Outra psicologia se faz favor!
“Vou ser muito sincero…” é um expressão que se banalizou. Substituiu, como se fosse uma versão suave, a afirmação “sou muito directo”, usada com alguma vaidade por aqueles que têm dificuldade em distinguir uma verdade transmitida com afecto com exercícios de crueldade. Sendo que estas pessoas, “muito directas”, usam as suas verdades acerca de nós duma forma intimidatória, sem reciprocidade, sem culpabilidade e sem remorsos. E, sobretudo, de forma a inibirem-nos de qualquer contraditório que as ponha em causa (que, aliás, elas, muito ciosas de serem “muito bem resolvidas”, não toleram).
Convenhamos que entre o “vou-te dizer umas verdades” e o “vou ser muito sincero” há um pequeno degrau que os separa na forma mais ou menos rude com que se lida com a verdade. Mas sempre sem nos deixar espaço para perguntar àqueles que se propõem “ser muito sinceros” onde estaria a sua relação com a verdade quando, antes deste assomo de “sinceridade”, foram falando connosco.
O mais grave é que talvez mesmo aqueles que não se propõem apelar a uma sinceridade mais momentânea não falem tantas vezes tão verdade como deviam. Acerca do que pensam. Sobre aquilo que sentem. Ou a propósito dos juízos que constroem sobre os outros. E, chegados aqui, seria de perguntar o que nos foi levando, ontem como hoje, a afastar da verdade. Se bem que vivamos num momento em que o discurso das pessoas parece cada vez mais ancorado em jargões de agências de comunicação ou da inteligência artificial, em que se recorre a termos trazidos da psicologia que, a propósito, prestam um mau serviço à Humanidade. Falar de coisas más passou a ser interdito; convém considerá-las “coisas menos boas”. Falar de um erro ou de um falhanço tornou-se um tabu; agora fala-se de tudo isso como desenvolvimento pessoal. Falar a verdade acerca das nossas dores tornou-se inconveniente; será melhor falar de desregulação ou de falhas na auto-regulação. Falar daquilo que se sente talvez possa ter-se tornado “démodé; usemos, antes, as histórias que construímos com isso e, como se fossem menores, passemos-lhe a chamar narrativas. Falar daquilo que escutamos e vimos ter-se-á tornando socialmente incorreto; use-se, com abundância, o termo “percepção”. E falar a verdade terá passado para a categoria das coisas bafientas; ponhamos “filtros” sobre isso porque falar “sem filtros” merece censura. No fim de tudo, sejamos positivos. O que nos condiciona com o pressuposto de ao não o sermos, haverá sempre quem nos tome por enfadonhos, por negativos ou pessimistas.
Mas este embrulho cheio de “psicologia” leva a que muitos comentadores falem do nosso tempo, com uma aragem duma doutrina irrefutável, num momento de “pós-verdade”. Como se a grande aquisição do conhecimento trouxesse a humanidade para a relativização de factos (históricos, sociais, ambientais ou políticos) e para a presunção de que a liberdade fica manchada sempre que alguém se sente contraditado nas suas “percepções” ou nas suas “narrativas”. Como se a verdade, tomada como um mínimo denominador comum das coisas que todos entendemos, fosse uma afronta àquilo que alguns insistem em não reconhecer e à “liberdade individual”. E os factos da história não passassem de mitos. E as notícias e as fake news tivessem um mesmo valor.
A forma como, à boleia da “pós-verdade”, se mente e falseia parece querer encaminhar-nos para um “novo normal” que trouxe intimidação à verdade e à liberdade. A par da forma como se toma a boa educação não como um património da humanidade mas como um constrangimento à liberdade individual. O que vai fazendo com que a mentira e a rudeza sejam tidas como afirmações de liberdade, como se fôssemos tanto mais livres quanto mais descuidamos, mais ignoramos, mais desconsideramos ou mais nos tornamos indiferentes em relação aos outros. Não, não são os adolescentes que são egocêntricos, individualistas, egoístas e narcísicos. É o mundo em que eles vêem tudo isso sem contraditório da nossa parte, reparando no quanto isso nos encaminha para o medo da verdade, do contraditório, da boa educação e da verdade.
Ora, a psicologia, ou as interpretações duma certa psicologia, não pode pactuar – por omissão, que seja – com tudo isto. Mesmo quando se elege a saúde mental no meio de tantas mentiras como se nada de entre elas contribuísse para fazer com que as pessoas adoecessem sempre que fogem de olhar para si com verdade. Como se a alternativa fosse ou só olhar para o passado ou desqualificá-lo e ignorá-lo em nome do presente. Nunca para ir do passado ao futuro. Da história à esperança e ao desejo. Da dor à resiliência. Do traumatismo a “novos começares” e à redenção.
A psicologia sabe que não há verdades irrefutáveis. Há verdades a que se chega com humildade, coragem, escuta e contraditório; bondade e sentido de justiça. A psicologia sabe que a experiência nos capacita para as histórias, mas o seu valor simbólico não significa reduzi-las a historietas ou a narrativas estéreis e sem significado. E sabe que pensar, por vezes, dói. Mas quem não convive com a dor não a lavra em direcção à felicidade. E sabe que não há “pensamentos intrusivos” (como se fossem estranhos ou não tivessem nada a ver connosco e não significassem nada que merecesse ser descodificado, compreendido e pensado). Há acontecimentos, memórias e pensamentos que fazemos por censurar ou por esquecer, separando-os dos pensamentos amigos, como se se separasse o prescrito do proscrito. É verdade que sim. Mas daí a tomá-los como intrusos vai uma enorme distância.
Seja como for, este discurso que emana das redes sociais com alguma psicologia à mistura empurra-nos para uma Humanidade que perde humanidade. E que estará mais ao serviço de quem valoriza a unicidade que a singularidade, as atitudes sabidas que a sabedoria, o mimetismo que o pensamento a hipocrisia que a verdade, ou a intimação que a liberdade. E isso – jamais! – é psicologia. É uma forma de nos tentarem normalizar. Com auto-ajuda mas sem auto-conhecimento. Como é que nos podemos tornar mais pessoas e melhores pessoas com esta “psicologia”? Não podemos! Precisa-se de outra psicologia; se faz favor!
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