Porque é que esta onda de calor é diferente?
▲As previsões para este domingo, 5, segundo o mapa da Meteored, com as anomalias de temperatura
Julho começa com noites tropicais durante vários dias consecutivos, mesmo em partes do litoral onde isso é raro, e máximas sempre acima de 30º C. A Península Ibérica vai transformar-se no verdadeiro “forno ibérico”, capaz de produzir e reciclar o seu próprio calor. A atmosfera que está a gerar este episódio, relativamente típico do início de julho, do verão, não mudou. O que mudou foi o ambiente em que tudo ocorre: um planeta mais quente, o Mediterrâneo a ferver, solos mais secos e verões que parecem começar cada vez mais cedo e acabar cada vez mais tarde. Como resume o climatólogo Carlos da Câmara, “o que está a acontecer agora não é diferente do que acontecia há 30 ou 40 anos. O mecanismo atmosférico é conhecidíssimo. O problema são os impactos.”
Segundo o IPMA, até 29 de junho tinham sido identificadas sete ondas de calor em Portugal — uma em fevereiro, duas em março, duas em abril, uma em maio e outra em junho. Até 23 de junho acumulavam-se já 59 dias em onda de calor. A nova vaga, que se prolongará durante pelo menos oito a dez dias, transforma-se assim na oitava onda de calor de um ano que está a aproximar-se dos registos mais extremos das últimas décadas. Na quinta-feira houve seis distritos em alerta vermelho. Esta sexta já são 12, e os restantes estão a laranja. Afinal, o que é que temos pela frente?As últimas três vagas de calor, registadas desde maio, tiveram características de formação semelhantes, mas foram distintas. A primeira chamou a atenção pela precocidade. O calor extremo chegou ainda antes do verão climatológico e bateu vários recordes para o mês de maio. A segunda inseriu-se numa enorme vaga de calor europeia, uma mancha de quilómetros, que atingiu Espanha, França, Itália e outras regiões do continente e que contribuiu para o aquecimento excecional do Mediterrâneo. Portugal conseguiu escapar por muito pouco do pior, valeu-nos uma depressão em altitude no sítio certo.Esta terceira grande vaga, que começa com o início de julho, parece combinar vários ingredientes dos dois episódios anteriores, mas acrescenta-lhes elementos novos. “Do ponto de vista climatológico, está ligado exatamente ao mesmo tipo de fenomenologia que foi responsável pelas outras ondas de calor que afetaram a Europa”, explica Carlos da Câmara, professor do Instituto Dom Luiz e da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. A diferença é que esta se desenvolve sobre uma Península e um Mediterrâneo já muito mais quentes e sobre solos que chegam a julho muito mais secos. O destaque vai para a persistência das temperaturas mínimas em valores anormais (sempre mais de 20ºC em muitas noites consecutivas), para o calor acumulado na Península e para a forma como a própria geografia ibérica poderá ajudar a produzir e a reter o ar muito quente.
O próprio IPMA considera particularmente rara a persistência de noites tropicais na faixa costeira ocidental. É relativamente frequente que as temperaturas mínimas não desçam dos 20º C em regiões do interior ou na costa sul do Algarve. Mas é raro que áreas metropolitanas como Lisboa e Porto acumulem cinco, seis ou sete noites consecutivas acima desse limiar e que alguns concelhos possam registar mínimas entre os 25º C e os 28º C.O calor vem influenciado por um anticiclone localizado a norte/noroeste do arquipélago dos Açores, estendendo-se depois em crista até ao Golfo da Biscaia, e que se desloca para leste, estabelecendo uma circulação do quadrante leste no continente.Os dois conceitos são frequentemente usados como sinónimos, mas não o são. Uma onda de calor é aquilo que se mede à superfície. Em Portugal, o IPMA utiliza a definição da Organização Meteorológica Mundial e considera que existe uma onda de calor quando, durante pelo menos seis dias consecutivos, a temperatura máxima diária se mantém 5º C acima do valor médio para essa data e local. Uma onda de calor não é simplesmente um ou dois dias muito quentes. É um período prolongado de temperaturas anormalmente elevadas para uma determinada região e época do ano. Isto significa que 38º C em julho no Alentejo pode não ser suficiente para haver uma onda de calor, porque essas temperaturas são relativamente normais para a região, mas 33º C em maio ou em zonas mais frescas do país podem, pelo contrário, ser considerados onda de calor porque estão muito acima do que é habitual para a época. Por isso, uma onda de calor é um conceito relativo, não um valor fixo.
????️♨️ Até 43 ºC: onda de calor poderá afetar Portugal continental até dia 8 de julho.
????️ Confira a previsão por Ana Palma: pic.twitter.com/8hkygxiYcq
— Meteored Portugal (@MeteoredPT) July 1, 2026As ondas de calor estão associadas ao aumento da mortalidade, agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias, maior risco de incêndio, secagem dos solos, diminuição das reservas de água, perdas agrícolas e maior consumo de eletricidade. E quando são acompanhadas por noites tropicais (mínimas acima de 20º C), tornam-se ainda mais perigosas porque o corpo humano deixa de conseguir recuperar do calor acumulado durante o dia.Já uma heat dome, ou cúpula de calor, é uma configuração atmosférica que pode produzir uma onda de calor. Funciona como uma tampa. Uma vasta área de altas pressões favorece movimentos descendentes de ar. Esse ar, ao descer, comprime-se e aquece. Como há menos nuvens, há mais radiação solar, menos renovação da massa de ar e o calor vai-se acumulando junto à superfície.
