“Yesteryear” e as "tradwives": história de um livro-fenómeno
▲ Título: "Yesteryear" | Autora: Caro Claire Burke | Editora: Porto Editora | Páginas: 436
Em 2024, Caro Claire Burke ainda só tinha escrito a primeira versão de Yesteryear, mas a apresentação às editoras foi de tal forma convincente que houve 15 candidatas a lutarem pelo livro. Os direitos ficaram nas mãos da Knopf, nos EUA, e a autora acabaria por ter mais dois anos para aperfeiçoar aquele que é o seu romance de estreia.
No mercado norte-americano, a obra foi publicada em abril de 2026. No mês seguinte, foi lançado em Portugal, pela Porto Editora. Mais de dois meses depois, continua a ocupar o primeiro lugar de conceituadas listas de bestsellers, como a do jornal The New York Times.Teve a sorte — e o engenho— de ser publicado nos EUA num momento em que certos debates se multiplicam. Fala de mulheres “tradicionais”, subserviência, poder, religião e política e mantém atual a discussão “vida real VS. vida nas redes sociais”; é uma sátira social, mas também é um thriller psicológico.Não tem sido consensual nas análises dos críticos, nem nas opiniões dos leitores — mas talvez seja por isso que toda a gente continua a falar dele. Tentemos perceber melhor este fenómeno chamado Yesteryear.
Natalie Heller Mills vive uma vida tradicional (é uma tradwife) numa quinta com vacas e galinhas; onde se faz pão de massa mãe e manteiga; onde há um marido que parece um cowboy moderno, uma fé que comanda os valores e seis filhos que crescem alheios às tecnologias que dominam o mundo. Todo este cenário perfeito alimenta um império que nasceu nas redes sociais — e que tem mais de oito milhões de seguidores — e já se expandiu para merchandise e a ideia de uma vida idílica.Nos bastidores há amas, produtoras, pesticidas que envenenam as alegadas produções biológicas, frigoríficos e fornos de última geração, mas isso ninguém precisa de saber. Além de tudo isto, Natalie não gosta assim tanto do marido (que considera pouco inteligente e pouco ambicioso) e há um escândalo prestes a rebentar que pode fazer desmoronar tudo o que criou.Um dia, Natalie acorda numa cama que não é a dela, numa casa que não reconhece, com filhos que não se parecem com os seus e numa época bem diferente: 1855. Sim, sempre elogiou as proezas dos pioneiros, mas será capaz de viver como eles (sem eletricidade, medicina, direitos)? Como é que isto aconteceu? Esta é a pergunta que alimenta grande parte do livro e que mantém os leitores colados às páginas, somando teorias variadas. Existe ainda uma segunda reviravolta mais para o final das mais de 400 páginas, mas esse não pode ser revelado sob pena de estragar toda a experiência.
▲ Título: “Yesteryear” | Autora: Caro Claire Burke | Editora: Porto Editora | Páginas: 436
“O que é uma tradwife?”, pergunta a dada altura a filha mais velha da protagonista. Foi o termo que inspirou a criação de Natalie e é a abreviação de “tradicional wife (esposa tradicional)”. São mulheres que abdicam de uma carreira para terem um papel feminino ao estilo dos anos 50. Dedicam-se inteiramente a tarefas domésticas, cozinham tudo do zero, ficam em casa a tratar dos filhos, sendo o marido o ganha pão e o decisor. Muitas são agora criadoras de conteúdo digital, embora ironicamente tenham renunciado à vida moderna.Apesar de ser essa a imagem que Natalie quer passar (boa mãe, esposa dedicada, católica ferrenha), ela é o oposto: manipuladora, mesquinha, egoísta e obcecada com a imagem pública. Ainda assim, há momentos em que o leitor é levado a sentir alguma empatia e isso torna a personagem complexa na mesma medida em que é fascinante.
Embora não seja o tema principal, está presente em vários pontos da narrativa. Natalie promove nas redes sociais a imagem de uma esposa submissa, precisamente uma das ideias defendidas no universo da manosfera, comunidades de homens que se manifestam sobretudo digitalmente sobre masculinidade, poder e política de género. As mulheres não precisam de ter carreira ou sequer uma vida fora de casa, o seu único foco deve ser a vida doméstica, a educação dos filhos e, claro, a obrigação de manter sempre o marido feliz.A família de Caleb, o marido de Natalie, é uma espécie de versão low cost dos Kennedy. A política corre-lhes nas veias há várias gerações, fazem parte da discussão, mas nunca saem da segunda divisão. Porém, têm dinheiro, influência e são capazes de colocar em cargos importantes até aquele que parece ser o homem mais inútil do planeta — sem grandes spoilers, estamos a falar de Caleb. A premissa é boa, mas acaba por nunca atingir o potencial que apresenta, sendo esse um dos grandes defeitos apontados à obra.
A palavra significa “no passado” ou “nos tempos do passado” e foi o pontapé de saída para o livro. Foi a primeira ideia a surgir à autora, já que é uma expressão que usa de vez em quando e, segundo aprópria, também a remete para um mundo de fantasia, ao estilo de Westworld — uma espécie de parque de diversões onde nem tudo é assim tão divertido.Nos EUA, o livro foi publicado em abril deste ano e antes disso já fazia parte das listas dos livros mais aguardados de 2026. Foi destacado pelo Good Morning America Book Club, de enorme popularidade nos EUA, e é bestseller de publicações como The Cut ou Los Angeles Times. Continua em primeiro lugar do top de ficção em capa dura do The New York Times (dados atualizados de 5 de julho, está há 11 semanas na lista) e o mesmo acontece na lista da Publishers Weekly. Na Apple Books lidera os tops digitais e de audiolivros.










