Wagner Moura: "A verdade acabou e isso assusta-me"
▲O ator brasileiro regressa ao teatro após quase 20 anos depois
Marisa Cardoso
A defesa da profissão não surgiu por acaso. Não só Wagner estudou jornalismo como um dos protagonistas de Um Julgamento é precisamente um jornalista, ainda que apresentado de forma pouco lisonjeira. Ainda assim, Moura insistiu que o momento exige uma defesa clara do papel dos media. “Hoje vivemos um momento em que é preciso defender o jornalismo”, insistiu, mostrando-se incrédulo com a crescente concentração de poder económico sobre os meios de comunicação, apontando o caso do Washington Post. “Acho uma loucura o Jeff Bezos ser dono do Washington Post e centenas de jornalistas serem despedidos na mesma época em que a Amazon lança um documentário sobre Melania Trump.”
Um Julgamento – depois do Inimigo do Povo nasce a partir do clássico de Henrik Ibsen, publicado em 1882, mas não é uma adaptação convencional. “Não é uma adaptação. É um novo texto”, explicou Christiane Jatahy, encenadora que torna a Portugal depois de ter apresentado Depois do Silêncio, em 2024. “É um dos possíveis ‘depois’ de Um Inimigo do Povo. Noventa por cento da peça é texto novo.”A encenadora brasileira, uma das figuras mais reconhecidas do teatro contemporâneo internacional, revelou como o projeto começou a ganhar forma a partir de uma pergunta lançada a Wagner Moura. “O que é que do mundo te está a atravessar agora? O que é que queres falar? O que é que queres dizer?”. O ator devolveu-lhe a questão. “O que é que estás a ler?”, perguntou-lhe. A partir desse diálogo iniciou-se um processo criativo que durou cerca de dois anos.Jatahy admitiu que inicialmente resistiu à ideia de trabalhar sobre o texto de Ibsen. O que a atraía eram outros temas: a família, a relação entre irmãos, a ideia de duplo. “Como é que a polarização pode romper uma família?”, recordou. Mas acabou por reconhecer que o texto, que há muito apaixonava Wagner Moura, continha precisamente as perguntas que procurava. “Não me interessava trazer respostas. Interessavam-me as perguntas que ele convoca.”
A peça recupera a figura de Thomas Stockmann, o médico que denuncia a contaminação das águas da sua cidade e acaba isolado pela comunidade. Quase século e meio depois da obra original, a história é usada para discutir a crise da verdade, a polarização política, a questão ambiental, a dependência económica de determinados setores, a manipulação da informação e o avanço de discursos autoritários. “A questão climática é fundamental e não está na pauta do mundo”, observou Moura.