É como colocar uma tampa numa panela. “Em cima desta depressão térmica há sempre um anticiclone”, explica Carlos da Câmara. “Esse anticiclone empurra o ar para baixo, o ar é comprimido e aquece ainda mais.” É esse mecanismo de compressão e aquecimento que constitui a chamada cúpula de calor. O ar quente fica preso, afunda lentamente, comprime-se e aquece ainda mais. Como a atmosfera fica bloqueada, torna-se muito difícil a entrada de massas de ar mais fresco ou de frentes atlânticas. E o resultado são temperaturas muito elevadas, calor persistente, noites cada vez mais quentes, agravamento da seca e maior risco de incêndios.Normalmente há uma combinação de fatores para que se forme uma cúpula de calor: um anticiclone muito forte, em que as altas pressões se instalam e impedem a circulação normal da atmosfera; uma corrente de jato (jet stream) muito ondulada, que ao ficar mais sinuosa pode deixar uma área de altas pressões “presa” durante vários dias; solos secos, que com pouca humidade, têm menos evaporação e mais energia disponível para aquecer o ar; e mar muito quente, porque no Mediterrâneo e no Atlântico Norte as águas mais quentes fornecem mais calor e humidade à atmosfera. A Agência Espacial Europeia descreve este mecanismo como um sistema persistente de altas pressões que aprisiona ar quente e seco e amplifica o aquecimento à superfície. Por isso, pode haver ondas de calor sem uma verdadeira heat dome, e pode haver uma heat dome que não atinja os critérios necessários para ser classificada como onda de calor.Uma cúpula de calor é o mecanismo atmosférico. Uma onda de calor é a consequência à superfície.Muitas das grandes ondas de calor dos últimos anos na Europa e nos EUA foram alimentadas por autênticas cúpulas de calor. Agora fala-se mais delas porque parecem estar a tornar-se mais frequentes, mais duradouras e mais intensas. Os cientistas acreditam que o aquecimento global e os solos mais secos estão a tornar estes bloqueios atmosféricos mais perigosos, embora ainda exista investigação em curso sobre a forma exata como as alterações climáticas estão a influenciar a frequência destes episódios.A configuração meteorológica desta semana é relativamente típica do verão ibérico. “Este mecanismo não tem nada de especial”, diz Carlos da Câmara. “É o modelo conceptual da circulação atmosférica de verão na Península Ibérica.” Um anticiclone localizado próximo das ilhas Britânicas favorece um fluxo de leste que promove uma subida acentuada das temperaturas em Portugal e Espanha. À medida que a circulação de larga escala enfraquece, a massa de ar muito quente permanece praticamente estagnada sobre a Península.
A situação é diferente da registada há dias, em junho, porque aí uma depressão em altitude a oeste da Península ajudava a reforçar a entrada de ar muito quente vindo do norte de África na cúpula que se formou (ao mesmo tempo que nos trazia ar frio para o litoral o que nos deu forma de passarmos ao lado do pior). Desta vez, a atmosfera parece mais estável, menos dinâmica e mais favorável à acumulação de calor.O que mostra que não é necessária uma configuração meteorológica extraordinária para produzir temperaturas excecionais. Trata-se de uma situação relativamente típica do verão mediterrânico mas que é hoje capaz de gerar extremos de temperatura que há algumas décadas eram muito mais raros.A expressão é utilizada por vários meteorologistas portugueses e espanhóis e ajuda a explicar o mecanismo em causa. Nem todas as ondas de calor dependem de uma grande injeção de ar proveniente do Norte de África. Em determinadas circunstâncias, a própria Península Ibérica consegue aquecer significativamente a massa de ar que permanece sobre ela.
O IPMA prevê que o tempo quente e seco se prolongue durante, pelo menos, uma semana, trazendo, também, noites quentes. Por esse motivo, os avisos poderão ser prolongados no tempo e agravado o seu nível em alguns distritos.
???? Siga as recomendações das autoridades. pic.twitter.com/69f0vJSr0H
— República Portuguesa (@govpt) July 1, 2026A forte radiação solar típica de julho, a persistência das altas pressões, os ventos fracos e a escassa renovação da atmosfera permitem que o calor se acumule dia após dia. A superfície terrestre aquece muito durante o dia e liberta lentamente essa energia durante a noite. Como o ar não consegue arrefecer de forma significativa, o dia seguinte começa já num patamar térmico elevado e o processo repete-se.
A Península comporta-se quase como um pequeno continente, suficientemente grande para produzir a sua própria massa de ar anormalmente quente. O ar não é substituído por massas mais frescas, permanece praticamente estagnado e vai aquecendo progressivamente. O resultado é uma espécie de reciclagem permanente do calor, que só se altera quando uma massa de ar suficientemente frio o consegue desfazer. “Temos aqui uma máquina fantástica”, descreve o climatologista. “A depressão deslocada para sul traz ar quente e seco de África e depois ainda temos um compressor que aquece ainda mais o ar. É o tal forno ibérico”, resume.As noites são fundamentais para a recuperação do organismo, dos edifícios e até dos próprios solos. Quando a temperatura não desce dos 20º C estamos perante uma noite tropical. Acima dos 25º C são noites tórridas. O problema é que estas temperaturas têm um impacto direto na saúde porque o corpo perde capacidade de recuperar do stress térmico acumulado durante o dia. “Vinte e seis ou vinte e sete graus de mínima não cabe na cabeça de ninguém”, diz Carlos da Câmara. “Não dá para dormir, não dá para o organismo se restabelecer.”Mas também desempenham um papel importante na própria evolução da onda de calor. Dias muito quentes aquecem solos, estradas e edifícios. Durante a noite, esse calor é libertado lentamente. Como não existe um arrefecimento significativo, o dia seguinte começa mais quente e tem maior facilidade em atingir temperaturas extremas.As autoridades de saúde admitem que é precisamente a persistência do calor — e não apenas os picos de temperatura — que mais preocupa do ponto de vista da mortalidade e da descompensação de doenças crónicas.










