E se o futuro dos jovens fosse a agricultura?
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Pompeu Pais Dias reforçar ainda que o modelo familiar “está em declínio” e isto fruto de vários fenómenos nacionais, com um rácio de 10 agricultores com 65 ou mais anos, por cada profissional com menos de 40 anos.
No entanto, a produtividade do trabalho aumentou, mais 277% em 30 anos, algo a que não é estranho uma mão de obra com mais formação e novas variedades de produção e mais tecnologia. Em termos de remunerações, a agricultura não remunera tão bem como outras profissões, mas o diretor da CONSULAI frisa que “tem existido convergência, com as remunerações a crescerem mais do que a média da economia”. De realçar que 88% desta força de trabalho tem o 12.º ano de escolaridade.
E se temos uma curva tão acentuada a nível de idades, como é possível continuar a assegurar mais produção agrícola? A resposta está na imigração, sendo que este é o setor com mais peso destes trabalhadores, ao representar cerca de 40% da mão de obra. Curioso também que 83% das empresas inquiridas no estudo da CONSULAI consideram que os estrangeiros “são essenciais e há alternativas”.
A par do maior trabalho produtivo e qualificado e a exigência de novas tecnologias, há desafios ambientais e adaptação às novas realidades que exigem a renovação do tecido de trabalhadores e regentes agrícolas.
Jovens, projetos e retenção
“Nos últimos 15 anos cerca de 16% dos projetos na agricultura vieram de jovens, que mobilizaram 1,5 mil milhões de euros. Neste período houve 10 mil projetos aprovados”, disse Isabel Abreu Lima, coordenadora do conselho consultivo de Jovens Agricultores da CAP – Confederação dos Agricultores de Portugal. Adiantou no arranque do B-Rural Summit 2026 que cerca de 3% dos dirigentes das explorações agrícolas têm uma média de 35 anos, e a razão para existirem poucos jovens é o facto de “o rendimento médio no setor agrícola ser 40% o de outros setores”.
No estudo da CONSULAI e da CAP conclui-se que os desafios estruturantes persistem e há desafios, a saber: há dificuldade no acesso à terra; há excesso de burocracia para projetos de jovens agricultores; há irregularidade nos apoios; há dependência de subsídios; e há dificuldade na entrada na cadeia de valor, pois a atividade dos jovens não tem sido devidamente valorizada.
Os números indicam, segundo Isabel Lima, que 54% dos projetos são de explorações existentes ou familiares; e que 33% estão em regime de arrendamento e onde se praticam, essencialmente, culturas anuais. Há também o risco de escala, com a maioria das explorações com menos de cinco hectares. Salienta ainda o pacote financeiro astronómico de Bruxelas para ajudar os jovens agricultores, mas é algo insuficiente porque irá faltar a integração na cadeia de valor.
Isabel Lima lança ainda outras dúvidas. Frisa que Bruxelas coloca o rejuvenescimento da agricultura como prioridade a nível de coesão territorial, mas questiona: como haverá aplicabilidade real? Temos ainda o freio burocrático e a eficácia real das medidas de Bruxelas, e questiona o corte na PAC (Política Agrícola Comum), pois tem um Orçamento global a aumentar 40%, mas na PAC apenas 20%, algo agravado pela fusão da PAC com o fundo de Coesão Territorial.
Para o futuro as dúvidas assentam na questão dos regimes fiscais; nas garantias de crédito, pois a banca penaliza; nas regras burocráticas; na integração nas cadeias de valor; na necessidade de mentoria no horizonte produtivo; e na estratégia comercial europeia.
Sendo este setor muito vulnerável regista-se o facto de em Portugal 58% dos jovens não estarem em qualquer estrutura coletiva e, por isso, não enfrentarem os desafios em rede, agravado pelo facto de 36,3% dos jovens agricultores dependerem exclusivamente da venda direta.
Novas gerações, novas histórias
O que procuram os jovens? A resposta foi dada pelas estórias contadas por Rui Quintas, um designer, empreendedor e responsável pela With Company; ainda por José Maria Perdigão, CEO da Offcoustic; e por Isabel Lima, bióloga de formação, viticultora e que se dedica ao marketing e à comunicação do vinho desde 2019 com vinha e amendoal numa exploração familiar.
