Autarca de extrema-direita cancela teatro sobre imigração
▲Espetáculo foi retirado da programação poucas horas antes da divulgação oficial da temporada cultural da cidade
AFP via Getty Images
O presidente da Câmara Municipal de Castres, no sul de França, cancelou a apresentação da peça de teatro Passeport, do dramaturgo franco-britânico Alexis Michalik, por considerar que a obra constitui “propaganda política”. De acordo com o Le Monde, a decisão do autarca Florian Azéma, eleito pelo partido de extrema-direita União Nacional (RN, na sigla original), desencadeou críticas de artistas, políticos e do próprio autor, que acusa o município de censura.
O espetáculo estava integrado na digressão nacional da peça e tinha uma sessão marcada para fevereiro de 2027 no Teatro Municipal de Castres. No entanto, foi retirado da programação poucas horas antes da divulgação oficial da temporada cultural da cidade. Azéma justificou o cancelamento ao dizer que a peça faz “a promoção da imigração ilegal” e apresenta “uma representação bastante estranha da polícia”. Em declarações aos jornalistas, o autarca afirmou que o espetáculo “não corresponde” aos princípios que defendeu durante a campanha eleitoral.“Se a peça faz promoção dos imigrantes ilegais e [apresenta] uma abordagem bastante peculiar das forças da ordem, é óbvio que isso não corresponde ao que eu defendi durante a campanha eleitoral”, disse, sublinhando que quer “que o dinheiro público, o dinheiro dos habitantes de Castres, seja gasto de forma correta”.Escrita por Alexis Michalik, Passeport acompanha a história de um jovem encontrado inconsciente no antigo campo de refugiados de Calais, conhecido como “a Selva”. Sem memória da sua identidade e apenas com um passaporte eritreu na sua posse, o protagonista tenta reconstruir a vida em França e obter os documentos necessários para ficar no país.
O dramaturgo considera que a decisão do autarca constitui um caso de censura política e um sinal do que poderão ser os próximos tempos caso a União Nacional chegue ao poder a nível nacional. “Todos têm o direito de gostar ou não da peça, mas todos devem poder vê-la“, afirmou ao Le Monde, acrescentando que “a liberdade de criação e a independência da programação cultural não são nem de direita nem de esquerda. Constituem um dos alicerces da nossa vida democrática”.Já em declarações ao britânico The Guardian, Michalik comparou a atitude do partido à do Presidente norte-americano em matéria de política cultural. “É bastante semelhante ao que está a acontecer nos Estados Unidos. É uma abordagem muito típica de Donald Trump“.O cancelamento da sessão em Castres motivou perguntas no parlamento francês. A ministra da Cultura, Catherine Pégard, recordou que “a liberdade de criação artística é protegida e garantida pela lei” em França.
“Condeno o cancelamento de um espetáculo com o único fundamento de que o seu tema não está em sintonia com as opções políticas do presidente da Câmara de Castres”, afirmou Pégard, citada pelo Le Monde, durante uma sessão de perguntas ao Governo.“A liberdade de criação artística está protegida e consagrada a nível nacional por uma lei aprovada em 2016. Esta lei prevê que o Estado e as autarquias zelem pelo respeito da liberdade de programação artística. Trata-se de um pilar da nossa sociedade democrática”, sublinhou ainda a ministra.










