana do aniversário da vitória da II Guerra Mundial, Bugalho voou para Lisboa para o aniversário do partido e voltou a voar para Bruxelas para a sessão na sexta-feira a seguir.Em situações de emergência, Bugalho até pode fazer uso de um backdrop do PSD que o grupo tem em Bruxelas, que pode utilizar se for caso disso. Além disso, há também a sede do PSD/Bruxelas. E pode ainda convocar os correspondentes em Bruxelas para uma conferência de imprensa, mesmo que sobre assuntos nacionais.Ao Observador, Sebastião Bugalho também chama a atenção para a intervenção dos companheiros de direção. “Não é por haver um vicr-presidente porta-voz que os outros são mudos ou inexistentes“, diz, para lembrar que os outros dirigentes nacionais também terão o seu espaço de intervenção. O eurodeputado e porta-voz acredita que consegue concilar as duas funções. Nesta semana foi perfeitamente conciliável: na segunda feira estava a falar na São Caetano à Lapa, na terça de manhã já estava em Bruxelas quando atendeu o Observador. Nos próximos meses se verá se tudo continua a ser conciliável.