Rui Quintas tem a história fantástica de estar fora da idade a que chamam de jovem agricultor, mas continua com o mesmo empenho no lançamento de empresas, e como o próprio diz, “já vão oito ou nove”, entre as quais uma peixaria. Diz que estudar design e comunicação permitiu-lhe “desenhar o que é intangível”. José Maria Perdigão passou de empregado a patrão por convite do acionista principal da empresa onde trabalha. Hoje, tem a ambição de entrar em força no mercado espanhol na vertente de construção de módulos específicos (soluções acústicas para escritórios) e o objetivo é liderar na Europa. O seu lema tem sido: “Podemos empreender sem criar”. Isabel Abreu Lima tem uma tese em viticultura, faz marketing, trabalha no setor e defende a colaboração em rede dos produtores.
E na questão de como introduzir novas aprendizagens na agricultura, Henrique Silvestre Ferreira, presidente da AJAP – Associação dos Jovens Agricultores de Portugal, realça a média de idades elevada, o facto de 80% da população viver na costa, e relembra as dúvidas sobre a viabilidade do Alqueva e alerta para o risco de se acabar com os projetos dos jovens agricultores. Defende mais investimento no regadio, nomeadamente com os projetos de charcas, e alerta a necessidade de mais investimento global em água.
Mariana Franco, presidente da AEISA – Associação dos Estudantes de Agronomia, releva o decréscimo de estudante na área de agronomia e a errada visão estrutural da agricultura. Matilde Antunes, da CONSULAI, destaca a tensão entre o que os jovens querem e o que podem aportar, pois os jovens “não encontram espaço para se reconhecerem”. Coloca a questão sobre o que se está disposto a mudar para despertar para a agricultura como opção de carreira. Cristóvão Ferreira foi um interveniente aplaudido, mas fora do alinhamento inicial. Recordou que foi considerado o “Melhor Empreendedor Agrícola de 2020”, produz maças no Oeste e alertou para as dificuldades com as margens de lucro, mas relevou a importância do agricultor para manter uma soberania razoável na alimentação e, do seu lado, não para, e exemplo disso é a mais recente certificação de ecoprodução, que é a resposta à necessidade de enquadrar a biodiversidade da natureza. Mónica Onofre, responsável de comunicação da Croplife Portugal, assinalou que a “agricultura resulta da paixão e emoção para cativar jovens”. Defende apoios, mais formação, incluindo marketing e gestão na engenharia agrícola e conclui que “sem agricultores ninguém vive.”
“Tranquilo com o futuro”
Possivelmente a intervenção mais otimista do evento foi a entrevista que Paulo Ferreira, da Rádio Observador, fez ao médico e político Álvaro Beleza, presidente do conselho coordenador da SEDES. Disse: “Estou tranquilo com o futuro da agricultura portugueses porque tem muitos jovens”. A agricultura nacional de precisão está ao nível do melhor que se faz, explicou e lembrou que a marca portuguesa de exportação é o Mateus Rosé, um produto agrícola. Num tom de forte incentivo lembrou que para sermos a “Dinamarca do Sul” temos de ter escala. Comparou o número de habitantes com outros países semelhantes em demografia, caso da Suécia, dos Países Baixos ou da Dinamarca, que têm grandes marcas como a Saab, a Volvo, a Philips ou a Novo Nordisk, que fatura o equivalente a um terço do PIB português, mas Portugal tem o Mateus Rosé o Cristiano Ronaldo.
Ressalvou que a agricultura “é a nossa identidade porque vocês (jovens) é que ocupam o território”. Relevou que os agricultores “são fundamentais”, no entanto falta-lhes representatividade porque a maioria das pessoas vive nas cidades e a comunicação social apenas fala de urgências hospitalares e de transportes e não dos temas do interior. Isto, diz, deve-se ao modelo de representatividade política e deu o exemplo criado pelos pais fundadores dos EUA com a câmara alta (Senado) que permite eleger senadores, independentemente da demografia. Disse ainda que o país precisa de mais equilíbrio, caso da necessidade de 5G em todo o lado para os jovens se deslocarem para longe, a par de alta velocidade e da ligação de todos os distritos por autoestrada. O que existe não chega, afirma.









